A resposta curta
Não. A Bíblia traz os Dez Mandamentos sem números, e desde a Antiguidade judeus e cristãos os dividem de jeitos diferentes. A Igreja Católica segue a divisão de Santo Agostinho, a mesma dos luteranos, que põe a proibição das imagens dentro do primeiro mandamento e separa a cobiça em dois; o texto bíblico continua inteiro, inclusive no Catecismo.
A objeção
O que se costuma dizer
A Igreja Católica mudou os Dez Mandamentos. Basta comparar o catecismo com Êxodo 20: sumiu o mandamento que proíbe fazer imagens e se prostrar diante delas. Para continuar com dez, a Igreja partiu o último mandamento em dois. E onde a Bíblia manda guardar o sábado, o catecismo manda guardar o domingo. Deus avisou que ninguém pode acrescentar nem tirar nada da sua palavra (Dt 4,2).
Quem diz isso costuma mostrar duas listas lado a lado, a do catecismo e a de Êxodo 20, e as diferenças entre elas são reais. A pergunta merece resposta com a Bíblia aberta.
De onde vem a pergunta
De onde vem essa acusação?
A acusação é antiga. No século XVI, João Calvino escreveu nas Institutas (II,8,12) que quem divide os mandamentos em três e sete tira da lista o mandamento das imagens, ou ao menos o esconde debaixo do primeiro, e parte o último em dois. Mas, no mesmo parágrafo, Calvino dizia que a divisão dos mandamentos é um daqueles assuntos em que cada um deve ter liberdade de juízo, sem que a diferença de opinião leve a brigas.
No século XIX, a acusação ganhou outro tom. Ellen G. White (1827-1915), em cujo ministério os adventistas do sétimo dia creem que se manifestou o dom de profecia (crença fundamental 18), escreveu no livro O Grande Conflito (edição de 1911, p. 52) que Roma ousou apagar da lei de Deus o segundo mandamento, que proíbe o culto das imagens, e dividir o décimo para manter o número. No parágrafo seguinte, ela diz que Satanás, agindo por meio de líderes da igreja sem consagração, também mexeu no quarto mandamento, o do sábado. Boa parte do que circula hoje em pregações, vídeos e correntes de mensagem repete essas ideias.
Há também uma razão simples para a confusão. A lista curta que se decora no catecismo não tem as mesmas palavras de Êxodo 20: "Guardar domingos e festas" não está escrito no Sinai. Quem compara as duas listas sem saber de onde vem cada uma tem motivo para estranhar.
A pergunta certa
Qual é a pergunta que importa?
São duas perguntas, e vale separá-las.
A primeira é de texto: a Igreja alterou ou suprimiu alguma frase de Êxodo 20, ou o que muda é só o modo de contar as frases até chegar a dez?
A segunda é de forma: por que o catecismo usa uma lista curta, com palavras diferentes das da Bíblia?
Há ainda duas questões de fundo, que pedem aula própria: o que a proibição das imagens quer dizer (veja Êxodo 20 proíbe as imagens?) e por que os cristãos guardam o domingo (veja O cristão deve guardar o sábado? e Quem trocou o sábado pelo domingo?). Aqui o assunto é a numeração e o resumo.
O que diz a Bíblia
O que a Bíblia diz, e o que ela não diz?
O número dez está na Bíblia; a numeração, não
E escreveu nas tábuas as palavras da aliança, as dez palavras. (Êx 34,28)
O hebraico diz ʿăśeret ha-dəbārîm, "as dez palavras", e é daí que vem o nome Decálogo. A mesma expressão volta em Deuteronômio 4,13 e 10,4. Mas nem Êxodo 20,2-17 nem Deuteronômio 5,6-21 trazem números. E o texto tem bem mais de dez frases de ordem: "não terás", "não farás", "não te prostrarás", "não servirás", "lembra-te", "trabalharás seis dias", "honra" e as outras. Para chegar a dez, é preciso decidir quais frases andam juntas. Foi isso que cada tradição fez.
Êxodo e Deuteronômio não terminam do mesmo jeito
Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo. (Êx 20,17)
Não cobiçarás a mulher do teu próximo. E não desejarás a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo. (Dt 5,21)
No Êxodo, a casa vem primeiro, e o mesmo verbo (taḥmōd, "cobiçarás") serve para tudo. No Deuteronômio, a mulher vem primeiro, sozinha, com "cobiçarás", e os bens vêm depois, com outro verbo, titʾawweh, "desejarás". Quem conta a cobiça como um só mandamento lê o versículo como uma frase só. Quem conta dois tem apoio nos dois livros: no texto hebraico tradicional, o Êxodo e o Deuteronômio trazem um sinal de parágrafo entre as duas frases da cobiça. Agostinho seguiu a ordem do Deuteronômio (a mulher no nono); Lutero, a do Êxodo (a casa no nono, a mulher no décimo).
O que quer dizer "não acrescentar nem tirar"
Nada acrescentareis à palavra que eu vos ordeno, e nada tirareis dela, para guardardes os mandamentos do Senhor vosso Deus que eu vos ordeno. (Dt 4,2)
O versículo proíbe mudar a palavra de Deus. Contar as frases de outro modo não muda palavra nenhuma. Em todas as Bíblias católicas, Êxodo 20 e Deuteronômio 5 estão inteiros, com a frase das imagens e com o sábado; é só abrir qualquer uma delas.
Nem Jesus nem Paulo numeraram
Quando o jovem rico pergunta quais mandamentos guardar, Jesus responde: não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não darás falso testemunho, honra pai e mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo (Mt 19,18-19). Em Lucas, a mesma lista começa pelo adultério (Lc 18,20). Paulo segue essa outra ordem:
Pois isto: Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e qualquer outro mandamento que haja, resume-se nesta palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. (Rm 13,9)
E, escrevendo aos efésios, Paulo chama "Honra teu pai e tua mãe" de "o primeiro mandamento com promessa" (Ef 6,2), sem dizer se é o quarto ou o quinto. O Novo Testamento cita os mandamentos pelo conteúdo, nunca pelo número.
Os versículos estão em tradução nossa, feita a partir do hebraico (Êxodo e Deuteronômio) e do grego (os demais). Para ler cada capítulo inteiro numa tradução católica, veja a Bíblia Ave-Maria: Êxodo 34, Êxodo 20, Deuteronômio 5, Deuteronômio 4, Mateus 19, Lucas 18, Romanos 13 e Efésios 6.
O que a história mostra
Como judeus e cristãos contaram até dez?
Desde a Antiguidade, quem leu as dez palavras precisou agrupá-las. Três divisões ficaram.
A tradição judaica. Nos textos dos rabinos, a primeira das dez palavras é a frase com que Deus se apresenta: "Eu sou o Senhor teu Deus, que te fiz sair da terra do Egito, da casa da escravidão" (Êx 20,2). Na Mekhilta, um antigo comentário rabínico ao Êxodo, o rabi Hananias ben Gamaliel distribui as dez em duas tábuas de cinco e põe frente a frente "Eu sou o Senhor teu Deus" e "Não matarás", "Não terás outros deuses" e "Não cometerás adultério", e assim por diante, até "Honra teu pai e tua mãe" diante de "Não cobiçarás" (Bachodesh 8); os outros sábios, no mesmo trecho, dizem que as dez estavam inteiras em cada tábua. O Talmude da Babilônia conta "Eu sou o Senhor teu Deus" e "Não terás outros deuses" como dois mandamentos que Israel ouviu da boca do próprio Deus (Makkot 24a). Nessa conta, "não terás outros deuses" e "não farás imagem" formam uma só palavra, a segunda, e a cobiça forma uma só, a décima.
Fílon, Josefo e Orígenes. Fílon de Alexandria, judeu contemporâneo de Jesus, explica no tratado O Decálogo que Deus dividiu as dez palavras em duas tábuas de cinco: na primeira, o Deus único, as imagens, o nome de Deus, o sétimo dia e os pais; na segunda, o adultério, o homicídio, o roubo, o falso testemunho e a cobiça (50-51). Para ele, o adultério vem antes do homicídio, como em Lucas 18,20 e Romanos 13,9. O historiador judeu Flávio Josefo, no fim do século I, faz a mesma divisão, com "não farás imagem" em segundo lugar, mas com o homicídio antes do adultério (Antiguidades judaicas III,5,5). Entre os cristãos, Orígenes, no século III, chegou à mesma numeração na sua oitava homilia sobre o Êxodo, com as imagens em segundo lugar e a cobiça num só mandamento, como resume Tomás de Aquino (Suma Teológica I-II, q. 100, a. 4). É a divisão que o Catecismo atribui aos padres gregos (n. 2066).
Agostinho. No começo do século V, Agostinho, bispo de Hipona, preferiu outra conta, que explica nas Questões sobre o Heptateuco (II,71): três mandamentos que se referem a Deus e sete que se referem ao próximo. Para ele, "não terás outros deuses" e "não farás imagem" são um só mandamento, e a cobiça da mulher e a cobiça dos bens são dois, como separa o Deuteronômio. No século XIII, Tomás de Aquino achou essa divisão a mais adequada e deu a razão: o mesmo Deus que proibiu os ídolos mandou fazer dois querubins de ouro para o santuário (Êx 25,18; veja Por que Deus mandou fazer querubins e a serpente de bronze?); a proibição, portanto, atinge as imagens feitas para receber culto como deuses, e isso já é o assunto do primeiro mandamento.
Quem segue cada uma. A divisão de Agostinho ficou tradicional na Igreja Católica e foi mantida por Martinho Lutero. No Catecismo Menor, de 1529, o primeiro mandamento de Lutero é só "Não terás outros deuses", sem a frase das imagens; o terceiro é "Santificarás o dia de descanso"; e a cobiça vem em dois, o nono e o décimo. Os reformados seguiram a divisão de Fílon e Orígenes: o Catecismo de Heidelberg, de 1563, tem as imagens como segundo mandamento. As Igrejas ortodoxas contam do mesmo modo, segundo o Catecismo (n. 2066). E há um detalhe que resume tudo: na conta judaica, como na de Agostinho, não existe um mandamento separado para as imagens, e ninguém acusa os judeus de ter escondido a proibição.
Os trechos de Fílon, Josefo, da Mekhilta, do Talmude, de Tomás de Aquino, de Lutero e do Catecismo de Heidelberg foram traduzidos ou resumidos a partir das versões inglesas indicadas nas fontes.

Lado a lado
As três divisões, lado a lado
| O texto de Êxodo 20 | Tradição judaica | Josefo, Orígenes, ortodoxos e reformados | Agostinho, católicos e luteranos |
|---|---|---|---|
| "Eu sou o Senhor teu Deus" (v. 2) | 1ª palavra | Abertura do 1º | Abertura do 1º |
| "Não terás outros deuses" (v. 3) | 2ª palavra | 1º | 1º |
| "Não farás imagem" (v. 4-6) | 2ª palavra (com o v. 3) | 2º | 1º (com o v. 3) |
| O nome de Deus (v. 7) | 3ª | 3º | 2º |
| O sábado (v. 8-11) | 4ª | 4º | 3º |
| Os pais (v. 12) | 5ª | 5º | 4º |
| Não matarás (v. 13) | 6ª | 6º | 5º |
| Não cometerás adultério (v. 14) | 7ª | 7º | 6º |
| Não furtarás (v. 15) | 8ª | 8º | 7º |
| Falso testemunho (v. 16) | 9ª | 9º | 8º |
| Não cobiçarás (v. 17) | 10ª | 10º | 9º e 10º (católicos: a mulher no 9º; luteranos: a casa no 9º) |
O que a Igreja ensina
O que a Igreja ensina sobre a numeração?
O Catecismo não esconde a diferença. Diz com todas as letras de onde vem a sua numeração e quem conta de outro jeito:
A divisão e a numeração dos mandamentos variou no decurso da história.
Os Padres gregos procederam a uma divisão um tanto diversa, que se encontra nas Igrejas ortodoxas e nas comunidades reformadas.
Três foram escritos numa tábua e sete na outra
Segundo a tradição catequética católica, o nono mandamento proíbe a concupiscência carnal; e o décimo, a cobiça dos bens alheios.
O Concílio de Trento ensina que os Dez Mandamentos obrigam os cristãos e que o homem justificado continua obrigado a cumpri-los
Repare que o Catecismo não chama a outra divisão de errada: chama de "um tanto diversa" e diz quem a segue. No mesmo número 2066, lembra que a divisão de Agostinho é também a das confissões luteranas.
E o texto que o Catecismo explica é o texto inteiro. O artigo sobre o primeiro mandamento abre citando Êxodo 20,2-5 com todas as palavras, inclusive "Não farás de ti nenhuma imagem esculpida", e trata das imagens nos números 2129 a 2132. O que a Igreja ensina sobre esse versículo, e por que as imagens de Cristo e dos santos não são ídolos, está na aula Êxodo 20 proíbe as imagens?. O artigo sobre o nono mandamento abre com Êxodo 20,17, e o do décimo, com um trecho de Êxodo 20,17 e com Deuteronômio 5,21. Os trechos são curtos; o texto inteiro está no link de cada um.
Por que o catecismo tem uma lista curta?
Além da numeração, há a forma. A lista que muitos católicos aprenderam de cor ("Amar a Deus sobre todas as coisas", "Guardar domingos e festas" e as outras) não é uma tradução de Êxodo 20. É um resumo para decorar, e o próprio Catecismo conta de onde ele vem: "No século XV, começou o costume de exprimir os preceitos do Decálogo em fórmulas rimadas, fáceis de decorar, e positivas, que ainda hoje se usam" (Catecismo, n. 2065).
O Compêndio do Catecismo, de 2005, põe as formas lado a lado, numa tabela: o texto inteiro de Êxodo 20,2-17, com a frase "Não farás para ti nenhuma imagem esculpida"; o de Deuteronômio 5,6-21; e a "Fórmula da Catequese", que começa assim: "Eu sou o Senhor teu Deus: Primeiro: Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas." A edição do Catecismo traz a mesma tabela no começo da seção sobre os Dez Mandamentos (no site do Vaticano, ela aparece na versão inglesa). Quem publica as duas formas na mesma página não está escondendo nenhuma delas.
O resumo também não é coisa só de católicos. O Catecismo Menor de Lutero, escrito para os pais ensinarem em casa, usa a forma curta, sem a frase das imagens. Um resumo funciona como o título de um capítulo: ajuda a lembrar, mas não substitui o texto.
Dois itens da fórmula pedem uma palavra a mais. O nono, "Guardar castidade nos pensamentos e desejos", diz com outras palavras o "não cobiçarás a mulher do teu próximo", na linha do que Jesus ensinou: quem olha para uma mulher desejando-a já cometeu adultério com ela no coração (Mt 5,28). E o terceiro, "Santificar os Domingos e festas de guarda", é o ponto em que existe, de fato, uma mudança: não de palavra, mas de dia. Por que os cristãos guardam o domingo, e se deveriam guardar o sábado, é assunto das duas próximas aulas.
Os frutos
O que isso muda na conversa?
Muda o ponto de partida. Quando um amigo evangélico ou adventista fala do "quarto mandamento", está falando do sábado; pela conta católica, esse mesmo mandamento é o terceiro. Os dois estão falando do mesmo versículo. Antes de discutir, vale abrir Êxodo 20 juntos e ler frase por frase, sem números.
E muda o foco. As dez palavras são um patrimônio comum de judeus e cristãos, e a Igreja ensina que elas obrigam os cristãos (Catecismo, n. 2068). Jesus as resumiu no amor a Deus de todo o coração e no amor ao próximo como a si mesmo (Mt 22,37-40). Discutir números não pode tomar o lugar de cumprir o que eles mandam. Calvino, que defendia outra divisão, pedia o mesmo: liberdade de juízo, e nada de brigas por causa disso.
As diferenças que importam de verdade são duas, e cada uma tem a sua aula: o sentido da proibição das imagens, em Êxodo 20 proíbe as imagens?, e o dia de descanso, em O cristão deve guardar o sábado?.
Para guardar
A Bíblia traz dez palavras, mas não os números. Judeus, católicos, luteranos, ortodoxos e reformados contam de jeitos diferentes, e o texto de Êxodo 20 continua inteiro em todas as Bíblias, inclusive no Catecismo.
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5 perguntas. A resposta aparece assim que você escolhe.
1. A Bíblia numera os Dez Mandamentos?
O número dez está na Bíblia (Êx 34,28; Dt 10,4), mas os textos não numeram as frases. Cada tradição decidiu quais frases andam juntas.
2. Que outra tradição cristã usa a mesma divisão dos católicos?
O Catecismo (n. 2066) diz que a divisão de Agostinho é a mesma das confissões luteranas. Lutero a usou no Catecismo Menor, de 1529.
3. Na divisão de Agostinho, onde fica a proibição de fazer imagens?
Agostinho junta "não terás outros deuses" e "não farás imagem" num só mandamento. O Catecismo trata das imagens no primeiro mandamento (n. 2129 a 2132).
4. Qual texto separa a cobiça da mulher da cobiça dos bens, com verbos diferentes?
Em Deuteronômio 5,21, a mulher vem primeiro, com "cobiçarás", e os bens vêm depois, com "desejarás". Agostinho seguiu essa separação.
5. Na tradição judaica, qual é a primeira das dez palavras?
Nos textos rabínicos, a apresentação de Deus em Êxodo 20,2 é a primeira palavra; "não terás outros deuses", junto com "não farás imagem", é a segunda (Mekhilta, Bachodesh 8; Talmude, Makkot 24a).
Perguntas frequentes
Por que os Dez Mandamentos também se chamam Decálogo?
Decálogo vem do grego e quer dizer "dez palavras", a tradução da expressão hebraica de Êxodo 34,28 e Deuteronômio 10,4. O Catecismo explica o nome no número 2056 e lembra que essas palavras foram escritas por Deus "com o seu Dedo", ao contrário dos outros preceitos, escritos por Moisés.
Quantos mandamentos havia em cada tábua?
A Bíblia fala de duas tábuas, mas não diz como as palavras se distribuíam. Fílon e Josefo pensavam em cinco e cinco, e Calvino achava que Josefo seguia nisso a opinião comum do seu tempo; Agostinho pensava em três e sete, como lembra o Catecismo (n. 2067); Calvino, em quatro e seis, com o "Honra teu pai e tua mãe" na segunda tábua, porque Jesus o põe entre os mandamentos sobre o próximo (Mt 19,19).
A divisão de Agostinho é um dogma?
Não. É a divisão tradicional da Igreja Católica, seguida pelo Catecismo (n. 2066), mas a Igreja não condena as outras: o próprio Catecismo diz que os padres gregos dividiram de modo "um tanto diverso". O que a Igreja ensina como doutrina é o conteúdo dos mandamentos e a obrigação de cumpri-los, não o número de cada um.
Os Dez Mandamentos ainda valem para o cristão?
Sim. O Concílio de Trento ensinou que eles obrigam os cristãos (Catecismo, n. 2068), e o Catecismo cita Santo Ireneu, por volta de 180, dizendo que as palavras do Decálogo, "longe de serem abolidas, elas receberam amplificação e desenvolvimento" com a vinda do Senhor (n. 2063). O que mudou para os cristãos foi o modo de guardar o dia de descanso, assunto das aulas O cristão deve guardar o sábado? e Quem trocou o sábado pelo domingo?.
O texto hebraico marca a divisão dos mandamentos?
Em parte. O texto hebraico tradicional tem sinais de parágrafo, que a edição do Sefaria mostra com as letras פ e ס. No Êxodo, eles não separam "Eu sou o Senhor" de "Não terás outros deuses", nem "Não terás outros deuses" de "Não farás imagem": os versículos 2 a 6 formam um só bloco. Contando os blocos até o fim do versículo 17, chega-se a dez, num desenho parecido com o de Agostinho e de Lutero. A tradição judaica, que copia esses mesmos sinais, conta de outro modo; eles ajudam a ler, mas não decidem a questão sozinhos.
Para ir mais fundo
Fontes
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 2052 a 2082 (n. 2056, 2063, 2065, 2066, 2067 e 2068)
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, artigo sobre o primeiro mandamento (Êx 20,2-5) e n. 2129 a 2132
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 2514 e 2534 (nono e décimo mandamentos)
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica (inglês), tabela dos Dez Mandamentos com a fórmula catequética
- VaticanoCompêndio do Catecismo da Igreja Católica (2005), tabela dos Dez Mandamentos
- Bible HubÊxodo 20,17 no hebraico, palavra por palavra
- Bible HubDeuteronômio 5,21 no hebraico, palavra por palavra
- Bible HubÊxodo 34,28 no hebraico (as dez palavras)
- SefariaÊxodo 20,17 no texto hebraico tradicional (Miqra according to the Masorah), com os sinais de parágrafo (no Sefaria, Êx 20,14)
- SefariaÊxodo 20,2-6 no texto hebraico tradicional, sem sinal de parágrafo entre os versículos (no Sefaria, Êx 20,2-6)
- SefariaDeuteronômio 5,21 no texto hebraico tradicional, com os sinais de parágrafo (no Sefaria, Dt 5,18)
- SefariaMekhilta de Rabi Ismael, Bachodesh 8 (as duas tábuas de cinco, e a opinião dos outros sábios)
- SefariaTalmude da Babilônia, Makkot 24a
- Early Jewish WritingsFílon de Alexandria, O Decálogo, 50-51 (tradução inglesa de C. D. Yonge)
- Universidade de Chicago (Penelope)Flávio Josefo, Antiguidades judaicas, livro III, 5,5 (tradução inglesa de Whiston)
- New AdventTomás de Aquino, Suma Teológica I-II, q. 100, a. 3 e 4 (tradução inglesa)
- Catholic EncyclopediaThe Ten Commandments: a numeração de Agostinho e a de Fílon, Josefo e Orígenes
- CCELJoão Calvino, Institutas, livro II, capítulo 8, 12 (tradução inglesa)
- Book of ConcordMartinho Lutero, Catecismo Menor (1529), os Dez Mandamentos
- Christian Reformed ChurchCatecismo de Heidelberg (1563), perguntas 92 e 96 a 98
- Ellen G. White EstateEllen G. White, The Great Controversy (1911), p. 52
- Igreja Adventista do Sétimo DiaCrença fundamental 18, O dom de profecia

