A resposta curta
Depende de qual tradição. Em Marcos 7, Jesus condena a tradição dos homens que anula o mandamento de Deus, como o costume que dispensava um filho de sustentar os pais; mas o mesmo Novo Testamento elogia quem guarda as tradições recebidas dos apóstolos (1Cor 11,2). A Igreja distingue essa Tradição apostólica, que não muda no que transmite, dos costumes nascidos depois, que podem ser mantidos, modificados ou abandonados (Catecismo, n. 83).
A objeção
O que se costuma dizer
Jesus foi claro: "Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens" (Mc 7,8). Paulo também avisou contra a "tradição dos homens" (Cl 2,8). A Igreja Católica faz o que os fariseus faziam: tem um monte de práticas que não estão na Bíblia, como o terço, a água benta, o celibato dos padres e as procissões, e as trata como se fossem mandamento de Deus. É exatamente o que Jesus condenou.
De onde vem a pergunta
De onde vem essa objeção?
A crítica às "tradições humanas" foi um dos motores da Reforma, e ela tinha alvo real. A Confissão de Augsburgo, que os luteranos apresentaram ao imperador em 1530, reclama que "novas cerimônias, novas ordens, novos dias santos e novos jejuns" eram criados a cada dia e cobrados como obras necessárias para merecer a graça (art. 26).
Vale notar o que os luteranos não diziam. A mesma confissão manda observar os costumes da Igreja "que podem ser observados sem pecado" e que ajudam a paz e a boa ordem, como dias santos e festas, desde que ninguém os tome como necessários para a salvação (art. 15). E, para apoiar a crítica, cita Agostinho, que também se queixava de costumes que pesavam sobre os fiéis (art. 26). As Igrejas reformadas foram mais longe: a Confissão de Westminster, de 1646, ensina que Deus só deve ser cultuado do modo que Ele mesmo prescreveu na Escritura, e não segundo "as imaginações e invenções dos homens" (cap. 21, 1).
Hoje, a objeção costuma misturar sacramentos, verdades de fé, leis da Igreja e devoções. É preciso separá-los.
A pergunta certa
Qual é a pergunta que importa?
A pergunta honesta é: quando Jesus e Paulo condenam a "tradição dos homens", condenam toda tradição, ou uma espécie de tradição? E de que espécie é cada costume católico?
O peso da Tradição apostólica ao lado da Escritura, e quem a interpreta, é o tema da aula A Bíblia é a única autoridade?. Aqui o assunto é a diferença entre essa Tradição e as tradições que nasceram depois.
O que diz a Bíblia
O que Jesus condena em Marcos 7, e o que Paulo manda guardar?
A cena inteira
Fariseus e escribas vindos de Jerusalém veem alguns discípulos comendo sem lavar as mãos. Marcos explica aos leitores que os fariseus, e todos os judeus, não comiam sem lavar as mãos, "apegando-se à tradição dos antigos", e que guardavam muitas outras regras de lavar copos, jarros e vasilhas de bronze (Mc 7,3-4). Então perguntam:
Por que os teus discípulos não vivem segundo a tradição dos antigos, mas comem o pão com mãos impuras? Ele lhes disse: Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, como está escrito: Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me prestam culto, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens. (Mc 7,5-8)
E Jesus dá um exemplo:
Moisés disse: Honra teu pai e tua mãe; e: Quem amaldiçoar o pai ou a mãe seja punido com a morte. Vós, porém, dizeis: Se alguém disser ao pai ou à mãe: Aquilo com que eu poderia te ajudar é corbã, isto é, oferta, já não o deixais fazer nada pelo pai ou pela mãe. Assim anulais a palavra de Deus pela tradição que vós transmitistes. E fazeis muitas outras coisas semelhantes. (Mc 7,10-13)
Corbã é uma palavra hebraica que o próprio Marcos traduz: oferta. Declarar um bem "oferta" consagrada a Deus servia de desculpa para não sustentar os pais. Repare nos três traços do que Jesus condena: é uma tradição "dos homens" (v. 8), que "anula" o mandamento de Deus (v. 9 e 13), junto com um culto só de lábios (v. 6). Jesus não condena a ideia de transmitir algo, mas a tradição usada para fugir de um mandamento de Deus (veja também Mt 15,1-9).
A mesma palavra, usada para o bem
O grego do Novo Testamento usa a palavra parádosis, tradição, treze vezes. Oito estão nesta discussão com os fariseus, em Mateus 15 e Marcos 7. As outras cinco estão em Paulo: uma de alerta (Cl 2,8), uma sobre o seu passado no judaísmo (Gl 1,14) e três positivas, de tradições que ele mesmo transmitiu:
Eu vos louvo porque em tudo vos lembrais de mim e guardais as tradições assim como eu vo-las transmiti. (1Cor 11,2)
Nós vos ordenamos, irmãos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que vos afasteis de todo irmão que vive na desordem e não segundo a tradição que de nós receberam. (2Ts 3,6)
A terceira é 2 Tessalonicenses 2,15, comentada na aula sobre a sola Scriptura. Paulo usa também os mesmos verbos de "receber" e "transmitir" para o coração da fé:
Pois eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão... (1Cor 11,23)
Transmiti-vos, antes de tudo, o que eu mesmo recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras. (1Cor 15,3)
Em Marcos 7,4, os fariseus guardam regras que "receberam"; em 1 Coríntios 11,2, os coríntios "guardam" o que Paulo "transmitiu". O vocabulário é o mesmo; o que muda é a fonte. De um lado, a "vossa tradição", "dos homens"; do outro, o que vem "do Senhor" pelos apóstolos, que, na Eucaristia e na ressurreição, é o próprio Evangelho. E Paulo, que antes de conhecer Cristo era zeloso "das tradições dos meus pais" (Gl 1,14), conhecia as duas coisas por dentro.
Colossenses 2, no contexto
Assim como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele, enraizados e edificados nele, firmes na fé, como fostes ensinados [...]. Cuidado para que ninguém vos faça presa por meio da filosofia e de um engano vazio, segundo a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo. (Cl 2,6-8)
O versículo 8 vem logo depois de Paulo se alegrar com a firmeza da fé deles (v. 5) e de pedir que continuem no Cristo que receberam (v. 6-7; "recebestes" é o verbo da transmissão). E Paulo diz o que tem em mente: regras sobre comida e bebida, festas, luas novas e sábados (v. 16), um culto aos anjos (v. 18) e proibições como "Não pegues, não proves, não toques" (v. 21), "segundo os preceitos e as doutrinas dos homens" (v. 22). As palavras gregas desse versículo 22 são as mesmas da tradução grega (Septuaginta) de Isaías 29,13, que Jesus cita em Marcos 7,7, e muitos estudiosos veem aí um eco. O critério de Paulo cabe em três palavras: "segundo Cristo", ou não.
Jesus e os costumes do seu povo
Jesus também não rejeitou todo costume que não estava na Lei de Moisés.
Celebrava-se então em Jerusalém a festa da Dedicação. Era inverno, e Jesus andava no Templo, no pórtico de Salomão. (Jo 10,22-23)
A festa da Dedicação não está na Lei de Moisés. Foi instituída por Judas Macabeu, pelos seus irmãos e por toda a assembleia de Israel, depois da purificação do Templo, por volta de 165 a 164 antes de Cristo (1Mc 4,52-59). E Jesus estava no Templo durante essa festa. Mesmo criticando duramente a conduta dos escribas e fariseus, Ele disse que eles se sentavam na cadeira de Moisés e mandou: "Fazei e observai tudo o que eles vos disserem, mas não façais segundo as obras deles" (Mt 23,2-3).
Os versículos estão em tradução nossa, feita a partir do grego; 1 Macabeus foi conferido no grego da Septuaginta. Para ler cada capítulo inteiro numa tradução católica, veja a Bíblia Ave-Maria: Marcos 7, Mateus 15, 1 Coríntios 11, 2 Tessalonicenses 3, 1 Coríntios 15, Gálatas 1, Colossenses 2, João 10, 1 Macabeus 4 e Mateus 23.
O que diziam os primeiros cristãos
Como os primeiros cristãos separavam uma tradição da outra?
Tertuliano, por volta de 200: o perigo era a filosofia. Em A prescrição dos hereges, Tertuliano cita Colossenses 2,8. Para ele, o aviso de Paulo contra a "tradição dos homens" mirava as especulações filosóficas que alimentavam as heresias do seu tempo, como as de Valentino e de Marcião (7,3). Foi aí que escreveu a frase famosa:
Que tem, pois, Atenas a ver com Jerusalém? Que tem a Academia a ver com a Igreja? (A prescrição dos hereges 7,9)
No mesmo livro, mede a doutrina verdadeira pelas Igrejas fundadas pelos apóstolos (21,4).
Cipriano e Estêvão, por volta de 256: uma disputa entre santos. A pergunta "isto é tradição humana?" não é nova. Em Cartago, o bispo Cipriano batizava quem vinha de um grupo herético, por considerar nulo o batismo recebido ali. Em Roma, o papa Estêvão mandava apenas impor as mãos e escreveu, segundo Cipriano: que nada se inove, a não ser o que foi transmitido. Cipriano respondeu com Marcos 7. Numa carta, perguntou que obstinação era aquela de "preferir a tradição humana à disposição divina", citou Isaías 29,13 e Marcos 7,13 e escreveu uma frase que ficou famosa:
O costume sem a verdade é a velhice do erro. (Carta 74,9)
No Ocidente, a questão foi resolvida a favor da prática de Roma: em 314, o Concílio de Arles decidiu que quem viesse de um grupo herético e tivesse sido batizado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo receberia só a imposição das mãos. Por volta de 400, Agostinho, que discordava de Cipriano nesse ponto, elogiou o conselho dele de "voltar à fonte, isto é, à tradição apostólica" (Sobre o batismo V,26,37). O critério dos dois lados era o mesmo: o que vem dos apóstolos e é guardado pela Igreja. Cipriano morreu mártir em 258, e os dois, ele e Estêvão, são venerados como santos.
Agostinho, no ano 400: o que é de todos e o que é de cada lugar. Respondendo a um certo Januário, Agostinho separa dois tipos de costume. Há os que se guardam no mundo inteiro, como as festas anuais da paixão, da ressurreição e da ascensão do Senhor e da vinda do Espírito Santo; desses, diz ele, pode-se entender que foram aprovados e instituídos pelos próprios apóstolos ou por concílios gerais (Carta 54,1). E há os que variam de lugar para lugar, como jejuar ou não no sábado. Para estes, conta a resposta de Ambrósio, bispo de Milão, que ele foi consultar em nome da mãe, Mônica, quando ela ficou em dúvida sobre o que fazer:
Quando estou em Roma, jejuo no sábado; quando estou aqui, não jejuo. (Carta 54,3)
Na carta seguinte, Agostinho se queixa dos costumes que se multiplicavam sem base na Escritura, nos concílios ou no uso da Igreja inteira: deviam ser cortados sempre que possível, porque oprimiam com cargas pesadas a religião que Deus, na sua misericórdia, quis livre (Carta 55,35). É a queixa que os luteranos citaram em 1530.
A frase de Tertuliano está em tradução nossa a partir do latim. As de Cipriano e de Agostinho foram traduzidas a partir das versões inglesas indicadas nas fontes; na tradução inglesa, a carta de Cipriano é a 73.

O que a Igreja ensina
O que a Igreja ensina sobre a Tradição e as tradições?
O Catecismo trata da diferença no número 83, sob um título que já diz tudo: "Tradição apostólica e tradições eclesiais".
A Tradição de que falamos aqui é a que vem dos Apóstolos.
É preciso distinguir, desta Tradição, as «tradições» teológicas, disciplinares, litúrgicas ou devocionais, nascidas no decorrer do tempo nas Igrejas locais.
É à sua luz que estas podem ser mantidas, modificadas e até abandonadas, sob a direcção do Magistério da Igreja.
[…] a Liturgia compõe-se duma parte imutável, porque de instituição divina, e de partes susceptíveis de modificação […]
Nem mesmo a autoridade suprema da Igreja pode mudar a liturgia a seu bel-prazer […]
A Igreja peregrina é chamada por Cristo a essa reforma perene.
O Catecismo faz, portanto, a mesma distinção que o Novo Testamento. A Tradição com T maiúsculo é a que vem dos apóstolos: transmite o que eles receberam do ensino e do exemplo de Jesus e aprenderam pelo Espírito Santo, e não muda no que transmite, embora a Igreja a compreenda cada vez mais (Dei Verbum 8). As tradições com t minúsculo são formas que essa fé ganhou em cada lugar e época; valem enquanto servem à grande Tradição e podem mudar. O critério de Jesus em Marcos 7 continua de pé: nenhum costume pode ser usado para anular um mandamento de Deus. O decreto do Concílio sobre o ecumenismo reconhece ainda que pode haver deficiências na moral, na disciplina da Igreja e até no modo de enunciar a doutrina, que deve ser cuidadosamente distinguido do próprio depósito da fé, e pede que tudo seja restaurado no momento oportuno (Unitatis Redintegratio 6). A "reforma perene" de que fala o Concílio é uma fidelidade maior à própria vocação.
Também o Concílio de Trento, em 1546, falou só das tradições recebidas dos apóstolos, como mostra a aula A Bíblia é a única autoridade?. Os trechos são curtos; o texto inteiro está no link de cada um.
Lado a lado
De que tipo é cada costume?
| O que se pratica | Que tipo de coisa é | Pode mudar? | Onde conferir |
|---|---|---|---|
| O batismo e a Eucaristia | Sacramentos que a Igreja recebeu de Cristo pelos apóstolos | Não no que é de instituição divina; os ritos em volta, sim | Mt 28,19; 1Cor 11,23; Sacrosanctum Concilium 21 |
| O Credo dos Apóstolos | Resumo fiel da fé dos apóstolos | Não no conteúdo | 1Cor 15,3; Catecismo, n. 194 |
| O celibato dos padres latinos | Disciplina da Igreja latina | Por ser disciplina, poderia mudar; as Igrejas orientais têm outra regra | Catecismo, n. 1579 e 1580 |
| A Missa em latim | Costume litúrgico | Pode mudar e já mudou: o Vaticano II manteve o latim nos ritos latinos e abriu mais espaço para a língua de cada povo | Sacrosanctum Concilium 36 |
| Jejuar ou não no sábado | Costume local | Já variava de cidade para cidade no século IV | Agostinho, Carta 54 |
| As procissões | Expressão da piedade popular | Sim, sob o discernimento dos bispos; prolongam a liturgia, mas não a substituem | Catecismo, n. 1674 a 1676 |
| O terço | Devoção recomendada pela Igreja | É livre: os fiéis devem se sentir "serenamente livres" em relação a ele | Paulo VI, Marialis Cultus 55 |
O que a história mostra
E quando um costume vira peso?
A tradição dos fariseus era toda ruim? Não. Os próprios mestres judeus das gerações seguintes discutiram o problema do corbã. A Mixná, a coleção de leis judaicas reunida por volta do ano 200, registra que os sábios aceitavam desfazer um voto que atingia a relação de alguém com o pai e a mãe (Nedarim 9,1). O que Jesus denuncia não é o povo judeu nem o estudo da Lei, mas um uso da tradição que deixava de lado o mandamento de Deus.
O risco também existe entre católicos. Seria desonesto dizer que nunca houve, na Igreja, costume que pesasse mais que o mandamento; Agostinho já reclamava disso, e o Catecismo reconhece que as rupturas entre os cristãos aconteceram "às vezes por culpa dos homens duma e doutra parte" (n. 817). Quem trata uma devoção como mais importante que a caridade, ou que a Missa, repete o erro de Marcos 7 com roupa católica. O Catecismo chama de superstição atribuir efeito quase mágico a gestos e orações sem as disposições interiores que eles pedem (n. 2111).
Como saber de que tipo é um costume? Três perguntas, tiradas dos próprios textos, ajudam:
- De onde vem? Dos apóstolos, guardado pela Igreja inteira, ou de um lugar e de uma época?
- Ajuda a cumprir o mandamento de Deus, ou serve para fugir dele?
- É "segundo Cristo" (Cl 2,8)?
Um costume local pode ser ótimo e ainda assim não obrigar a todos. E um costume que anule um mandamento de Deus não vale, por mais antigo que seja. A frase de Cipriano vale, mesmo que ele a tenha aplicado mal no caso do batismo: o costume sem a verdade é a velhice do erro.
E os dogmas e a lista dos livros da Bíblia? Verdades de fé definidas, como a Assunção de Maria, não são costumes locais nem devoções; são o tema da aula Por que há dogmas que não estão escritos na Bíblia?. A lista dos livros, que nenhum versículo traz, fica para Por que a Bíblia católica tem sete livros a mais?.
Os frutos
O que essa distinção traz de bom?
Liberdade e firmeza ao mesmo tempo. Liberdade, porque o católico não é obrigado a todas as devoções e pode viver em paz com quem reza de outro modo, como na resposta de Ambrósio que Agostinho levou a Mônica. Firmeza, porque aquilo que vem dos apóstolos (o batismo, a Eucaristia, o Credo, a fé que eles pregaram) não fica à mercê da moda de cada época.
Com os irmãos evangélicos, há um ponto de partida comum. Muitas igrejas evangélicas também têm costumes que não estão escritos na Bíblia, como a ordem do culto ou a festa de Natal. Isso não é um defeito: é sinal de que toda comunidade cristã vive de alguma tradição. A pergunta, então, não é se existe tradição, mas qual tradição vem dos apóstolos e qual anula o mandamento de Deus.
Para guardar
Jesus não condenou toda tradição: condenou a tradição dos homens que anula o mandamento de Deus. A Tradição que vem dos apóstolos, Paulo manda guardar; os costumes que vieram depois podem ser mantidos, mudados ou deixados, à luz dela.
Teste
Teste o que você aprendeu
5 perguntas. A resposta aparece assim que você escolhe.
1. Em Marcos 7, que costume Jesus dá como exemplo de tradição que anula o mandamento de Deus?
Em Mc 7,10-13, Jesus lembra o mandamento de honrar pai e mãe e denuncia o costume de declarar um bem corbã, oferta, para deixar de ajudar os pais: assim se anulava a palavra de Deus pela tradição.
2. Em 1 Coríntios 11,2, o que Paulo diz das tradições?
Paulo louva os coríntios porque se lembram dele e guardam as tradições assim como ele as transmitiu. É a mesma palavra, parádosis, que aparece em Marcos 7.
3. Em Colossenses 2,8, qual é o critério de Paulo para rejeitar uma tradição?
Paulo avisa contra a filosofia e o engano vazio "segundo a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo". Logo antes, Paulo pede que continuem no Cristo que receberam (Cl 2,6-7).
4. Segundo o Catecismo (n. 83), o que pode acontecer com as tradições teológicas, disciplinares, litúrgicas ou devocionais nascidas nas Igrejas locais?
O Catecismo distingue a Tradição que vem dos apóstolos das tradições nascidas depois, e diz que estas podem ser mantidas, modificadas e até abandonadas, à luz da grande Tradição, sob a direção do Magistério.
5. O que Ambrósio respondeu sobre o jejum do sábado, segundo Agostinho?
Na Carta 54, Agostinho conta que Ambrósio disse: quando estou em Roma, jejuo no sábado; quando estou aqui, não jejuo. Era um costume local, que variava de cidade para cidade.
Perguntas frequentes
O celibato dos padres é tradição humana?
É uma disciplina da Igreja latina, não um dogma. Nas Igrejas orientais vigora há séculos outra disciplina: os bispos são escolhidos só entre os celibatários, mas homens casados podem ser ordenados diáconos e presbíteros; e, no Oriente e no Ocidente, quem já recebeu a Ordem não pode se casar (Catecismo, n. 1580). As razões da Igreja estão nas aulas O celibato dos padres vai contra a Bíblia? e Os padres deveriam poder casar?.
O que era a tradição dos antigos de Marcos 7?
Marcos a chama de "tradição dos antigos" (Mc 7,3): regras que os mestres transmitiam de geração em geração para aplicar a Lei de Moisés no dia a dia. Muitos estudiosos a ligam à lei oral que os rabinos, herdeiros dos fariseus, puseram por escrito na Mixná, a coleção organizada pelo rabino Judá, o Príncipe.
A água benta e as bênçãos estão na Bíblia?
As bênçãos, sim: a Bíblia está cheia delas, como a que Deus ensina a Aarão (Nm 6,22-27) e a de Jesus sobre os discípulos (Lc 24,50), e Paulo diz que tudo o que Deus criou é santificado "pela palavra de Deus e pela oração" (1Tm 4,4-5). A água benta, como a usamos, não está descrita: é um sacramental, sinal sagrado que a própria Igreja instituiu, diferente dos sacramentos que vêm de Cristo (Catecismo, n. 1667). Os sacramentais não dão a graça como os sacramentos; pela oração da Igreja, preparam para recebê-la (n. 1670). Por serem instituídos pela Igreja, podem mudar, e a prática da religiosidade popular fica sob o discernimento dos bispos, que devem purificá-la e corrigi-la quando for preciso (n. 1676).
Os luteranos rejeitam todas as tradições?
Não. A Confissão de Augsburgo, de 1530, diz que, para a verdadeira unidade da Igreja, basta concordar na doutrina do Evangelho e na administração dos sacramentos, e que não é preciso que os ritos e cerimônias instituídos pelos homens sejam iguais em toda parte (art. 7). É uma ideia bem parecida com a resposta de Ambrósio sobre o jejum do sábado.
Uma tradição muito antiga é sempre apostólica?
Não necessariamente. A prática de batizar de novo quem vinha de grupos heréticos já tinha sido adotada pela Igreja da África num concílio sob o bispo Agripino, antes de Cipriano, e mesmo assim não prevaleceu na Igreja. Por isso o critério não é só a idade do costume, mas a sua origem nos apóstolos e o acordo da Igreja inteira.
Para ir mais fundo
Fontes
- VaticanoConcílio Vaticano II, constituição Dei Verbum, n. 8
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 83
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 194
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 817
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 1125
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 1579 e 1580
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 1667, 1670 e 1674 a 1676
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 2111
- VaticanoConcílio Vaticano II, constituição Sacrosanctum Concilium, n. 21 e 36
- VaticanoConcílio Vaticano II, decreto Unitatis Redintegratio, n. 6
- VaticanoPaulo VI, exortação Marialis Cultus, n. 55
- Bible HubMarcos 7, texto grego interlinear
- Bible HubColossenses 2, texto grego interlinear
- Bible HubAs treze ocorrências de parádosis no Novo Testamento (Strong 3862)
- ElpenorIsaías 29,13 na Septuaginta (grego)
- Bible HubLucas 24 e 1 Timóteo 4, texto grego interlinear; Números 6, hebraico
- Elpenor1 Macabeus 4, texto grego da Septuaginta
- Jewish EncyclopediaHanukkah: a festa da Dedicação instituída por Judas Macabeu
- Jewish EncyclopediaMishnah: a coleção reunida por Judá, o Príncipe
- SefariaMixná, Nedarim 9,1 (os votos e a honra devida aos pais)
- Book of ConcordConfissão de Augsburgo (1530), art. 7, 15 e 26 (em inglês)
- Orthodox Presbyterian ChurchConfissão de Westminster, cap. 21 (em inglês)
- The Latin LibraryTertuliano, De praescriptione haereticorum, 7 e 21 (latim)
- New AdventCipriano de Cartago, carta a Pompeu (Carta 73 na tradução inglesa)
- Catholic EncyclopediaSão Cipriano de Cartago: a controvérsia do batismo (255 e 256)
- Catholic EncyclopediaPapa Santo Estêvão I (254 a 257)
- Fourth CenturyOs cânones do Concílio de Arles (314)
- New AdventAgostinho, Sobre o batismo, livro V (c. 400; tradução inglesa)
- New AdventAgostinho, Carta 54 (ano 400; tradução inglesa)
- New AdventAgostinho, Carta 55 (ano 400; tradução inglesa)

