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Imagem gerada por IA: um monge de túnica simples escreve num códice, numa cela de pedra aberta para o mar; sobre a mesa, uma lamparina, um feixe de trigo e um broto num vaso de barro.

Por que há dogmas que não estão escritos na Bíblia?

Definir não é inventar. A Revelação está completa em Cristo; o que cresce é a compreensão da Igreja, e há critérios antigos para separar crescimento de invenção.

14 min de leitura

Imagem gerada por IA: Vicente de Lérins escreve o Comonitório no mosteiro da ilha de Lérins, por volta de 434, em estilo de pintura barroca. O trigo lembra a imagem que ele usa: quem semeou trigo deve colher trigo, e não joio. Não há retrato dele; a cena é uma representação

A resposta curta

Porque a Igreja não ensina que cada dogma precisa de um versículo que o diga com todas as letras. Ela ensina que a Revelação está completa em Cristo e que não haverá outra revelação pública (Catecismo, n. 66 e 73), mas que a compreensão dela cresce ao longo dos séculos (n. 94). Um dogma não acrescenta uma verdade nova: diz com palavras exatas, e com autoridade, algo que já estava na fé recebida, como aconteceu com a divindade do Filho em Niceia, no ano 325.

A objeção

O que se costuma dizer

A Igreja Católica vive criando dogmas. A Imaculada Conceição foi definida em 1854, a infalibilidade do papa em 1870 e a Assunção de Maria em 1950, e nenhum deles tem um versículo que diga isso com clareza. Se a fé foi entregue aos santos de uma vez por todas, como pode aparecer uma doutrina obrigatória mais de 1.800 anos depois de Cristo? Para quem pensa assim, cada dogma novo é a prova de que a Igreja acrescenta coisas à Palavra de Deus.

De onde vem a pergunta

De onde vem essa objeção?

A objeção nasce de um princípio da Reforma do século XVI. Os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, redigidos em 1563, dizem no artigo 6 que a Escritura contém tudo o que é necessário para a salvação, e que não se pode exigir de ninguém, como artigo de fé, o que nela não se lê nem por ela se pode provar. A questão de fundo, a autoridade da Escritura e da Tradição, tem duas aulas próprias nesta seção: A Bíblia é a única autoridade? e Os católicos seguem tradições humanas?.

Esse princípio não exige um versículo literal para cada doutrina. A Confissão de Westminster, do século XVII, base de muitas igrejas presbiterianas, ensina que o conselho de Deus está expressamente na Escritura ou pode ser deduzido dela "por consequência boa e necessária" (cap. 1, 6). Muitos evangélicos, portanto, aceitam doutrinas que não estão escritas com todas as letras, desde que se deduzam da Bíblia. O que eles negam é que a Imaculada, a Assunção ou a infalibilidade possam ser deduzidas assim.

A objeção tem também uma história curiosa. Um dos homens que mais a levaram a sério foi John Henry Newman, padre anglicano e membro do corpo docente do Oriel College, em Oxford. Ele mesmo usava contra Roma as variações da doutrina ao longo dos séculos. Grande estudioso dos padres da Igreja, retirou-se em Littlemore, perto de Oxford, e escreveu o Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã para entender essas variações. O livro ainda estava na gráfica quando Newman se convenceu da conclusão a que ele levava. Em 9 de outubro de 1845, foi recebido na Igreja Católica.

A pergunta certa

Qual é a pergunta honesta?

Muitos cristãos concordam que algumas verdades da fé não estão na Bíblia palavra por palavra. A palavra Trindade não aparece nela. E a Confissão de Augsburgo, dos luteranos (1530), começa declarando que o decreto do Concílio de Niceia sobre a unidade de Deus e as três pessoas é verdadeiro e deve ser crido sem nenhuma dúvida. Ninguém ali achava que Niceia tivesse inventado a fé.

Então a pergunta não é "está escrito com todas as letras?". A pergunta honesta é outra: quando a Igreja define um dogma, ela acrescenta uma verdade que Deus não revelou, ou diz com precisão algo que já estava na fé recebida? E, se a compreensão pode crescer, como distinguir o crescimento verdadeiro de uma invenção?

O que diz a Bíblia

A Bíblia fala de uma fé que não muda e de uma compreensão que cresce?

A Bíblia não traz uma regra dizendo que toda doutrina deve estar num versículo. O que ela mostra são duas coisas que andam juntas: um conteúdo entregue de uma vez, que deve ser guardado, e uma compreensão que amadurece.

O conteúdo não muda

Amados, desejando muito escrever-vos sobre a salvação que nos é comum, senti a necessidade de vos escrever para vos exortar a lutar pela fé que, de uma vez por todas, foi transmitida aos santos. (Jd 3)

Ó Timóteo, guarda o depósito, evitando o falatório vazio e profano e as contradições do que falsamente se chama conhecimento. (1Tm 6,20)

A palavra grega de Paulo é parathḗkē, depósito: algo entregue a alguém para ser guardado, não para ser mudado. Depois de Cristo, não há nova revelação pública (Catecismo, n. 66).

A compreensão cresce

Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas agora não as podeis suportar. Quando vier ele, o Espírito da verdade, vos guiará na verdade inteira. (Jo 16,12-13)

Jesus fala aos apóstolos, na última ceia. A Igreja lê nessa promessa também a assistência do Espírito a todos os fiéis, ao longo do tempo: o Catecismo diz que o Espírito Santo os conduz "à verdade total", citando este versículo (n. 91). É uma leitura da Igreja; o versículo, sozinho, fala dos discípulos.

O próprio Evangelho mostra os discípulos entendendo depois o que tinham visto e ouvido:

Quando, pois, ressuscitou dos mortos, os seus discípulos lembraram-se de que ele dissera isto, e creram na Escritura e na palavra que Jesus tinha dito. (Jo 2,22)

Os seus discípulos não entenderam isso no começo; mas, quando Jesus foi glorificado, lembraram-se de que essas coisas estavam escritas a respeito dele, e de que assim lhe tinham feito. (Jo 12,16)

Nada foi acrescentado ao que Jesus disse e fez. O que mudou foi a compreensão. O Vaticano II cita esses dois versículos ao falar da "compreensão mais plena" com que os apóstolos transmitiram, depois da Páscoa, o que Jesus fizera e dissera (Dei Verbum, n. 19). E Lucas mostra Maria no mesmo caminho:

Maria, porém, guardava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração. (Lc 2,19)

Mas eles não entenderam a palavra que lhes dissera. [...] E sua mãe guardava todas estas coisas no coração. (Lc 2,50-51)

O verbo de Lucas 2,19, symbállō, quer dizer juntar, comparar: Maria põe as coisas lado a lado para entendê-las. A Dei Verbum recorre justamente a estes dois versículos ao falar do crescimento da compreensão na Igreja (n. 8).

Os versículos estão em tradução nossa, feita a partir do grego. Para ler cada capítulo inteiro numa tradução católica, veja a Bíblia Ave-Maria: Judas 1, 1 Timóteo 6, João 16, João 2, João 12 e Lucas 2.

O que diziam os primeiros cristãos

Os antigos já falavam de crescimento sem mudança?

Sim, e com muita clareza.

Gregório de Nazianzo, em 380. Em Constantinopla, onde guiava a pequena comunidade fiel a Niceia, Gregório pregou cinco discursos sobre Deus. No quinto, sobre o Espírito Santo, responde a quem dizia que a divindade do Espírito não estava clara nas Escrituras. A resposta dele é uma pedagogia:

O Antigo [Testamento] anunciava claramente o Pai, e o Filho de modo mais obscuro. O Novo manifestou o Filho e deu a entrever a divindade do Espírito. Agora o Espírito habita entre nós e nos dá de si uma manifestação mais clara. (Discurso 31,26)

Logo depois, ele lembra as "muitas coisas" que os discípulos ainda não podiam suportar (Jo 16,12) e diz que, a seu ver, uma delas era a divindade do próprio Espírito (31,27). Gregório fala desse caso, não de todos os dogmas; mas a ideia de uma luz que vem aos poucos já está aí.

Vicente de Lérins, por volta de 434. Monge da ilha de Lérins, no sul da Gália, escreveu o Comonitório cerca de três anos depois do Concílio de Éfeso, como ele mesmo conta (cap. 29). É dele a regra de crer "o que foi crido em toda parte, sempre e por todos", explicada na aula Quem garante que a Igreja Católica é a verdadeira?. Menos conhecido é o que ele escreve sobre o depósito de 1 Timóteo 6,20:

O que é o depósito? É o que te foi confiado, não o que inventaste; o que recebeste, não o que imaginaste. (Comonitório 22)

E logo em seguida ele faz a pergunta desta aula:

Mas talvez alguém diga: então não haverá nenhum progresso da religião na Igreja de Cristo? Haja, sim, e muito grande. [...] Contanto que seja de fato progresso da fé, e não mudança. (Comonitório 23)

Para Vicente, progredir é uma coisa crescer em si mesma; mudar é virar outra coisa. A inteligência da fé deve crescer, "mas só no seu próprio gênero, isto é, no mesmo dogma, no mesmo sentido e no mesmo significado". E ele dá a comparação do corpo: o menino e o velho são a mesma pessoa, e o que aparece no adulto já estava, em semente, na criança. No mesmo capítulo, fala do trigo: se os antigos semearam trigo no campo da Igreja, os de hoje devem colher trigo, e não joio.

No capítulo 22, ele resume o trabalho de quem ensina a fé numa frase difícil de esquecer: ensinar as mesmas coisas que aprendeu, de modo que, "dizendo de modo novo, não digas coisas novas". Mais de 1.400 anos depois, em 1870, o Concílio Vaticano I fez suas as palavras de Vicente sobre o crescimento "no mesmo sentido" (Dei Filius, cap. 4).

As frases de Gregório estão em tradução nossa a partir do grego; as de Vicente, a partir do latim.

O que a Igreja ensina

O que a Igreja ensina sobre os dogmas?

A Igreja não diz que os dogmas estão todos escritos na Bíblia com todas as letras. Diz que eles pertencem à Revelação, que chegou até nós pela Escritura e pela Tradição, e que o Magistério não pode inventar nada. Estes trechos resumem o ensino:

[…] quando propõe, dum modo que obriga o povo cristão a uma adesão irrevogável de fé, verdades contidas na Revelação divina […]

Catecismo da Igreja Católica, n. 88

No entanto, apesar de a Revelação já estar completa, ainda não está plenamente explicitada.

Catecismo da Igreja Católica, n. 66

Esta tradição apostólica progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo […]

Concílio Vaticano II, Dei Verbum, n. 8

Graças à assistência do Espírito Santo, a inteligência das realidades e das palavras do depósito da fé pode crescer na vida da Igreja […]

Catecismo da Igreja Católica, n. 94

[…] este Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido […]

Catecismo da Igreja Católica, citando a Dei Verbum (n. 10), n. 86

Repare no equilíbrio. O Catecismo diz que a Revelação está completa, mas não está plenamente explicitada (n. 66). O que cresce não é o depósito, é a sua compreensão, que avança pelo estudo e pela oração dos fiéis, pela experiência das coisas espirituais e pela pregação dos bispos (n. 94). E o Magistério só pode propor como revelado o que tira desse depósito (n. 86).

Também ajuda distinguir três coisas, para não exagerar o que a Igreja ensina:

  • Dogma é a verdade que a Igreja propõe, de modo definitivo, como revelada por Deus, e que pede a adesão da fé (n. 88).
  • Doutrina é tudo o que a Igreja ensina; nem toda doutrina foi definida como dogma, mas o ensino ordinário também pede dos fiéis «o assentimento religioso do seu espírito» (n. 892).
  • Opinião teológica é o que fica livre entre os teólogos. Na Assunção, por exemplo, foi definido que Maria foi levada ao céu em corpo e alma; se ela morreu antes, a Igreja não definiu (veja a aula Onde a Bíblia fala da Assunção de Maria?).

Os trechos são curtos; o texto inteiro está no link de cada um.

O que a história mostra

Como distinguir crescimento de invenção?

O livro de Newman. No Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã (1845), Newman compara a doutrina a uma grande ideia que entra na história: enfrenta perguntas e perigos novos e se expressa de maneiras novas sem deixar de ser ela mesma. Daí a frase mais citada do livro:

Num mundo mais alto é diferente, mas aqui embaixo viver é mudar, e ser perfeito é ter mudado muitas vezes. (Ensaio, cap. 1)

Newman não dizia que tudo o que muda está certo. Na edição revista de 1878, ele lista sete sinais para distinguir um desenvolvimento verdadeiro de uma corrupção (cap. 5). Em resumo:

  1. o mesmo tipo: o adulto continua sendo o mesmo ser que era na infância;
  2. os mesmos princípios: as regras de fundo não mudam;
  3. força de assimilação: a ideia acolhe o que é bom de fora sem se dissolver;
  4. sequência lógica: o que vem depois decorre do que veio antes;
  5. antecipação: o que aparece tarde já se anunciava cedo;
  6. conservação do passado: o novo protege o antigo, em vez de destruí-lo;
  7. vigor duradouro: a corrupção se esgota; o desenvolvimento verdadeiro continua vivo.

São critérios de um teólogo, não uma definição da Igreja. Mas Newman, que a Igreja canonizou, foi proclamado Doutor da Igreja pelo papa Leão XIV em 1º de novembro de 2025.

Alguns exemplos. O padrão se repete. Em 325, contra Ário, o Concílio de Niceia disse que o Filho é homoúsios, "da mesma substância" do Pai, palavra que não está na Bíblia, para guardar o que a Bíblia diz (veja Onde está a Trindade na Bíblia?). Em 431, o Concílio de Éfeso proclamou que Maria é Mãe de Deus, porque o filho que ela concebeu é o próprio Filho de Deus (Catecismo, n. 466): era um jeito de dizer quem é Jesus. Naquela noite, segundo os relatos do concílio, o povo de Éfeso levou os bispos para casa com tochas e incenso. Sobre a verdade de que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o Catecismo resume que "teve a Igreja de a defender e clarificar no decurso dos primeiros séculos, perante heresias que a falsificavam" (n. 464).

Os dogmas marianos e a infalibilidade seguem o mesmo caminho, cada um com a sua história, contada nas aulas A Imaculada Conceição contradiz Romanos 3,23?, Onde a Bíblia fala da Assunção de Maria? e Como o papa pode ser infalível se papas erraram?. Nos três casos houve séculos de reflexão e debate antes da definição; no caso da Imaculada, até santos como Bernardo de Claraval e Tomás de Aquino tiveram reservas.

E quem decide? Os sinais de Newman ajudam a pensar, mas não decidem sozinhos. Para a Igreja, quem julga com autoridade é o Magistério, a serviço da Palavra de Deus (Catecismo, n. 86). Esta é a diferença real com muitos irmãos evangélicos, tratada na aula A Bíblia é a única autoridade?.

Imagem gerada por IA: ao anoitecer, uma multidão com tochas e incenso acompanha um grupo de bispos idosos de mantos claros por uma rua de colunas romanas.
Imagem gerada por IA: Éfeso, 22 de junho de 431: depois da sessão do concílio que confessou Maria como Mãe de Deus, o povo acompanhou os bispos com tochas e incenso, segundo os relatos do concílio. Cena representada em estilo de pintura barroca

Linha do tempo

Da fé recebida às definições, em datas

Em destaque, o texto do Concílio que explica a lógica de todas as outras datas.

  1. séc. IOs apóstolosPregam e escrevem o que receberam de Cristo; depois d'Ele não haverá outra revelação pública (Catecismo, n. 66 e 73).
  2. 325Concílio de NiceiaContra Ário, diz que o Filho é "da mesma substância" do Pai.
  3. 431Concílio de ÉfesoProclama Maria Mãe de Deus, porque o seu filho é o Filho de Deus (Catecismo, n. 466).
  4. c. 434Vicente de LérinsEscreve que a fé deve progredir no mesmo sentido, sem virar outra coisa.
  5. 451Concílio de CalcedôniaConfessa Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, em duas naturezas (Catecismo, n. 467).
  6. 1845O Ensaio de NewmanNewman publica o livro sobre o desenvolvimento da doutrina e entra na Igreja Católica.
  7. 1854Imaculada ConceiçãoPio IX define o dogma em 8 de dezembro.
  8. 1870Concílio Vaticano IDefine a infalibilidade do papa e retoma as palavras de Vicente sobre o crescimento no mesmo sentido.
  9. 1950Assunção de MariaPio XII define o dogma.
  10. 1965Dei VerbumO Vaticano II ensina que a compreensão da Tradição apostólica progride na Igreja.
  11. 2025Newman, Doutor da IgrejaLeão XIV o proclama em 1º de novembro.

Lado a lado

A objeção e a resposta, lado a lado

O que se dizO que a Igreja ensinaOnde conferir
Se não está num versículo, é invenção.Um dogma precisa estar contido na Revelação, não necessariamente num versículo literal. Muitos evangélicos também aceitam o que se deduz da Escritura.Catecismo, n. 88; Confissão de Westminster 1,6
A Igreja cria verdades novas.Depois de Cristo não há nova revelação pública; o Magistério só ensina o que foi transmitido.Catecismo, n. 66 e 86
Se a fé foi entregue de uma vez, nada pode crescer.O depósito não muda; a compreensão dele cresce, como cresceu a dos discípulos depois da Páscoa.Jd 3; Jo 2,22; Dei Verbum, n. 8
Desenvolvimento é desculpa para qualquer mudança.Crescer é diferente de virar outra coisa: no mesmo dogma, no mesmo sentido, no mesmo significado.Vicente de Lérins, Comonitório 23; Newman, Ensaio, cap. 5
Dogma novo é fé nova.Muitas vezes, a definição põe em palavras exatas uma fé que estava sendo negada, como em Niceia e em Éfeso.Catecismo, n. 464 e 466

Os frutos

Por que isso importa?

O Catecismo diz: "Os dogmas são luzes no caminho da nossa fé: iluminam-no e tornam-no seguro" (n. 89). Uma Igreja que não pudesse dizer com clareza o que crê ficaria sem resposta diante de cada leitura nova da Bíblia, como a de Ário, que concluía dos mesmos livros que o Filho era uma criatura.

Ao mesmo tempo, essa doutrina é um freio para a própria Igreja. Se o Magistério só pode ensinar o que recebeu (n. 86), nenhum papa e nenhum concílio pode inventar uma fé nova. O desenvolvimento bem entendido protege contra duas tentações opostas: congelar a fé numa fórmula, sem deixá-la amadurecer, e mudá-la ao gosto de cada época.

E há um fruto pessoal. Maria guardava as coisas e as ponderava no coração. É o caminho de todo cristão: a fé recebida no batismo é a mesma a vida inteira, mas a gente a entende melhor com os anos, na oração, na leitura da Bíblia e na vida da Igreja.

Nada disso é para vencer uma discussão. Os evangélicos que creem em Cristo são, como ensina o Catecismo, irmãos no Senhor (n. 818), e muitos professam a mesma fé de Niceia. O convite é perguntar juntos onde está a fé dos apóstolos, guardada e compreendida ao longo do tempo.

Para guardar

Dogma não é verdade nova: é a fé recebida dos apóstolos, dita com palavras exatas quando foi preciso. A Revelação está completa; o que cresce é a compreensão dela, no mesmo sentido e no mesmo significado.

Teste

Teste o que você aprendeu

5 perguntas. A resposta aparece assim que você escolhe.

  1. 1. Segundo o Catecismo (n. 66), como está a Revelação hoje?

  2. 2. Quem escreveu, por volta de 434, que a fé deve progredir "no mesmo dogma, no mesmo sentido e no mesmo significado"?

  3. 3. Em que ano John Henry Newman escreveu o Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã e entrou na Igreja Católica?

  4. 4. Que versículos o Concílio Vaticano II cita ao dizer que a compreensão cresce pela «contemplação e estudo dos crentes, que as meditam no seu coração»?

  5. 5. O que o Catecismo (n. 86) diz sobre o Magistério e a Palavra de Deus?

Perguntas frequentes

Um dogma pode mudar de sentido com o tempo?

Não. O Concílio Vaticano I ensinou, em 1870, que o sentido dos dogmas declarado pela Igreja deve ser mantido para sempre, e que ninguém pode se afastar dele com a desculpa de uma compreensão mais alta (Dei Filius, cap. 4). O que pode mudar é a linguagem, a profundidade e a ligação com outras verdades; o sentido, não.

A Igreja pode criar um dogma novo amanhã?

Só pode definir o que já está contido na Revelação (Catecismo, n. 86 e 88). O Vaticano I disse que o Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro para revelarem doutrina nova, mas para guardarem e exporem fielmente o depósito da fé, como explica a aula Como o papa pode ser infalível se papas erraram?.

Uma revelação particular, como a de Fátima, pode virar dogma?

Não. O Catecismo ensina que as revelações chamadas particulares, mesmo quando reconhecidas pela Igreja, não pertencem ao depósito da fé. Elas não completam a Revelação de Cristo; ajudam a vivê-la melhor numa época (n. 67). Nenhum dogma se apoia numa aparição.

O que é a "hierarquia das verdades"?

É a ideia, retomada pelo Catecismo, de que as verdades da fé não têm todas o mesmo lugar, porque a ligação de cada uma com o fundamento da fé cristã é diferente (n. 90). Isso não quer dizer que algumas possam ser negadas; quer dizer que tudo se entende a partir do centro, que é o mistério de Cristo.

Newman é santo e Doutor da Igreja?

Sim. Bento XVI o beatificou em 19 de setembro de 2010, durante a viagem à Grã-Bretanha; Francisco o canonizou em 13 de outubro de 2019; e Leão XIV o proclamou Doutor da Igreja em 1º de novembro de 2025, nomeando-o também copadroeiro, com Tomás de Aquino, de todos os que trabalham na educação.

Para ir mais fundo

Fontes

  1. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 66, 67, 73, 86, 88, 89, 90, 91 e 94
  2. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 464, 466 e 467 (Niceia, Éfeso e Calcedônia)
  3. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 818 e 892
  4. VaticanoConcílio Vaticano II, Dei Verbum, n. 8, 10 e 19
  5. VaticanoConcílio Vaticano I, Dei Filius, cap. 4 (em latim)
  6. VaticanoConcílio Vaticano I, Pastor Aeternus, cap. 4 (em latim): nenhuma doutrina nova
  7. VaticanoPio IX, Ineffabilis Deus, 8 de dezembro de 1854 (em italiano)
  8. VaticanoPio XII, Munificentissimus Deus, 1º de novembro de 1950
  9. VaticanoLeão XIV, homilia de 1º de novembro de 2025: proclamação de Newman como Doutor da Igreja
  10. Vatican NewsBiografia de John Henry Newman (beatificação em 2010, canonização em 2019)
  11. Bible HubTexto grego de Judas 3
  12. Bible HubTexto grego de 1 Timóteo 6,20
  13. Bible HubTexto grego de João 16,12
  14. Bible HubTexto grego de João 16,13
  15. Bible HubTexto grego de João 2,22
  16. Bible HubTexto grego de João 12,16
  17. Bible HubTexto grego de Lucas 2,19
  18. Bible HubTexto grego de Lucas 2,50
  19. Bible HubTexto grego de Lucas 2,51
  20. First1KGreekGregório de Nazianzo, Discurso 31, texto grego (26 e 27)
  21. New AdventGregório de Nazianzo, Quinto discurso teológico (tradução inglesa)
  22. Catholic EncyclopediaGregory of Nazianzus: os discursos teológicos de 380
  23. The Latin LibraryVicente de Lérins, Comonitório, texto latino (cap. 22, 23 e 29)
  24. New AdventVicente de Lérins, Comonitório (tradução inglesa)
  25. Newman ReaderNewman, Ensaio sobre o desenvolvimento, capítulo 1 (a frase sobre viver e mudar)
  26. Newman ReaderNewman, Ensaio sobre o desenvolvimento, capítulo 5 (os sete sinais)
  27. Newman ReaderNewman, Ensaio: advertência de Littlemore (6/10/1845) e pós-escrito sobre a conversão
  28. Catholic EncyclopediaJohn Henry Newman: o Ensaio e a recepção na Igreja em 9 de outubro de 1845
  29. Catholic EncyclopediaCouncil of Ephesus: a sessão de 22 de junho de 431 e as tochas do povo
  30. Catholic EncyclopediaImmaculate Conception: as reservas de Bernardo de Claraval e de Tomás de Aquino
  31. Victorian WebOs Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra (1563), artigo 6
  32. Orthodox Presbyterian ChurchConfissão de Westminster, capítulo 1
  33. Book of ConcordConfissão de Augsburgo (1530), artigo 1
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