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Imagem gerada por IA, em estilo de pintura a óleo: num trigal dourado onde cresce também o joio, o dono do campo ergue a mão e detém dois servos com foices.

Como confiar na Igreja diante dos erros da história?

A fé católica não pede que se fechem os olhos para o mal feito por católicos. Pede que se olhe a história inteira, com números sérios, e que se veja o que a própria Igreja confessou.

Revisada em 15 min de leitura

Imagem gerada por IA: A parábola do trigo e do joio (Mt 13,24-30), em estilo de pintura renascentista

A resposta curta

Confiar na Igreja não é achar que os católicos nunca erraram. Membros da Igreja, inclusive papas e bispos, cometeram pecados graves, e a própria Igreja os reconhece e pede perdão, como fez São João Paulo II no Jubileu de 2000. A fé católica se apoia em Cristo, que santifica a Igreja, e não na virtude de quem a governa em cada época (Catecismo 827).

A objeção

O que se costuma dizer

A Igreja Católica matou milhões na Inquisição, fez guerras em nome de Deus nas Cruzadas, teve papas corruptos, vendeu o perdão dos pecados e escondeu padres que abusavam de crianças. Uma instituição com essa história não pode ser a Igreja de Jesus, que era pobre e manso.

A objeção vem de lugares diferentes. Vem do ateu que vê na religião uma fonte de violência; do evangélico que lê a Idade Média como prova de que a Igreja se desviou; e de quem foi ferido por alguém da Igreja. Para estes últimos, a pergunta não é teórica, e merece uma resposta dada com respeito.

De onde vem a pergunta

De onde vem essa acusação?

A acusação junta fatos verdadeiros com números que cresceram com o tempo.

Os fatos são reais. Houve tribunais da Inquisição que torturaram e entregaram pessoas à morte por causa da fé. Houve massacres nas Cruzadas. Houve papas que viveram de modo escandaloso. Houve pregadores que trataram a indulgência como mercadoria. E houve padres que abusaram de crianças e bispos que os protegeram. Nada disso é invenção de inimigos da Igreja.

Mas a memória desses fatos também virou arma nas brigas religiosas e políticas dos séculos seguintes, e números sem base passaram de livro em livro. No século XIX, por exemplo, Juan Antonio Llorente calculou quase 32 mil execuções pela Inquisição espanhola; em 1906, o historiador Henry Charles Lea já tratava esses cálculos como arbitrários e exagerados. A ideia de "milhões de mortos" não tem apoio em nenhum estudo sério. Os números inflados dizem respeito sobretudo à Inquisição; nos abusos, os estudos pedidos pela própria Igreja mostram uma realidade grave.

Por trás da objeção há ainda uma ideia antiga. No norte da África, a partir de 311, os donatistas ensinavam que a Igreja verdadeira era só a dos puros: quem estivesse em comunhão com um bispo que tinha fraquejado na perseguição ficava fora dela. A Igreja recusou essa ideia, e Santo Agostinho escreveu muito contra ela, como veremos.

A pergunta certa

Qual é a pergunta honesta?

Ninguém sério pergunta se católicos já pecaram. Pecaram, e gravemente. A pergunta honesta é outra: o pecado dos membros da Igreja, inclusive dos seus pastores, prova que Cristo não está com ela?

E há uma segunda pergunta, que vale para qualquer instituição: diante dos próprios crimes, ela esconde ou encara a verdade? As duas pedem fatos com fonte, e não frases feitas, de um lado ou de outro.

O que diz a Bíblia

A Bíblia promete uma Igreja sem pecadores?

Não. Jesus avisou que o bem e o mal cresceriam juntos até o fim.

O Reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. Mas, enquanto os homens dormiam, veio o seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora. [...] Deixai que os dois cresçam juntos até a colheita. (Mt 13,24-25.30)

Jesus explica que o campo é o mundo (Mt 13,38). Santo Agostinho, como veremos, e depois o Catecismo (n. 827) aplicaram imagens como essa também à Igreja que caminha na história, onde o joio do pecado ainda se mistura à boa semente.

O pecado chegou até o grupo dos Doze. Judas traiu. Pedro, o primeiro deles, negou Jesus três vezes:

E Pedro lembrou-se da palavra que Jesus tinha dito: Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. E, saindo para fora, chorou amargamente. (Mt 26,75)

Anos depois, Pedro voltou a errar, e Paulo o corrigiu em público:

Quando Cefas veio a Antioquia, eu o enfrentei cara a cara, porque ele merecia ser repreendido. (Gl 2,11)

Jesus também distinguiu o encargo de quem ensina e a vida de quem o exerce:

Na cátedra de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus. Fazei e observai tudo o que vos disserem, mas não imiteis as suas obras, pois dizem e não fazem. (Mt 23,2-3)

Isso não é desculpa para ninguém. O mesmo capítulo é a denúncia mais dura de Jesus contra líderes religiosos. E as palavras mais duras do Evangelho são para quem fere os pequenos:

Quem escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe seria que lhe pendurassem ao pescoço uma pedra de moinho e o afundassem no alto-mar. (Mt 18,6)

Por isso a Igreja não pode fingir que é feita de perfeitos:

Se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. (1Jo 1,8)

E, ao mesmo tempo, a santidade dela vem de quem a ama:

Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la [...] e apresentá-la a si mesmo gloriosa, sem mancha nem ruga nem nada semelhante, mas santa e irrepreensível. (Ef 5,25-27)

A Igreja é santa porque Cristo a santifica. A pureza completa é o ponto de chegada, no fim dos tempos, e não uma condição que cada católico já cumpre.

Os versículos estão em tradução nossa, feita a partir do grego. Para ler cada capítulo inteiro numa tradução católica, veja a Bíblia Ave-Maria: Mateus 13, Mateus 26, Gálatas 2, Mateus 23, Mateus 18, 1 João 1 e Efésios 5.

O que diziam os primeiros cristãos

O que os primeiros cristãos diziam do pecado dentro da Igreja?

Os primeiros cristãos não escondiam os pecados da própria casa, nem dos bispos.

Cipriano de Cartago, em 251. Logo depois da perseguição do imperador Décio, o bispo Cipriano escreveu que a longa paz tinha amolecido a disciplina dos cristãos. E foi direto: não poucos bispos, que deviam dar o exemplo, tinham largado o cuidado do povo para cuidar de negócios, abandonado a sua sede e corrido atrás de lucro, enquanto irmãos passavam fome na Igreja. Ele se incluía no exame e via na perseguição um chamado à conversão (Sobre os que caíram, 5 e 6). Não concluía que a Igreja fosse falsa: concluía que era preciso fazer penitência.

Agostinho de Hipona, contra os donatistas. No começo do século V, Agostinho respondeu à ideia de que um ministro indigno anula os sacramentos. Nos sermões sobre o Evangelho de João, ele explica que, quer batize Pedro, quer batize Paulo, quer batize Judas, quem batiza é Cristo (Tratado 6,7). A graça não depende da santidade do ministro. Isso não absolve o ministro: quer dizer apenas que o povo não fica à mercê do pecado dele.

Em A Cidade de Deus, escrita entre 413 e 426, Agostinho descreve a Igreja na terra com a imagem da rede do Evangelho:

Muitos réprobos se misturam aos bons, e uns e outros são recolhidos como na rede do Evangelho; e neste mundo, como no mar, nadam todos juntos presos nas redes, até que se chegue à praia, onde os maus serão separados dos bons. (A Cidade de Deus XVIII,49)

Esse é o realismo dos primeiros séculos: a Igreja não é um clube de perfeitos, e quem a julga pelos piores membros se engana tanto quanto quem a defende fingindo que eles não existem.

A frase de Agostinho está em tradução nossa a partir do latim.

O que a Igreja ensina

O que a Igreja ensina sobre o pecado dos seus filhos?

A Igreja não diz que é santa porque os seus membros são bons. Diz que é santa porque Cristo a uniu a si e lhe dá o Espírito Santo. E confessa, no mesmo fôlego, que traz pecadores dentro de si. O Concílio Vaticano II a descreve assim, e o Catecismo e os papas tiraram as consequências:

[…] contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação […]

Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n. 8

Todos os membros da Igreja, inclusive os seus ministros, devem reconhecer-se pecadores

Catecismo da Igreja Católica, n. 827

[…] a consideração das circunstâncias atenuantes não exonera a Igreja do dever de lastimar […]

São João Paulo II, Tertio Millennio Adveniente, n. 35

[…] é necessário evitar quer uma apologética que queira tudo justificar, quer uma indevida culpabilização […]

Comissão Teológica Internacional, Memória e Reconciliação, n. 4

O escândalo reveste-se duma gravidade particular conforme a autoridade dos que o causam […]

Catecismo da Igreja Católica, n. 2285

Nós negligenciamos e abandonamos os pequenos.

Papa Francisco, Carta ao Povo de Deus, n. 1

Juntas, essas frases dão a régua. Em 1994, João Paulo II pediu que a Igreja lamentasse a condescendência de muitos dos seus filhos com "métodos de intolerância ou até mesmo de violência no serviço à verdade", e avisou que o contexto da época explica, mas não apaga, essa culpa. Em março de 2000, a Comissão Teológica Internacional publicou o documento Memória e Reconciliação para dizer como fazer esse exame: primeiro, saber com rigor o que aconteceu; depois, julgar à luz do Evangelho, sem esconder nada e sem atribuir aos antigos culpas que a história não comprova. O Catecismo lembra que o escândalo é mais grave quando vem de quem tem autoridade, e é por isso que o abuso cometido por um padre é tão grave. E Francisco, em 2018, falou em nome de toda a Igreja, e não só dos culpados. A santidade da Igreja não é um escudo para quem pecou. É a medida pela qual o pecado é julgado.

O que a história mostra

O que de fato aconteceu na Inquisição, nas Cruzadas e nos abusos?

A Inquisição. Não houve uma só, mas várias. A medieval começou no século XIII, com inquisidores nomeados pelos papas. A espanhola foi autorizada pelo papa Sisto IV em 1º de novembro de 1478, mas funcionou sob o controle dos reis; a romana foi criada por Paulo III em 21 de julho de 1542. Usou-se tortura, e os condenados por heresia eram entregues ao poder civil para a execução. Já em 29 de janeiro de 1482, Sisto IV censurou os primeiros inquisidores de Sevilha por prisões injustas e torturas cruéis.

Quanto aos números, os historiadores divergem, mas dentro de uma faixa. Para a Inquisição espanhola (1480 a 1820), as estimativas de execuções vão de no máximo 3 mil, segundo Henry Kamen, a cerca de 12 mil, segundo Andrea Del Col; Joseph Pérez fala em menos de 10 mil. Um levantamento recente, de Tomasz Karlikowski, chega a cerca de 7.300 execuções em uns 160 mil processos, a maioria delas antes de 1540. Gustav Henningsen e Jaime Contreras, estudando os relatórios do próprio tribunal que sobreviveram, contaram 44.674 processos entre 1540 e 1700, com 826 execuções. Em 2004, ao apresentar as atas de um simpósio de historiadores promovido pelo Vaticano em 1998, o editor do volume, Agostino Borromeo, falou em 5,7% de condenados à morte entre os mais de 13 mil processados em Portugal nos séculos XVI e começo do XVII. Cada morte dessas é grave. "Milhões" não é história.

As Cruzadas. Em 27 de novembro de 1095, no Concílio de Clermont, o papa Urbano II chamou os cristãos a libertar o Santo Sepulcro, em Jerusalém, então sob domínio muçulmano. Em 1096, bandos que partiam para o Oriente mataram judeus nas cidades alemãs. Em 15 de julho de 1099, os cruzados tomaram Jerusalém e mataram os moradores, sem poupar idade nem sexo, como reconhece a própria Catholic Encyclopedia, de 1908. Em abril de 1204, a quarta Cruzada saqueou Constantinopla, uma cidade cristã; o papa Inocêncio III repreendeu duramente o seu legado. Em 2001, em Atenas, João Paulo II pediu ao Senhor perdão pelos pecados dos católicos contra os ortodoxos e disse que esse saque enche os católicos "de profundo arrependimento".

Papas indignos. Bento IX renunciou ao papado em 1045 em troca de uma grande soma e foi deposto no ano seguinte. Alexandre VI (Rodrigo Bórgia, papa de 1492 a 1503) tinha vários filhos e, segundo a mesma enciclopédia católica, continuou como papa a vida que já o desonrava como cardeal. Adriano VI, papa entre 1522 e 1523, reconheceu publicamente, numa mensagem à Dieta de Nuremberg de 25 de novembro de 1522, levada pelo seu núncio na Alemanha, os abusos da "corte romana" do seu tempo, um mal que se estendia "da cabeça aos membros" (Memória e Reconciliação, 1.1). Nenhum deles mudou o Credo, e a aula Como o papa pode ser infalível se papas erraram? explica por que isso importa.

As indulgências e Tetzel. A indulgência não é o perdão do pecado, que exige arrependimento: é a remissão da pena que resta de pecados já perdoados (Catecismo, n. 1471). Entre 1516 e 1517, o dominicano Johann Tetzel pregou na Alemanha uma indulgência para a construção da Basílica de São Pedro. Sobre as indulgências pelos mortos, ele ensinou que bastava a esmola, sem arrependimento de quem dava, e isso, reconhece a Catholic Encyclopedia, era contrário ao ensino da Igreja. O Concílio de Trento aboliu os coletores de esmolas ligados às indulgências, e em 1567, segundo a Catholic Encyclopedia, São Pio V cancelou as concessões de indulgência ligadas a taxas ou a pagamento.

Os abusos. É a ferida mais recente e a mais séria. Nos Estados Unidos, o estudo do John Jay College, feito a pedido dos bispos americanos e publicado em 2004, contou 4.392 padres com acusações entre 1950 e 2002, cerca de 4% dos padres do período, e 10.667 pessoas que denunciaram abusos. Na França, a comissão independente criada pelos bispos e pelos religiosos estimou, em 2021, cerca de 216 mil pessoas abusadas quando eram menores por padres e religiosos desde 1950, e 330 mil contando leigos que trabalhavam para a Igreja. Por muito tempo os casos ficaram cobertos de silêncio. A comissão francesa concluiu que, de 1950 a 1970, a preocupação em evitar o escândalo e em "salvar" os agressores dominou a conduta da Igreja, e Bento XVI escreveu aos bispos irlandeses, em 2010, que alguns deles e dos seus predecessores tinham falhado, "por vezes gravemente", em aplicar as normas contra esses crimes, e que "foram cometidos sérios erros no tratamento das acusações". Aos agressores, escreveu que devem responder diante de Deus e também "diante de tribunais devidamente constituídos". Em 2019, Francisco tornou obrigatório que padres e religiosos comuniquem os casos às autoridades da Igreja e criou um caminho para investigar também bispos e superiores acusados de atrapalhar as investigações (Vos estis lux mundi). Já em 2018, antes dessa lei, Francisco admitiu: "Tardamos em aplicar essas medidas e sanções tão necessárias".

Linha do tempo

Quando a Igreja reconheceu os próprios erros?

A data em azul marca o Dia do Perdão, quando o papa pediu perdão, em nome da Igreja, por vários grupos de pecados de uma só vez.

  1. c. 251Cipriano e os bisposO bispo de Cartago denuncia a ganância de muitos bispos e chama todos à penitência.
  2. 1482Sisto IV e SevilhaO papa censura os inquisidores de Sevilha por prisões injustas e torturas cruéis.
  3. 1522-1523Adriano VINuma mensagem à Dieta de Nuremberg, levada pelo seu núncio, o papa reconhece os abusos da corte romana, "da cabeça aos membros".
  4. 1567Pio V e as indulgênciasDepois do Concílio de Trento, segundo a Catholic Encyclopedia, Pio V cancela as concessões de indulgência ligadas a taxas ou a pagamento.
  5. 1992GalileuDepois de uma comissão criada em 1981, João Paulo II reconhece o erro dos teólogos da época.
  6. 1994Exame de consciênciaNa carta Tertio Millennio Adveniente, João Paulo II pede que a Igreja lamente a violência usada no serviço da verdade.
  7. 12/3/2000Dia do PerdãoNa Missa do primeiro domingo da Quaresma, o papa e representantes da Cúria confessam sete grupos de pecados cometidos por cristãos e pedem perdão.
  8. 2001AtenasJoão Paulo II pede ao Senhor perdão pelos pecados dos católicos contra os ortodoxos e diz que o saque de Constantinopla, em 1204, enche os católicos de profundo arrependimento.
  9. 2004Estudo sobre a InquisiçãoSaem as atas do simpósio de historiadores promovido pelo Vaticano em 1998.
  10. 2010Carta aos irlandesesBento XVI escreve às vítimas que, em nome da Igreja, expressa "a vergonha e o remorso que todos sentimos", e cobra que os agressores respondam também diante dos tribunais.
  11. 2018Carta ao Povo de DeusFrancisco assume, em nome da Igreja, que ela negligenciou e abandonou os pequenos.
  12. 2019Vos estis lux mundiPassa a ser obrigatório comunicar os casos de abuso às autoridades da Igreja, e bispos acusados de acobertá-los também podem ser investigados.

Lado a lado

O mito, os fatos e onde conferir

O que se dizO que os estudos mostramOnde conferir
A Inquisição matou milhões.As estimativas sérias para a Espanha vão de cerca de 3 mil a 12 mil execuções em mais de três séculos.Ereticopedia (resumo das estimativas)
Galileu foi torturado e queimado.Foi condenado em 1633 e ficou em prisão domiciliar até morrer, em 1642. Não foi torturado (quem foi queimado em Roma, em 1600, foi Giordano Bruno, condenado pela Inquisição romana). Em 1992, João Paulo II reconheceu o erro dos teólogos.Catholic Encyclopedia; discurso de 31/10/1992
A Igreja vendia o perdão dos pecados.Houve abuso na pregação das indulgências, condenado depois por Trento e por Pio V. A indulgência não perdoa o pecado.Catecismo, n. 1471
A Igreja nunca admite os próprios erros.Ela pediu perdão publicamente em 2000, 2001 e 2018, entre outras vezes; em 2010, Bento XVI expressou às vítimas, em nome da Igreja, vergonha e remorso.Vaticano, Dia do Perdão (2000)
Os abusos são invenção da imprensa.Os abusos e o acobertamento são reais e foram documentados por estudos pedidos pelos próprios bispos.John Jay (2004); CIASE (2021)
Imagem gerada por IA, em estilo de pintura a óleo: o jovem Francisco de Assis, de túnica marrom e corda na cintura, ajoelhado, recoloca pedras nos muros de uma capelinha arruinada no campo da Úmbria, com um crucifixo visível pela porta.
Imagem gerada por IA: Francisco de Assis reconstrói a capela de São Damião, por volta de 1206, em estilo de pintura renascentista

Os frutos

O que os santos fizeram diante dos pecados da Igreja?

Nos piores momentos, a resposta da Igreja não veio dos que fingiram que estava tudo bem, nem dos que foram embora. Veio dos santos.

Rezando diante de um crucifixo na capela arruinada de São Damião, Francisco de Assis ouviu: "Vai, Francisco, e repara a minha casa". Começou consertando pedras e acabou ajudando a renovar a Igreja pela pobreza do Evangelho. Catarina de Sena, uma leiga, implorou ao papa Gregório XI que deixasse Avignon e reformasse o clero; o papa voltou a Roma em 17 de janeiro de 1377. Nenhum dos dois escondeu o pecado. Nenhum dos dois concluiu que Cristo tinha abandonado a sua Igreja.

Se você foi ferido por alguém da Igreja, a sua dor não é um detalhe numa discussão. Bento XVI escreveu às vítimas: "Sofrestes tremendamente e por isto sinto profundo desgosto". E se você conhece alguém que se afastou por causa desses escândalos, ele merece ser ouvido antes de ser respondido. A Igreja que pede perdão não está dizendo que a fé é falsa. Está dizendo que os seus filhos não viveram à altura dela, e que Cristo continua a chamar todos, a começar por ela mesma, à conversão.

Para guardar

A Igreja é santa por causa de Cristo, e não por causa dos católicos. Por isso ela pode olhar de frente os crimes cometidos pelos seus filhos, inclusive pastores, pedir perdão e punir os culpados sem deixar de crer no que Ele prometeu.

Teste

Teste o que você aprendeu

5 perguntas. A resposta aparece assim que você escolhe.

  1. 1. Como o Concílio Vaticano II descreve a Igreja na Lumen Gentium, n. 8?

  2. 2. Quem pediu perdão a Deus, em 12 de março de 2000, pelo uso da violência no serviço da verdade?

  3. 3. O que os estudos sérios dizem sobre as execuções da Inquisição espanhola?

  4. 4. Para Santo Agostinho, quando um ministro indigno batiza, quem batiza?

  5. 5. O que Jesus diz de quem escandaliza um destes pequeninos (Mt 18,6)?

Perguntas frequentes

Quantas pessoas a Inquisição matou?

Não há um número exato, mas os estudos sérios falam em milhares, não em milhões. Para a Inquisição espanhola, entre 1480 e 1820, as estimativas de execuções vão de no máximo 3 mil (Henry Kamen) a cerca de 12 mil (Andrea Del Col); Joseph Pérez fala em menos de 10 mil, e um levantamento recente chega a cerca de 7.300. Em Portugal, segundo os números apresentados em 2004 com as atas de um simpósio promovido pelo Vaticano, 5,7% dos mais de 13 mil processados nos séculos XVI e começo do XVII foram condenados à morte.

A Igreja pediu perdão pela Inquisição e pelas Cruzadas?

Sim. No Dia do Perdão, em 12 de março de 2000, João Paulo II pediu perdão pelo uso da violência no serviço da verdade e por outros pecados cometidos por cristãos. Em 2001, em Atenas, pediu ao Senhor perdão pelos pecados dos católicos contra os ortodoxos e disse que o saque de Constantinopla na quarta Cruzada, em 1204, enche os católicos de profundo arrependimento.

Os abusos na Igreja são coisa do passado?

Não dá para tratar o assunto como encerrado. Nos Estados Unidos, o estudo John Jay mostrou que os abusos denunciados se concentraram nos anos 1970, com pico em 1980; na França, a comissão independente notou que a queda dos casos parou a partir dos anos 1990. A Igreja mudou as suas leis, por exemplo em 2019, e o próprio Francisco já tinha reconhecido, em 2018, que essas medidas e sanções chegavam tarde.

Se houve papas corruptos, como a Igreja pode ser verdadeira?

A Igreja nunca ensinou que os papas não pecam. Ensina que Cristo a sustenta apesar do pecado dos seus membros, e que nenhum papa, nem os piores, mudou o Credo. A diferença entre pecar e ensinar errado é o tema da aula sobre a infalibilidade.

Por que continuar na Igreja depois de tudo isso?

Porque a fé católica não se apoia na virtude dos católicos, mas em Cristo, que continua a dar a sua Palavra e os seus sacramentos por meio da Igreja. Os santos que mais sofreram com os pecados da Igreja, como Francisco de Assis e Catarina de Sena, não foram embora: trabalharam para que ela se convertesse.

Para ir mais fundo

Fontes

  1. VaticanoConcílio Vaticano II, constituição Lumen Gentium, n. 8
  2. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 823 a 827
  3. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 1471 (o que é a indulgência)
  4. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 2285 (o escândalo)
  5. VaticanoJoão Paulo II, carta apostólica Tertio Millennio Adveniente (1994), n. 33 a 35
  6. VaticanoComissão Teológica Internacional, Memória e Reconciliação (2000), 1.1 (Adriano VI) e 4
  7. VaticanoJoão Paulo II, homilia do Dia do Perdão, 12 de março de 2000
  8. VaticanoOração universal do Dia do Perdão: confissão das culpas e pedido de perdão (2000)
  9. VaticanoJoão Paulo II, visita ao arcebispo Christódoulos, Atenas, 4 de maio de 2001
  10. VaticanoJoão Paulo II, discurso à Pontifícia Academia das Ciências sobre o caso Galileu, 31 de outubro de 1992 (em italiano)
  11. VaticanoBento XVI, Carta aos católicos da Irlanda (2010), n. 6, 7 e 11
  12. VaticanoPapa Francisco, Carta ao Povo de Deus (2018)
  13. VaticanoPapa Francisco, motu proprio Vos estis lux mundi (2019)
  14. Vatican NewsA Santa Sé responde ao relatório do júri da Pensilvânia (agosto de 2018)
  15. USCCB / John Jay CollegeThe Nature and Scope of Sexual Abuse of Minors by Catholic Priests and Deacons in the United States, 1950-2002 (2004)
  16. CIASEComissão independente sobre os abusos sexuais na Igreja (França), resumo do relatório final, 5 de outubro de 2021 (em inglês)
  17. EreticopediaTomasz Karlikowski, Spanish Inquisition: number of victims (as estimativas dos historiadores)
  18. NBC News / Associated PressVatican downgrades Inquisition toll (15 de junho de 2004)
  19. Catholic EncyclopediaInquisition: Sisto IV (1478 e 1482) e Paulo III (1542)
  20. Catholic EncyclopediaCrusades: Clermont (1095), Jerusalém (1099) e Constantinopla (1204)
  21. Fordham Medieval SourcebookInocêncio III repreende o legado papal pelo ataque a Constantinopla
  22. Catholic EncyclopediaPope Benedict IX
  23. Catholic EncyclopediaPope Alexander VI
  24. Catholic EncyclopediaPope Adrian VI
  25. Catholic EncyclopediaJohann Tetzel
  26. Catholic EncyclopediaIndulgences: Trento e Pio V (1567)
  27. Catholic EncyclopediaGalileo Galilei: a condenação de 1633
  28. Catholic EncyclopediaGiordano Bruno: a condenação pela Inquisição romana e a morte em Roma (1600)
  29. Catholic EncyclopediaDonatists
  30. New AdventCipriano de Cartago, Sobre os que caíram, 5 e 6 (tradução inglesa)
  31. New AdventAgostinho, Tratados sobre o Evangelho de João, 6 (tradução inglesa)
  32. The Latin LibraryAgostinho, De civitate Dei, livro XVIII (texto latino)
  33. New AdventAgostinho, A Cidade de Deus, XVIII,49 (tradução inglesa)
  34. Catholic EncyclopediaSt. Catherine of Siena
  35. Catholic EncyclopediaSt. Francis of Assisi
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