A resposta curta
Porque católicos e protestantes seguem duas listas antigas do Antigo Testamento. A Bíblia católica tem 73 livros (46 no Antigo Testamento e 27 no Novo); a protestante tem 66 (39 e 27). Os sete a mais, Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc, estavam nas Bíblias gregas lidas pelos primeiros cristãos, entraram nas listas dos concílios de Hipona (393) e Cartago (397) e foram definidos em Trento (1546). Em 1534, Lutero os separou num bloco à parte, com o nome de apócrifos.
A objeção
O que se costuma dizer
A Igreja Católica acrescentou sete livros à Bíblia, os chamados apócrifos, no Concílio de Trento, em 1546, para defender doutrinas que os protestantes negavam, como a oração pelos mortos. Esses livros nunca fizeram parte da Bíblia hebraica, Jesus e os apóstolos nunca os citaram, e até Jerônimo, o tradutor da Bíblia latina, dizia que eles não eram canônicos.
De onde vem a pergunta
De onde vem a diferença?
Primeiro, os nomes. Cânon (do grego kanṓn, régua) é a lista dos livros reconhecidos como inspirados por Deus. Os católicos chamam os sete livros de deuterocanônicos (de deúteros, segundo), porque o seu lugar na Bíblia foi discutido em alguns lugares e épocas; o nome é do século XVI e não quer dizer que valham menos. Os protestantes os chamam de apócrifos, palavra que, para os católicos, designa outra coisa: livros que nunca entraram no cânon.
Além dos sete livros, as Bíblias católicas trazem partes de Ester e de Daniel que chegaram até nós em grego: orações e cartas em Ester, o cântico dos três jovens na fornalha (Dn 3,24-90) e as histórias de Susana (Dn 13) e de Bel e o dragão (Dn 14). Os outros 39 livros são os mesmos nas duas Bíblias e correspondem à Bíblia judaica, que os conta de outro jeito, como 22 ou 24 livros, porque junta, por exemplo, os doze profetas menores num só, como já explicava Jerônimo.
A separação em bloco é do século XVI. Em 1519, num debate em Leipzig, quando o teólogo católico João Eck citou 2 Macabeus a favor do purgatório, Lutero respondeu que o livro estava fora do cânon. Na sua Bíblia alemã completa, de 1534, ele pôs esses livros num bloco entre os dois Testamentos, com um título que dizia, em resumo: livros que não são tidos como iguais à Sagrada Escritura, mas são úteis e bons de ler. Os anglicanos (1563) disseram que a Igreja os lê, "como diz Jerônimo", para exemplo de vida, mas não para fundamentar doutrina; a Confissão de Westminster, presbiteriana, disse que não são inspirados (cap. 1, 3). Em 1826, a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira deixou de distribuir Bíblias com esses livros, que desde então quase sumiram das edições protestantes em inglês, segundo a Catholic Encyclopedia.
A pergunta certa
Qual é a pergunta que importa?
Nenhuma Bíblia traz, dentro dela, a lista dos seus livros, nem a católica nem a protestante. Por isso a pergunta não é "quem acrescentou" ou "quem tirou", como se houvesse uma lista caída do céu. A pergunta honesta é: que livros a Igreja dos primeiros séculos lia como Escritura, e quem tinha autoridade para discernir a lista?
Um dado mostra que a questão é séria para os dois lados. Uma das listas mais antigas com exatamente os 27 livros do Novo Testamento, que católicos e protestantes aceitam, está numa carta de Atanásio, bispo de Alexandria, de 367. Na mesma carta, Atanásio deixou fora do cânon do Antigo Testamento a Sabedoria, o Eclesiástico, Judite e Tobias, e também Ester: todos esses ele punha entre os livros "para ler" (Baruc, ele contava junto com Jeremias). Ninguém hoje segue Atanásio em tudo. A história do cânon não é simples para ninguém.
O que diz a Bíblia
O Novo Testamento usa esses livros?
Nenhum autor do Novo Testamento cita os deuterocanônicos com a fórmula "está escrito". Mas há ecos que muitos estudiosos reconhecem.
A Carta aos Hebreus, ao lembrar os heróis da fé, fala de mártires que morreram esperando a ressurreição:
Mulheres receberam de volta, pela ressurreição, os seus mortos; outros foram torturados, recusando a libertação, para alcançar uma ressurreição melhor. (Hb 11,35)
O verbo grego, tympanízō, vem de týmpanon, o instrumento de tortura ao qual o velho Eleazar se dirigiu, por vontade própria, em 2 Macabeus (2Mc 6,19.28). No capítulo seguinte, um dos sete irmãos mártires diz ao rei:
Tu, malvado, nos tiras desta vida, mas o Rei do mundo nos ressuscitará para uma vida nova e eterna, a nós que morremos pelas suas leis. (2Mc 7,9)
A Bíblia publicada pela Conferência dos Bispos dos Estados Unidos remete Hebreus 11,35 a esses capítulos de 2 Macabeus. Outro eco está no começo da mesma carta, que chama o Filho de "resplendor" da glória de Deus, com uma palavra rara, apaúgasma:
Ele, que é o resplendor da sua glória e a expressão do seu ser... (Hb 1,3)
A mesma palavra aparece no livro da Sabedoria, falando da Sabedoria de Deus:
Pois ela é o resplendor da luz eterna, espelho sem mancha da ação de Deus e imagem da sua bondade. (Sb 7,26)
Cuidado com os dois exageros. Eco não prova que um livro é canônico. A Carta de Judas cita expressamente, como profecia, um livro que nem católicos nem protestantes têm na Bíblia, o de Henoc:
Também a respeito deles profetizou Henoc, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor com as suas santas miríades, para julgar a todos. (Jd 14-15)
E o Novo Testamento não cita Ester, o Eclesiastes nem o Cântico dos Cânticos, que estão nas duas Bíblias. O argumento "Jesus nunca citou" não decide a questão, para nenhum dos lados.
Muitos evangélicos lembram ainda esta frase de Jesus ressuscitado:
Estas são as palavras que vos falei quando ainda estava convosco: é necessário que se cumpra tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. (Lc 24,44)
O versículo mostra que Jesus recebia as Escrituras de Israel como palavra de Deus. Mas ele nomeia partes, não dá uma lista de livros; e os mestres judeus ainda discutiam alguns livros da terceira parte entre o fim do século I e o começo do II, como se verá abaixo.
Os versículos estão em tradução nossa, feita a partir do grego (2 Macabeus e Sabedoria, a partir da Septuaginta). Para ler cada capítulo inteiro numa tradução católica, veja a Bíblia Ave-Maria: Hebreus 11, 2 Macabeus 7, Hebreus 1, Sabedoria 7, Judas 1 e Lucas 24.
O que diziam os primeiros cristãos
Os primeiros cristãos liam esses livros?
Sim, embora nem todos do mesmo jeito.
Policarpo de Esmirna. Na carta aos Filipenses, escrita pouco depois da morte de Inácio de Antioquia, na primeira metade do século II (Policarpo morreu mártir por volta de 155), ele exorta: "quando puderdes fazer o bem, não o adieis, porque a esmola livra da morte" (cap. 10). A última frase é de Tobias (Tb 4,10; 12,9), citada sem dizer de onde, como ele faz também com o Novo Testamento.
Orígenes, no século III. Júlio Africano, cristão erudito morto por volta de 240, escreveu a Orígenes que a história de Susana (Dn 13) não podia ser original, porque tinha dois trocadilhos que só funcionam em grego. Orígenes respondeu que Susana está "em todas as Igrejas de Cristo", na Bíblia grega, e perguntou:
Quando notamos essas coisas, devemos logo rejeitar como falsas as cópias em uso nas nossas Igrejas, mandar os irmãos jogarem fora os livros sagrados que têm e convencer os judeus a nos darem cópias sem alteração? (Carta a Africano 4)
Sobre Tobias, admite que os judeus não o usam, "mas, como as Igrejas usam Tobias", responde à dificuldade com o próprio livro (13).
Agostinho, em 397. No livro A doutrina cristã, ele lista os livros da Escritura e inclui Tobias, Judite, os dois de Macabeus, a Sabedoria e o Eclesiástico (que, diz ele, eram atribuídos a Salomão só por semelhança, mas foram recebidos com autoridade):
Nestes quarenta e quatro livros termina a autoridade do Antigo Testamento. (A doutrina cristã II,8,13)
Ele conta de outro jeito: Baruc e as Lamentações não aparecem pelo nome e provavelmente estavam incluídos em Jeremias, como nas listas de Cirilo e de Atanásio. Na prática, o conteúdo corresponde aos 46 de hoje. Na Cidade de Deus, fala dos livros dos Macabeus, "que não os judeus, mas a Igreja tem por canônicos" (XVIII,36).
Os concílios da África. O concílio de Hipona, em 393, e os de Cartago, em 397 e 419, aprovaram a lista dos livros que se podiam ler na igreja como Escritura, com Tobias, Judite, os dois de Macabeus e os "cinco livros de Salomão" (que incluíam a Sabedoria e o Eclesiástico). No texto de 419, o motivo vem no fim: são os livros "que recebemos dos nossos pais para ler na igreja" (Código da Igreja Africana, cânon 24). Em 405, o papa Inocêncio I mandou a um bispo da Gália uma lista com os mesmos livros.
Mas nem todos pensavam igual. Melitão de Sardes, por volta de 170, fez uma lista só com os livros da Bíblia judaica, e sem Ester. Cirilo de Jerusalém, por volta de 347, ensinava aos catecúmenos 22 livros, com Baruc, mas sem os outros deuterocanônicos (e, no Novo Testamento, sem o Apocalipse). Atanásio, como vimos, punha a Sabedoria, o Eclesiástico, Judite e Tobias entre os livros "para ler", embora contasse Baruc com Jeremias. O caso mais conhecido é o de Jerônimo, contado mais abaixo.
As frases de Policarpo, de Orígenes e do concílio de Cartago estão em tradução nossa a partir das versões inglesas indicadas nas fontes; as de Agostinho, a partir do latim.

O que a Igreja ensina
O que a Igreja ensina sobre o cânon?
Para a Igreja, a lista dos livros sagrados não foi escolha de gosto nem decisão de um concílio isolado: foi reconhecida ao longo da vida da Igreja, guiada pela Tradição que vem dos apóstolos.
Mediante a mesma Tradição, conhece a Igreja o cânon inteiro dos livros sagrados […]
Foi a Tradição Apostólica que levou a Igreja a discernir quais os escritos que deviam ser contados na lista dos livros sagrados.
A Igreja recebe e venera, como inspirados, os 46 livros do Antigo e os 27 do Novo Testamento.
[…] a Igreja logo desde os seus começos fez sua aquela tradução grega antiquíssima do Antigo Testamento chamada dos Setenta […]
O ponto decisivo veio em 8 de abril de 1546. Diante da separação feita pelos reformadores, o Concílio de Trento listou os livros um a um e declarou que devem ser recebidos como sagrados e canônicos, inteiros e com todas as suas partes, tal como eram lidos na Igreja Católica e estavam na antiga Vulgata latina; quem não os recebesse como sagrados e canônicos ficava sob anátema. Para os católicos, portanto, o cânon é matéria de fé definida. Trento não inventou uma lista: a mesma lista estava no decreto do Concílio de Florença, de 1442, e o Catecismo, ao dar os 46 e os 27 livros, remete a esses dois concílios e a um decreto atribuído ao papa Dâmaso (n. 120, nota 98).
E Trento não pôs no cânon tudo o que circulava nas Bíblias latinas: o terceiro e o quarto livros de Esdras e a Oração de Manassés ficaram de fora, e a Vulgata oficial publicada depois os imprimiu num apêndice, como não canônicos. A Igreja também não define quem escreveu cada livro; o que está definido é que esses livros são inspirados e pertencem à Bíblia. Os trechos são curtos; o texto inteiro está no link de cada um.
O que a história mostra
E a Septuaginta, Jâmnia, Jerônimo e Lutero?
A Septuaginta. É a tradução grega do Antigo Testamento feita pelos judeus de Alexandria, no Egito. A Lei de Moisés foi traduzida por volta da metade do século III antes de Cristo, e os outros livros, aos poucos (a história dos 72 tradutores, da Carta de Aristeias, é lendária). Alguns livros, como a Sabedoria e 2 Macabeus, foram escritos já em grego. Os autores do Novo Testamento usaram muito essa tradução.
Mas cuidado com a frase "a Septuaginta tinha os 46 livros". Os manuscritos completos mais antigos da Bíblia grega são cópias cristãs dos séculos IV e V, e o conteúdo deles varia: o Códice Vaticano não traz os Macabeus, e outros trazem livros a mais, como o terceiro dos Macabeus. A Bíblia grega não era uma lista fechada.
Escritos só em grego? Nem todos. O neto do autor do Eclesiástico diz, no prólogo, que a obra foi escrita em hebraico, e grandes partes do texto hebraico apareceram a partir de 1896, entre os papéis guardados numa antiga sinagoga do Cairo. Em Qumran, perto do Mar Morto, foram achados fragmentos de Tobias em aramaico (quatro manuscritos) e em hebraico (um).
Jâmnia. Muitos livros do século XX repetiam que, por volta do ano 90, um "concílio" de rabinos em Jâmnia (Yavne) fechou a Bíblia judaica. Hoje essa hipótese é contestada por muitos estudiosos, inclusive num artigo de 1976 de Robert C. Newman no Westminster Theological Journal, revista de um seminário de linha reformada: as fontes judaicas falam de uma escola e de um tribunal em Jâmnia e de discussões sobre o Cântico dos Cânticos e o Eclesiastes, não de um concílio que fechasse a lista. Para Newman, os rabinos examinavam livros já recebidos havia muito tempo, sem discutir a entrada de livros novos. O que se sabe com segurança é outra coisa: no fim do século I, o historiador judeu Flávio Josefo já falava de 22 livros aceitos pelos judeus. Quando e como a lista judaica se fechou, os estudiosos ainda discutem.
Jerônimo. Jerônimo morou em Belém, aprendeu hebraico e, entre 390 e 405, traduziu do hebraico para o latim os livros da Bíblia judaica, e Tobias e Judite do aramaico. Ele confiava muito no texto hebraico, e no prefácio aos livros de Samuel e Reis escreveu:
Portanto, a Sabedoria, que se costuma atribuir a Salomão, o livro de Jesus, filho de Sirac, Judite, Tobias e o Pastor não estão no cânon. (Prólogo aos livros dos Reis)
No prefácio aos livros de Salomão, diz que a Igreja lê esses livros "para a edificação do povo, não para confirmar a autoridade das doutrinas da Igreja". Mas no prefácio a Judite conta por que traduziu o livro: "como se lê que o Concílio de Niceia o contou entre as Sagradas Escrituras, cedi ao vosso pedido". A opinião pessoal de Jerônimo não prevaleceu: os outros deuterocanônicos entraram na Vulgata na antiga tradução latina que as igrejas já usavam, e a Igreja latina continuou a lê-los como Escritura. Foi essa opinião de Jerônimo que os anglicanos citaram no século XVI.
Lutero. Lutero não arrancou esses livros da Bíblia: na edição de 1534 eles estão lá, num bloco à parte, como úteis e bons de ler, mas não iguais à Escritura. Trento respondeu em 1546 com a lista que a Igreja latina já seguia.
As frases de Jerônimo estão em tradução nossa a partir do latim.
Linha do tempo
O cânon em datas
Em destaque, a definição de Trento. Tudo o que vem antes mostra que ela não criou uma lista nova.
- c. 250 a.C.A Lei em gregoOs judeus de Alexandria traduzem o Pentateuco. Começa a Septuaginta.
- c. 170Melitão de SardesFaz a primeira lista cristã conhecida do Antigo Testamento, só com livros da Bíblia judaica, sem Ester.
- 367AtanásioLista os 27 livros do Novo Testamento; conta Baruc com Jeremias, mas põe Sabedoria, Eclesiástico, Judite, Tobias e Ester entre os livros para ler.
- 390 a 405JerônimoTraduz a Bíblia do hebraico; duvida dos deuterocanônicos, mas traduz Tobias e Judite.
- 393Concílio de HiponaAprova a lista dos livros lidos na igreja, com os deuterocanônicos.
- 397Concílio de CartagoConfirma a lista de Hipona.
- 1442Concílio de FlorençaLista os livros inspirados, com os deuterocanônicos.
- 1534Bíblia de LuteroOs sete livros vão para um bloco à parte, entre os dois Testamentos.
- 1546Concílio de TrentoDefine o cânon para toda a Igreja, em 8 de abril.
Lado a lado
A objeção e a história, lado a lado
| O que se diz | O que a história mostra | Onde conferir |
|---|---|---|
| A Igreja acrescentou sete livros em 1546. | Os livros já estavam nas listas de Hipona (393), Cartago (397), Inocêncio I (405) e Florença (1442). | Cartago, cânon 24; Catecismo, n. 120 |
| Jesus e os apóstolos nunca os citaram. | Não há "está escrito", mas há ecos; e o Novo Testamento também não cita Ester nem o Cântico, e cita Henoc. | Hb 11,35; Hb 1,3; Jd 14 |
| Um concílio judeu em Jâmnia fechou a Bíblia. | Hipótese hoje contestada: não há prova de um concílio que fechasse a lista. | R. C. Newman, Westminster Theological Journal, 1976 |
| Jerônimo rejeitava esses livros. | Ele duvidava, sim; mas traduziu Tobias e Judite, e a Igreja não seguiu a opinião dele. | Prólogo aos Reis; prefácio a Judite |
| Lutero devolveu a Bíblia original. | Lutero os pôs num bloco à parte, como úteis e bons de ler; a retirada completa veio depois. | Bíblia de Lutero, 1534; Sociedade Bíblica, 1826 |
Os frutos
Por que isso importa?
A história do cânon mostra uma coisa simples: a Bíblia chegou até nós nas mãos da Igreja que a lia na liturgia. O livro e a comunidade não são rivais.
E há muito tesouro nesses sete livros. A Sabedoria diz que "as almas dos justos estão na mão de Deus" (Sb 3,1), texto usado na aula Os santos estão conscientes no Céu?. O segundo livro dos Macabeus mostra mártires que morrem esperando a ressurreição do corpo, e, num sonho de Judas, um profeta já morto que reza pelo povo (2Mc 15,12-16), como se vê na aula Os mortos ouvem as nossas orações?. A oração pelos mortos de 2 Macabeus 12 fica para a aula Onde a Bíblia fala do purgatório?. Tobias é uma história de família, de esmola e de confiança em Deus.
Nada disso diminui o que nos une. Católicos e protestantes têm em comum 66 livros, a maior parte da Bíblia, e os evangélicos que creem em Cristo são, como ensina o Catecismo, irmãos no Senhor (n. 818). A diferença sobre sete livros é real e merece ser estudada com calma, sem acusar ninguém de falsificar a Palavra de Deus.
Para guardar
A Igreja não acrescentou sete livros em 1546: eles já eram lidos nas igrejas e estavam nas listas de Hipona (393) e Cartago (397). O que aconteceu em 1534 foi que Lutero os separou num bloco à parte, como apócrifos.
Teste
Teste o que você aprendeu
5 perguntas. A resposta aparece assim que você escolhe.
1. Quantos livros tem a Bíblia católica?
O Catecismo dá 46 livros para o Antigo Testamento e 27 para o Novo (n. 120 e 138). A Bíblia protestante tem 66, porque não inclui os sete deuterocanônicos.
2. Qual destes é um dos sete livros deuterocanônicos?
Os sete são Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc. Rute, Neemias e Jonas estão nas Bíblias católica, protestante e judaica.
3. O que Lutero fez com esses livros na sua Bíblia alemã de 1534?
Na edição de 1534, os livros ficaram entre os dois Testamentos, com um título que os dizia não iguais à Sagrada Escritura, mas úteis e bons de ler.
4. O que Jerônimo escreveu sobre a Sabedoria, o Eclesiástico, Judite e Tobias?
No prefácio aos livros de Samuel e Reis, Jerônimo diz que esses livros não estão no cânon; no prefácio aos livros de Salomão, que a Igreja os lê para a edificação do povo. Mesmo assim, traduziu Tobias e Judite.
5. Que concílio definiu o cânon, de forma solene, para toda a Igreja?
Hipona e Cartago foram concílios regionais da África, e Florença, em 1442, listou os livros inspirados. A definição solene para toda a Igreja veio em Trento, em 8 de abril de 1546. Jâmnia nunca foi um concílio cristão, e a ideia de um concílio judeu ali é hoje contestada.
Perguntas frequentes
Deuterocanônicos e apócrifos são a mesma coisa?
Para os católicos, não. Apócrifos são os livros que se apresentam como sagrados, mas ficaram fora do cânon, como o chamado Evangelho de Tomé, contra o qual Cirilo de Jerusalém já advertia os catecúmenos por volta de 347. Os protestantes, seguindo a lista de Jerônimo, passaram a chamar de apócrifos os sete livros que os católicos chamam de deuterocanônicos.
A Bíblia dos ortodoxos é igual à católica?
Quase. As Igrejas ortodoxas gregas também leem os sete livros e ainda outros, como o primeiro livro de Esdras da Bíblia grega, o terceiro dos Macabeus e o Salmo 151; o quarto dos Macabeus costuma ficar num apêndice. O Sínodo de Jerusalém, em 1672, fixou para os gregos um cânon parecido com o de Trento.
Por que Ester e Daniel são maiores na Bíblia católica?
Por causa das partes que chegaram até nós em grego, citadas no começo desta aula. Orígenes, no século III, já notava que as orações de Mardoqueu e de Ester, e as cartas do rei, não estavam nas cópias hebraicas (Carta a Africano 3).
Lutero tirou livros do Novo Testamento?
Não. A Bíblia de Lutero tem os 27 livros do Novo Testamento. Mas, na sua tradução de 1522, ele pôs Hebreus, Tiago, Judas e o Apocalipse no fim, sem a mesma posição dos outros, para marcar que os considerava de segunda ordem.
Os judeus de hoje leem os livros dos Macabeus?
Eles não estão na Bíblia judaica. Mas a festa judaica de Hanucá, a Dedicação, celebrada por oito dias a partir de 25 de Kislev, lembra a nova consagração do altar do Templo pelos Macabeus, contada em 1 Macabeus 4,56-59. O Evangelho de João menciona essa festa pelo nome grego, enkaínia (Jo 10,22).
Para ir mais fundo
Fontes
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 120 (com a nota 98) e 138
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 818
- VaticanoConcílio Vaticano II, Dei Verbum, n. 8 e 22
- Papal EncyclicalsConcílio de Florença, sessão 11 (4 de fevereiro de 1442): a lista dos livros
- Papal EncyclicalsConcílio de Trento, sessão 4 (8 de abril de 1546): decreto sobre as Escrituras canônicas
- Bible HubTexto grego de Hebreus 11,35
- Bible HubTexto grego de Hebreus 1,3
- Bible HubTexto grego de Judas 14
- Bible HubTexto grego de Judas 15
- Bible HubTexto grego de Lucas 24,44
- Bible HubTexto grego de João 10,22
- LXX Rahlfs (GitHub)Septuaginta, edição de Rahlfs: 2 Macabeus 6,19.28 e 7,9; Sabedoria 3,1 e 7,26; Tobias 4,10 e 12,9; 1 Macabeus 4,56-59
- USCCBNew American Bible, Hebreus 11 (remissão de 11,35 a 2 Macabeus 6,18 a 7,42)
- Catholic EncyclopediaCanon of the Old Testament: Septuaginta, ecos no Novo Testamento, padres, Hipona, Cartago, Inocêncio I, Leipzig, 1534, Trento e 1826
- Catholic EncyclopediaCanon of the New Testament: Atanásio e o período de 367 a 405
- Catholic EncyclopediaSeptuagint: a Carta de Aristeias e as datas da tradução
- Catholic EncyclopediaEcclesiasticus: o texto hebraico achado a partir de 1896
- Catholic EncyclopediaVersions of the Bible: a Vulgata de Jerônimo (390 a 405) e a antiga tradução latina
- Catholic EncyclopediaApocrypha: o uso da palavra e os livros no apêndice da Vulgata
- Catholic EncyclopediaJulius Africanus (c. 160 a c. 240) e a carta sobre Susana
- Catholic EncyclopediaSt. Polycarp: o martírio, provavelmente em 155
- Catholic EncyclopediaSt. Cyril of Jerusalem: as catequeses, por volta de 347
- New AdventPolicarpo, Carta aos Filipenses, 10 (tradução inglesa)
- New AdventOrígenes, Carta a Africano, 2 a 4 e 13 (tradução inglesa)
- New AdventAtanásio, Carta festal 39 (367)
- New AdventCirilo de Jerusalém, Catequese 4, 33 a 36
- New AdventCódigo da Igreja Africana (419), cânon 24
- New AdventAgostinho, A doutrina cristã, livro II (tradução inglesa)
- Bibliothek der KirchenväterAgostinho, A doutrina cristã II,8,13, texto latino
- Bibliothek der KirchenväterAgostinho, A doutrina cristã: os três primeiros livros são de 397
- Bibliothek der KirchenväterAgostinho, A Cidade de Deus XVIII,36, texto latino e inglês
- The Latin LibraryJerônimo, prólogos da Vulgata (Reis, Salomão e Judite), texto latino
- Tertullian ProjectJerônimo, prefácio a Judite (texto da Patrologia Latina e tradução inglesa)
- University of Chicago (Penelope)Flávio Josefo, Contra Ápion I,8: os 22 livros
- IBRIRobert C. Newman, The Council of Jamnia and the Old Testament Canon (Westminster Theological Journal 38, 1976)
- HTS Teologiese StudiesA. H. Evans (2020): os fragmentos de Tobias em Qumran, 4Q196 a 4Q199 (aramaico) e 4Q200 (hebraico)
- Lutheran School of Theology at ChicagoA Bíblia de Lutero de 1534 e o título dos apócrifos
- Lutheran School of Theology at ChicagoO Novo Testamento de Lutero de 1522: Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse no fim
- Victorian WebOs Trinta e Nove Artigos (1563), artigo 6: "como diz Jerônimo"
- Orthodox Presbyterian ChurchConfissão de Westminster, capítulo 1, 2 e 3: os 39 livros do Antigo Testamento, os 27 do Novo e os apócrifos
- OrthodoxWikiOld Testament Canon: o cânon ortodoxo e o Sínodo de Jerusalém (1672)

