A resposta curta
O celibato dos padres latinos é uma lei da Igreja, e não um dogma: em tese, a Igreja poderia mudá-la, e nas Igrejas católicas orientais há padres casados. Mas nem lá um padre pode casar depois de ordenado. Os papas recentes mantiveram a lei por razões ligadas a Cristo e à missão, e os grandes estudos sobre os abusos citados nesta aula não apontam o celibato como causa direta.
A objeção
O que se costuma dizer
O celibato obrigatório é uma regra inventada na Idade Média, e não um mandamento de Deus. Nos primeiros séculos havia padres casados, e até hoje há: nas Igrejas orientais e entre os pastores anglicanos que se tornam padres católicos. Se a Igreja aceita padres casados nesses casos, por que não aceita para todos?
E a regra faz mal. Deixa os padres sozinhos, leva muitos a abandonar o ministério para casar, afasta vocações numa época em que faltam padres e, segundo muita gente, está na raiz dos escândalos de abuso. Deixar os padres casarem resolveria boa parte disso.
De onde vem a pergunta
De onde vem essa discussão?
A pergunta não é nova. Na Reforma do século XVI, os luteranos já defendiam o casamento dos padres e avisavam que, se a proibição continuasse, faltariam pastores (Confissão de Augsburgo, 1530, artigo 23). Os argumentos bíblicos daquela época estão na aula O celibato dos padres vai contra a Bíblia?.
Nos anos 1960, o debate voltou com força dentro da própria Igreja. Em 1967, Paulo VI publicou a encíclica Sacerdotalis caelibatus e, antes de responder, listou as objeções que ouvia: a falta de padres em muitas regiões, a ideia de que o casamento evitaria infidelidades e abandonos, a acusação de que o celibato seria uma violência contra a natureza e a de que muitos o aceitavam jovens demais, sem preparo (n. 8 a 11). É quase a lista de hoje.
Depois vieram a crise dos abusos e as discussões sobre regiões sem padre. Em 2019, no Sínodo para a Amazônia, o documento final propôs que a autoridade competente estabelecesse critérios para ordenar padres homens reconhecidos pela comunidade, já diáconos permanentes, que podem ter família, para as áreas mais remotas, onde às vezes passam anos sem que um padre volte para celebrar a Missa; alguns participantes queriam tratar a questão para toda a Igreja (Documento final, n. 111). O mesmo número reafirma o celibato como dom de Deus.
A pergunta certa
Qual é a pergunta que importa?
"Padres poderem casar" pode querer dizer duas coisas bem diferentes.
Um padre já ordenado poderia casar? Não, e isso vale também no Oriente. Mesmo nas Igrejas orientais, onde há padres casados, o casamento vem antes da ordenação, nunca depois (Catecismo, n. 1580; Paulo VI, Sacerdotalis caelibatus, n. 40). É uma regra muito antiga: o Concílio Trulano, de 692, que até hoje é a base da disciplina oriental, já a repetia (cânon 6).
A Igreja latina deveria ordenar homens casados como regra? Essa é a pergunta real. Para respondê-la bem, é preciso saber antes o que é dogma e o que é lei. Dogma é uma verdade revelada, que a Igreja não pode mudar. Lei é uma decisão da Igreja para a sua vida, que ela pode rever. O celibato dos padres latinos é lei. A pergunta honesta, então, não é "a Igreja pode?", e sim "faz sentido mudar, e o que se perderia?".
O que a Igreja ensina
O que é doutrina e o que é lei da Igreja?
O Concílio Vaticano II tratou do assunto no decreto sobre os padres. Primeiro, disse que a continência perfeita por amor do Reino não é exigida pela natureza do sacerdócio; depois, de onde vem a lei. O Catecismo, Paulo VI e Bento XVI completam o quadro:
De si, não é exigida pela própria natureza do sacerdócio, como se deixa ver pela prática da Igreja primitiva […] e pela tradição das Igrejas orientais […]
[…] o celibato, que a princípio era apenas recomendado aos sacerdotes, depois foi imposto por lei na Igreja latina […]
Tanto no Oriente como no Ocidente, aquele que recebeu o sacramento da Ordem já não pode casar-se.
[…] pertence por conseguinte à autoridade da Igreja estabelecer, segundo os tempos e os lugares, quais devam ser em concreto os homens e quais os requisitos exigidos […]
[…] não é suficiente compreender o celibato sacerdotal em termos meramente funcionais; na realidade, constitui uma especial conformação ao estilo de vida do próprio Cristo.
O que é doutrina, então? Que a Ordem é um sacramento instituído por Cristo (Concílio de Trento, sessão XXIII, cânon 3; Catecismo, n. 1536): isso a Igreja não pode mudar. Que o casamento também é sacramento (Trento, sessão XXIV, cânon 1). Que a virgindade e o celibato por amor do Reino são um dom excelente: no mesmo documento em que defendeu o casamento como sacramento, Trento ensinou que, como estado de vida, é melhor e mais feliz permanecer na virgindade ou no celibato do que casar (cânon 10). Isso não faz do casado um cristão de segunda: todos, em qualquer estado, são chamados à mesma santidade (Lumen Gentium, n. 40), e o Catecismo, citando João Crisóstomo, lembra que denegrir o casamento é diminuir também a glória da virgindade (n. 1620). E cabe à Igreja fixar os requisitos dos seus ministros, como lembra Paulo VI. O que é lei: que, na Igreja latina, os padres sejam escolhidos entre homens celibatários. O Código de Direito Canônico põe o celibato entre as obrigações dos clérigos e o chama de "dom peculiar de Deus" (cânon 277). O próprio Trento, ao tratar do casamento tentado por quem já recebeu ordens sacras, fala em "lei eclesiástica" (cânon 9).
Por que manter a lei, se ela não é exigida pela natureza do sacerdócio? Bento XVI responde no mesmo número: Cristo viveu a sua missão, até a cruz, sem se casar, e o padre é configurado a ele. Por isso, em 2007, ele confirmou a obrigação para a tradição latina. Os trechos são curtos; o texto inteiro está no link de cada um.
O que diziam os primeiros cristãos
Os primeiros cristãos exigiam o celibato?
Não no começo, e não do mesmo jeito em toda parte. O que os textos mostram é uma prática que cresce aos poucos e, no começo, pede mais a continência do que o celibato. Celibato é não casar; continência é não ter relações sexuais. A Igreja antiga começou pela segunda.
Tertuliano, no começo do século III. O escritor de Cartago admira "quantos homens e quantas mulheres", nas ordens da Igreja, devem o seu lugar à continência, por terem preferido "casar-se com Deus" (Exortação à castidade, 13). Era uma escolha pessoal, ainda não uma lei.
O Concílio de Elvira, no começo do século IV. Reunido na Espanha, perto da atual Granada, com dezenove bispos, por volta de 300 a 306 (a data é discutida), deixou 81 cânones. O cânon 33 manda que bispos, presbíteros e diáconos se abstenham das esposas e não gerem filhos, sob pena de perderem o lugar no clero. É a lei mais antiga que conhecemos sobre o assunto, e era local: valia para as Igrejas da Espanha.
O relato de Pafnúcio, sobre Niceia (325). O historiador Sócrates, que escreveu no século V, conta que, no Concílio de Niceia, alguns bispos quiseram impor a mesma regra a todo o clero casado. Pafnúcio, bispo no Egito, que tinha perdido um olho na perseguição e nunca se casara, pediu que não pusessem "um jugo tão pesado" sobre os ministros e lembrou que o casamento é honroso (Hb 13,4). Bastaria, segundo ele, manter a "antiga tradição da Igreja": quem já foi ordenado não se casa. O concílio concordou (História Eclesiástica, I,11). O relato é de mais de cem anos depois, e os historiadores discutem se aconteceu assim. Mas mostra que a disciplina não era a mesma em toda parte e que já então se tinha por antiga a regra de não casar depois da ordenação.
O papa Sirício, em 386. Um concílio em Roma proibiu presbíteros e diáconos de viverem como casados com as esposas, e o papa mandou aplicar a regra na Espanha e em outras regiões. Paulo VI resume esse período assim: desde o começo do século IV, concílios regionais e papas do Ocidente confirmaram, difundiram e sancionaram a prática (Sacerdotalis caelibatus, n. 36).
As frases de Tertuliano e de Sócrates estão em tradução nossa, a partir das versões inglesas indicadas nas fontes.

Linha do tempo
Da Igreja antiga até hoje, em datas
A data em destaque marca o momento em que a lei ficou clara para toda a Igreja latina: quem já tem ordens sacras não pode contrair casamento válido.
- séc. IApóstolos casados e solteirosPedro tinha sogra (Mt 8,14); Paulo vivia sem esposa e recomendava essa vida (1Cor 7,7-8).
- c. 300-306Concílio de ElviraNa Espanha, exige continência de bispos, presbíteros e diáconos. A data é discutida.
- 325Concílio de NiceiaSegundo o relato tardio de Sócrates, o concílio não impõe a continência aos clérigos já casados.
- 386Papa SirícioUm concílio em Roma estende a regra da continência; o papa manda aplicá-la em outras regiões.
- 692Concílio TrulanoNo Oriente, presbíteros e diáconos casados antes da ordenação seguem casados; o bispo deve viver separado da esposa. Ninguém casa depois de ordenado.
- 1075Gregório VIINuma reforma contra a corrupção do clero, proíbe de celebrar os padres que vivem com mulheres.
- 1123I Concílio de LatrãoProíbe presbíteros, diáconos e subdiáconos de terem concubinas ou contraírem casamento.
- 1139II Concílio de LatrãoDeclara que não é casamento a união contraída por quem já recebeu ordens sacras.
- 1563Concílio de TrentoConfirma a lei do celibato e manda criar seminários para formar o clero.
- 1964Diáconos casadosO Vaticano II prevê restaurar o diaconato permanente, que poderá ser conferido a homens casados de idade madura (Lumen Gentium, n. 29).
- 1965Presbyterorum OrdinisO Concílio confirma a lei para os padres latinos e honra os padres casados do Oriente.
- 1967Sacerdotalis caelibatusPaulo VI responde às objeções e mantém a lei, admitindo estudar o caso de ministros casados vindos de outras Igrejas.
- 2009Anglicanorum coetibusBento XVI cria os ordinariatos para ex-anglicanos; ministros casados podem ser ordenados caso a caso, mas a regra continua sendo o celibato.
- 2019Sínodo para a AmazôniaO documento final propõe critérios para ordenar padres diáconos casados nas áreas mais remotas. Na exortação Querida Amazonia (2020), Francisco não menciona a proposta nem muda a lei; pede mais oração pelas vocações e mais padres missionários para a Amazônia (n. 90).
O que a história mostra
O celibato causa os abusos?
É a pergunta mais séria, e merece resposta sem defesa automática. Os abusos cometidos por padres, e o acobertamento por bispos, são reais e gravíssimos; os números dos grandes estudos estão na aula Como confiar na Igreja diante dos erros da história?. A questão aqui é outra: o celibato é a causa?
Antes de qualquer debate, as vítimas vêm primeiro. Francisco escreveu em 2018: «Com vergonha e arrependimento, como comunidade eclesial, assumimos que não soubemos estar onde deveríamos estar» (Carta ao Povo de Deus).
O estudo John Jay (Estados Unidos, 2011). Encomendado pelo conselho de leigos criado pelos bispos americanos e feito por pesquisadores do John Jay College of Criminal Justice, de Nova York, o relatório sobre as causas e o contexto dos abusos de 1950 a 2010 concluiu que o celibato e o sacerdócio só masculino não mudaram enquanto os casos subiram, chegaram ao pico e caíram, e por isso não são causas da crise. O relatório também registra, com o sociólogo Andrew Greeley, que a grande maioria dos abusos de crianças é cometida por homens que não são celibatários. E aponta outros fatores: mudanças sociais dos anos 1960 e 1970, padres isolados e sem acompanhamento, e a falta de formação humana nos seminários da época.
A Comissão Real da Austrália (2017). A comissão do governo australiano sobre abusos em instituições concluiu que o celibato, em si, não é causa direta dos abusos, mas que a regra do celibato obrigatório é um fator que contribui, sobretudo somada a outros riscos, como o acesso privilegiado a crianças em escolas, internatos e paróquias. Ligou também o celibato obrigatório à cultura do clericalismo, que punha o padre num pedestal. Recomendou que os bispos australianos pedissem à Santa Sé que considerasse o celibato voluntário para o clero diocesano. Em 2018, o presidente da conferência dos bispos, dom Mark Coleridge, respondeu que, em teoria, isso era possível, mas que só a Igreja universal poderia decidir.
O inquérito inglês sobre a Igreja Anglicana (2020). A Igreja da Inglaterra tem clero casado. Mesmo assim, o inquérito independente da Inglaterra e do País de Gales concluiu que a cultura daquela Igreja permitiu que ela se tornasse um lugar onde abusadores podiam se esconder: deferência à autoridade dos padres, clericalismo e a reputação da instituição posta acima das vítimas.
O que esses estudos têm em comum? Nenhum diz que o celibato, sozinho, explica os abusos. Eles divergem sobre o peso que ele tem: a comissão australiana o vê como fator de risco e o liga ao clericalismo; o estudo americano não o vê como causa. O ponto comum é o clericalismo: a comissão australiana o liga ao celibato; o inquérito inglês o achou numa Igreja de clero casado. Francisco foi direto: «Dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo» (mesma carta). Honestidade, aqui, inclui reconhecer que quem pede o celibato precisa formar bem para ele. Bento XVI pediu justamente isso: que a falta de padres não leve os bispos a ordenar candidatos sem o discernimento necessário (Sacramentum caritatis, n. 25).
Lado a lado
A objeção e os fatos, lado a lado
| O que se diz | O que a Igreja e a história mostram | Onde conferir |
|---|---|---|
| O celibato é um dogma. | É uma lei da Igreja latina. A Igreja diz que ele não é exigido pela natureza do sacerdócio. | Presbyterorum Ordinis, n. 16 |
| Foi inventado na Idade Média. | A lei ficou clara para toda a Igreja latina no século XII (Latrão II), mas a continência do clero aparece em lei desde o começo do século IV, e o celibato pelo Reino vem do conselho de Jesus e de Paulo. | Elvira, cânon 33; Latrão II, cânon 7; Mt 19,12 |
| No Oriente os padres casam. | Lá homens casados podem ser ordenados; padre já ordenado não casa, nem lá. E os bispos são escolhidos entre os celibatários. | Catecismo, n. 1580 |
| Se há exceções, a regra é incoerente. | Cabe à Igreja fixar os requisitos dos seus ministros e abrir exceções por razões pastorais, como faz com ministros casados vindos do anglicanismo. | Sacerdotalis caelibatus, n. 15 e 42; Anglicanorum coetibus, VI |
| O celibato causa os abusos. | Os grandes estudos citados nesta aula não o apontam como causa direta; abusos e acobertamento também ocorreram numa Igreja com clero casado. | John Jay (2011); Comissão Real da Austrália (2017); inquérito inglês (2020) |
| Padres casados acabariam com a falta de padres. | A Igreja leva o problema a sério, mas pede soluções que não sejam meros expedientes práticos: distribuir melhor o clero e cuidar das vocações. | Sacramentum caritatis, n. 25; Querida Amazonia, n. 90 |
Os frutos
O que se ganharia, e o que se perderia?
Quem defende padres casados tem argumentos que a Igreja leva a sério. O Catecismo diz que os padres casados do Oriente "exercem um ministério frutuoso nas suas comunidades" (n. 1580), e o Vaticano II os chama de "meritíssimos" (Presbyterorum Ordinis, n. 16). Ninguém precisa diminuir esses padres para defender o celibato latino.
O que a Igreja latina diz é que perderia algo que considera precioso. O padre celibatário é um sinal de Cristo, que se deu inteiro, e do mundo que virá. Jesus disse:
Os que forem julgados dignos de alcançar aquele mundo e a ressurreição dos mortos não se casam nem são dados em casamento. (Lc 20,35)
O Vaticano II retoma essa palavra para dizer que os padres celibatários se tornam "sinal vivo do mundo futuro" (n. 16). Bento XVI escreveu que o celibato vivido com maturidade, alegria e dedicação é "uma bênção enorme para a Igreja e para a própria sociedade" (*Sacramentum caritatis*, n. 24). E Francisco, perguntado em 2019 se abriria a toda a Igreja latina a prática oriental, lembrou uma frase de Paulo VI e respondeu: "Pessoalmente, penso que o celibato é uma dádiva para a Igreja" (conferência de imprensa no voo de regresso do Panamá, 27 de janeiro de 2019). Na mesma resposta, admitiu que os teólogos estudassem casos extremos, como ilhas remotas do Pacífico sem Eucaristia, sem tomar decisão nenhuma.
Sobre a falta de padres, Bento XVI avisou que a solução não está "em meros estratagemas pragmáticos" (*Sacramentum caritatis*, n. 25), e pediu melhor distribuição do clero e mais cuidado com as vocações.
Em resumo: a Igreja poderia ordenar homens casados como regra, e já os ordena no Oriente e em casos especiais. Ela escolhe não fazer disso a regra na Igreja latina porque vê no padre celibatário, livre para se dar inteiro, uma imagem viva de Cristo. Um católico pode desejar, com respeito, que a Igreja estude exceções, como bispos fizeram no sínodo de 2019. O que não se sustenta é tratar como capricho uma disciplina que nasce do conselho de Jesus e de Paulo e que a Igreja latina vive há muitos séculos.
O versículo está em tradução nossa, feita a partir do grego. Para ler o capítulo inteiro numa tradução católica, veja a Bíblia Ave-Maria: Lucas 20.
Para guardar
O celibato dos padres latinos é lei da Igreja, não dogma: no Oriente há padres casados, mas em nenhuma Igreja um padre casa depois de ordenado. A Igreja latina mantém a lei porque vê no padre celibatário uma imagem viva de Cristo, que se deu inteiro.
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5 perguntas. A resposta aparece assim que você escolhe.
1. Segundo o Catecismo (n. 1580), o que vale tanto no Oriente como no Ocidente?
Nas Igrejas orientais, homens casados podem ser ordenados diáconos e presbíteros, mas o casamento vem antes. Depois da ordenação, ninguém casa, no Oriente nem no Ocidente.
2. O celibato dos padres na Igreja latina é:
O Concílio Vaticano II diz que o celibato não é exigido pela natureza do sacerdócio e que foi imposto por lei na Igreja latina (Presbyterorum Ordinis, n. 16).
3. Qual é a lei mais antiga conhecida que pede continência a bispos, presbíteros e diáconos?
O Concílio de Elvira, na Espanha, reunido por volta de 300 a 306 (a data é discutida), mandou os clérigos maiores se absterem das esposas. Era uma lei local.
4. O que o II Concílio de Latrão decidiu em 1139?
O cânon 7 diz que não se considera casamento a união contraída contra a lei da Igreja por quem já tem ordens sacras. A partir daí, a lei ficou clara para toda a Igreja latina.
5. O que o estudo John Jay, de 2011, concluiu sobre o celibato e a crise dos abusos nos Estados Unidos?
O relatório aponta que o celibato e o sacerdócio só masculino ficaram iguais durante a subida, o pico e a queda dos casos, e por isso não são causas da crise. Ele indica outros fatores, como mudanças sociais e falhas na formação.
Perguntas frequentes
O papa pode acabar com o celibato obrigatório?
Em tese, sim, porque é uma lei da Igreja, e não um dogma. Os papas recentes, porém, mantiveram a lei: Paulo VI em 1967; João Paulo II em 1992, ao acolher a "firme vontade da Igreja de manter a lei" afirmada pelo Sínodo dos Bispos (Pastores dabo vobis, n. 29); Bento XVI em 2007; e Francisco, que em 2019 disse não concordar com o celibato opcional.
Um padre pode casar depois de ordenado?
Não, nem na Igreja latina nem nas Igrejas orientais (Catecismo, n. 1580). Quem deixa o ministério só pode casar na Igreja depois de receber do papa a dispensa do celibato (Código de Direito Canônico, cânones 290 e 291).
Existem padres casados na Igreja Católica?
Sim. Nas Igrejas católicas orientais, homens casados podem ser ordenados presbíteros. Na Igreja latina, em casos especiais, ministros casados vindos do anglicanismo e de outras comunidades podem ser ordenados depois de entrar na Igreja Católica (Sacerdotalis caelibatus, n. 42; Anglicanorum coetibus, VI).
Um diácono pode ser casado?
Sim. Desde o Concílio Vaticano II, homens casados de idade madura podem ser ordenados diáconos permanentes (Lumen Gentium, n. 29). Os jovens ordenados diáconos sem ser casados continuam obrigados ao celibato.
Por que os bispos orientais são celibatários?
Porque, nas Igrejas orientais, os bispos são escolhidos só entre os celibatários (Catecismo, n. 1580). Já o Concílio Trulano, de 692, não permitia que o bispo vivesse com a esposa: quando um homem casado era feito bispo, os dois se separavam de comum acordo e ela entrava num mosteiro (cânones 12 e 48). Paulo VI viu nisso um sinal de que também o Oriente reconhece uma conveniência do celibato para o sacerdócio (Sacerdotalis caelibatus, n. 40).
O celibato causa os abusos sexuais na Igreja?
Os grandes estudos citados nesta aula não o apontam como causa direta. O estudo John Jay (2011) concluiu que ele não explica a crise; a Comissão Real da Austrália (2017) o viu como fator de risco somado a outros e o ligou ao clericalismo. Abusos e acobertamento também ocorreram numa Igreja com clero casado, segundo o inquérito inglês sobre a Igreja Anglicana (2020).
Para ir mais fundo
Fontes
- VaticanoConcílio Vaticano II, decreto Presbyterorum Ordinis, n. 16
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 1536, 1579, 1580 e 1620
- VaticanoPaulo VI, encíclica Sacerdotalis caelibatus, n. 8 a 11, 15, 36, 38, 40 e 42
- VaticanoBento XVI, exortação Sacramentum caritatis, n. 24 e 25
- VaticanoCódigo de Direito Canônico, cânones 277, 290 e 291 (PDF)
- VaticanoBento XVI, constituição Anglicanorum coetibus, artigo VI
- VaticanoConcílio Vaticano II, constituição Lumen Gentium, n. 29 e 40
- VaticanoFrancisco, conferência de imprensa no voo de regresso do Panamá (27/1/2019)
- VaticanoFrancisco, Carta ao Povo de Deus (20 de agosto de 2018)
- VaticanoJoão Paulo II, exortação Pastores dabo vobis (1992), n. 29
- VaticanoSínodo para a Amazônia, Documento final (2019), n. 111
- VaticanoFrancisco, exortação Querida Amazonia (2020), n. 2, 3 e 90
- Bible HubTexto grego de Lucas 20,35
- New AdventTertuliano, Exortação à castidade, 13 (tradução inglesa)
- New AdventSócrates, História Eclesiástica, I,11: o bispo Pafnúcio (tradução inglesa)
- New AdventConcílio Trulano (692), cânones 6, 12, 13 e 48 (tradução inglesa)
- Catholic EncyclopediaCouncil of Elvira: data, bispos e cânones
- Catholic EncyclopediaCelibacy of the Clergy: Elvira, Sirício (386), Gregório VII (1075) e Latrão
- Papal EncyclicalsI Concílio de Latrão (1123), cânon 21
- Papal EncyclicalsII Concílio de Latrão (1139), cânones 6 e 7
- Papal EncyclicalsConcílio de Trento, sessão XXIV (1563), cânones 1, 9 e 10 sobre o matrimônio
- Papal EncyclicalsConcílio de Trento, sessão XXIII (1563), cânon 3 sobre a Ordem e capítulo 18 sobre os seminários
- Book of ConcordConfissão de Augsburgo (1530), artigo XXIII (tradução inglesa)
- USCCB / John Jay CollegeThe Causes and Context of Sexual Abuse of Minors by Catholic Priests in the United States, 1950-2010 (2011), resumo executivo e capítulo 2
- Royal Commission (Austrália)Royal Commission into Institutional Responses to Child Sexual Abuse, Final Report, vol. 16, livro 2 (2017), p. 766 a 770, com a recomendação 16.18 (PDF, em inglês)
- Royal Commission (Austrália)Royal Commission into Institutional Responses to Child Sexual Abuse, Final Report, vol. 16, livro 2 (2017), p. 766 a 770, com a recomendação 16.18 (PDF, em inglês) (cópia arquivada)
- SBS NewsA resposta dos bispos australianos sobre o celibato voluntário (31 de agosto de 2018, em inglês)
- IICSA (Inglaterra e País de Gales)Inquérito independente sobre abusos sexuais de crianças: relatório sobre a Igreja Anglicana (outubro de 2020), no volume 5 dos relatórios (PDF, em inglês)

