A resposta curta
Porque em Mateus 23 Jesus não proibiu uma palavra, e sim a vaidade de quem busca títulos e põe um homem no lugar de Deus. O próprio Novo Testamento chama homens de pai: Paulo diz aos coríntios que os gerou em Cristo pelo Evangelho (1Cor 4,15). O católico chama o padre de pai nesse sentido, sabendo, como diz o Catecismo, que "ninguém é pai como Deus" (n. 239).
A objeção
O que se costuma dizer
Jesus foi direto: "A ninguém na terra chameis de vosso pai, pois um só é o vosso Pai, o celeste" (Mt 23,9). Não há exceção. Mesmo assim, os católicos chamam o sacerdote de padre, que quer dizer pai, e o papa de Santo Padre. Isso é desobedecer a uma ordem clara de Cristo e dar a um homem uma honra que pertence só a Deus.
A objeção vem de quem leva a sério a palavra de Jesus, e isso é bom. Por isso a resposta tem de sair do próprio texto: do capítulo 23 de Mateus inteiro, do resto do Novo Testamento e do modo como os primeiros cristãos leram essa frase.
De onde vem a pergunta
De onde vem essa pergunta?
Em português a pergunta pesa ainda mais, porque padre e pai vêm da mesma palavra latina, pater (dicionário Priberam). Quem chama o sacerdote de padre está, ao pé da letra, chamando-o de pai.
E não é só o padre. Papa vem de uma palavra grega carinhosa para pai, assunto da aula O papa existe na Bíblia?. Abade, o superior de um mosteiro, vem do latim abbas, que vem do aramaico abba, pai. A Enciclopédia Católica, de 1907, lembra que, na Síria e no Egito, esse título era dado no começo a qualquer monge idoso ou de santidade conhecida, como sinal de honra, sem indicar nenhum cargo.
Por isso a objeção parece atingir a Igreja inteira de uma vez. Ela se apoia numa regra de leitura que quase nunca é dita: tomar uma frase de Jesus ao pé da letra, separada do capítulo em que está. É essa regra que vale conferir.
A pergunta certa
Qual é a pergunta que importa?
Quem levanta a objeção não lê Mateus 23,9 como proibição de chamar o próprio pai de pai. A Bíblia manda honrar pai e mãe, e Jesus repete esse mandamento (Mt 15,4; Mt 19,19). Então até quem levanta a objeção já interpreta o versículo: aceita que ele não proíbe toda palavra pai dita a um homem.
A pergunta honesta, portanto, é esta: o que exatamente Jesus proibiu em Mateus 23? E os apóstolos, que ouviram essas palavras, entenderam que não podiam chamar ninguém de pai, nem em sentido espiritual?
O que diz a Bíblia
O que diz Mateus 23, lido inteiro?
O cenário. O capítulo 23 é um discurso de Jesus contra os escribas e os fariseus, que Mateus situa no Templo de Jerusalém (Mt 21,23; 24,1). Começa reconhecendo a autoridade deles:
Na cátedra de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus. Fazei e guardai, pois, tudo o que eles vos disserem, mas não imiteis as suas obras, pois dizem e não fazem. (Mt 23,2-3)
Jesus não ataca o cargo; ataca o modo de viver. E diz qual é o problema:
Fazem todas as suas obras para serem vistos pelos homens: alargam os seus filactérios e alongam as franjas dos mantos. Gostam do primeiro lugar nos banquetes, das primeiras cadeiras nas sinagogas, das saudações nas praças e de ser chamados de rabi pelos homens. (Mt 23,5-7)
As três proibições. Só então vem a frase da objeção, que é uma de três, colocadas uma ao lado da outra:
Vós, porém, não vos façais chamar de rabi, pois um só é o vosso mestre, e todos vós sois irmãos. E a ninguém na terra chameis de vosso pai, pois um só é o vosso Pai, o celeste. Nem vos façais chamar de guias, pois um só é o vosso guia, o Cristo. (Mt 23,8-10)
E o capítulo dá a chave logo em seguida:
O maior dentre vós será o vosso servo. Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado. (Mt 23,11-12)
Repare em duas coisas. Primeiro, a frase sobre o pai está entre outras duas, sobre o rabi (mestre) e sobre o guia. Quem lê a do meio como proibição de uma palavra precisa ler as outras do mesmo jeito. Mas o mesmo Novo Testamento diz que Cristo deu à Igreja "pastores e mestres" (Ef 4,11), e Tiago avisa: "não sejam muitos de vós mestres" (Tg 3,1). Ninguém costuma achar que um professor de escola bíblica desobedece a Jesus por ser chamado de professor.
Segundo, o motivo vem junto com a ordem: "um só é o vosso Pai, o celeste". O que o versículo exclui é pôr um homem no lugar do Pai, de quem tudo vem, e buscar o título para ser admirado, como faziam os que Jesus acabou de descrever. A frase se parece com outros modos fortes de falar de Jesus, como quando ele manda arrancar o olho que leva ao pecado (Mt 5,29) ou diz que quem não odeia pai e mãe não pode ser seu discípulo (Lc 14,26). Essas frases não são lidas como ordens ao pé da letra: elas se leem pelo contexto.
Jesus e os apóstolos chamam homens de pai. O próprio Jesus fala de "Abraão, vosso pai" (Jo 8,56) e, numa parábola, põe na boca do rico a súplica "Pai Abraão", a que Abraão responde "filho" (Lc 16,24-25). Paulo chama Abraão de "pai de todos nós" (Rm 4,16). Estêvão começa o seu discurso, e Paulo a sua defesa, com as mesmas palavras:
Irmãos e pais, ouvi. (At 7,2; At 22,1)
E Paulo não tem receio de se dizer pai dos que levou à fé:
Não escrevo isto para vos envergonhar, mas para vos advertir como a filhos meus queridos. Pois ainda que tivésseis dez mil pedagogos em Cristo, não teríeis muitos pais: fui eu que, em Cristo Jesus, vos gerei pelo Evangelho. (1Cor 4,14-15)
O pedagogo, no mundo grego, era o escravo que acompanhava as crianças; o pai era quem lhes tinha dado a vida. Paulo se diz pai porque os coríntios nasceram para a fé por meio do Evangelho que ele pregou. Logo depois, chama Timóteo de "meu filho querido e fiel no Senhor" (1Cor 4,17). Aos tessalonicenses, lembra:
Como sabeis, nós tratamos cada um de vós como um pai trata os próprios filhos, exortando-vos, encorajando-vos e insistindo para que andásseis de modo digno de Deus. (1Ts 2,11-12)
João faz o mesmo. Chama os fiéis de "filhinhos meus" (1Jo 2,1) e, na mesma carta, escreve a um grupo da comunidade que ele chama de pais:
Escrevo-vos, pais, porque conheceis aquele que é desde o princípio. (1Jo 2,13)
Se Mateus 23,9 proibisse a palavra, Paulo e João estariam desobedecendo a Jesus nas mesmas cartas que a Igreja recebeu como Escritura.
No Antigo Testamento, pai também é quem cuida. José diz que Deus o fez "pai para o faraó" (Gn 45,8). Eliseu grita a Elias, o seu mestre: "Meu pai, meu pai!" (2Rs 2,12). E Isaías diz de Eliacim, o mordomo que vai receber a chave da casa de Davi:
Ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá. (Is 22,21)
O versículo seguinte é o da chave (Is 22,22), que a aula Por que o papa é o líder da Igreja? explica.
Os versículos estão em tradução nossa, feita a partir do grego e, no Antigo Testamento, do hebraico. Para ler cada capítulo inteiro numa tradução católica, veja a Bíblia Ave-Maria: Mateus 23, Mateus 15, Mateus 19, Mateus 5, Lucas 14, Lucas 16, João 8, Romanos 4, Atos 7, Atos 22, 1 Coríntios 4, 1 Tessalonicenses 2, 1 João 2, Efésios 4, Tiago 3, Gênesis 45, 2 Reis 2 e Isaías 22.
O que diziam os primeiros cristãos
Como os primeiros cristãos leram essa frase?
Se os primeiros cristãos tivessem entendido Mateus 23,9 como proibição da palavra, não chamariam os seus pastores de pai. Chamavam, e alguns comentaram o versículo de propósito.
Inácio de Antioquia, por volta de 110. Numa das cartas que escreveu a caminho do martírio, Inácio pede que os fiéis respeitem os diáconos como a Jesus Cristo, "assim como o bispo, que é imagem do Pai", e os presbíteros como o conselho de Deus (Carta aos Tralianos 3,1). O Catecismo retoma essa frase no número 1549, citado mais abaixo.
O Martírio de Policarpo, por volta de 155 a 160. No estádio de Esmirna, quando o velho bispo Policarpo se declara cristão, a multidão grita contra ele:
Este é o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor dos nossos deuses. (Martírio de Policarpo 12,2)
Os títulos saem da boca de quem queria vê-lo morto, mas mostram como ele era conhecido na cidade: mestre e pai, as mesmas palavras gregas de Mateus 23,8-9 (didáskalos e patér). A Igreja de Esmirna, que escreveu o relato, registrou essas palavras e honrou Policarpo como mártir.
João Crisóstomo, por volta de 390. Pregando sobre Mateus 23 em Antioquia, ele explica a frase sobre o pai:
Não para que não chamem ninguém assim, mas para que saibam a quem devem chamar de Pai no sentido mais alto. (Homilia 72 sobre Mateus, 3)
E completa: assim como o mestre humano não é mestre em primeiro lugar, também o pai não é pai em primeiro lugar, porque Deus é a causa de todos, dos mestres e dos pais. Comentando 1 Coríntios 4,15, o mesmo Crisóstomo observa que Paulo, ao se dizer pai, não quer mostrar a sua dignidade, mas o tamanho do seu amor (Homilia 13 sobre 1 Coríntios, 4).
Jerônimo, em 398. No seu comentário a Mateus, Jerônimo levanta a mesma dificuldade desta aula: como Paulo pôde se dizer mestre dos gentios, e como os monges podiam se chamar de pai uns aos outros? E responde que uma coisa é ser pai ou mestre por natureza, outra é ser chamado assim por concessão: quando chamamos um homem de pai, honramos a sua idade, e não o tratamos como o autor da nossa vida (trecho recolhido por Tomás de Aquino na Catena Aurea, sobre Mateus 23).
**Os monges e o abba.** Nos desertos do Egito e da Síria, os monges chamavam de abba, pai, os anciãos que os guiavam na vida espiritual. No século VI, Bento de Núrsia escreveu na sua Regra que o abade deve lembrar sempre o nome que recebe: chamado de abba, ele é tido como quem faz as vezes de Cristo no mosteiro e, por isso, não pode ensinar, determinar nem mandar nada fora do preceito do Senhor (Regra de São Bento, cap. 2). O título não é enfeite; é responsabilidade.
As frases de Inácio e do Martírio de Policarpo estão em tradução nossa a partir do grego, e a Regra de São Bento foi resumida a partir do latim. As frases de Crisóstomo e de Jerônimo foram traduzidas ou resumidas a partir das versões inglesas indicadas nas fontes.

O que a Igreja ensina
O que a Igreja ensina sobre a paternidade do padre?
A Igreja não tem um dogma sobre o modo de chamar o sacerdote. Chamar o padre de pai é um costume, que varia de língua para língua, e não um artigo de fé. O que a Igreja ensina é o sentido dessa paternidade e o seu limite: toda paternidade vem de Deus, e nenhum homem toma o lugar dele.
[…] ninguém é pai como Deus.
A paternidade divina é a fonte da paternidade humana […]
Velem, como pais em Cristo, pelos fiéis que espiritualmente geraram pelo Baptismo e pela doutrinação […]
[…] exerçam no Povo e para o Povo de Deus o múnus de pais e mestres, contudo, juntamente com os fiéis, são discípulos do Senhor […]
[…] os presbíteros são irmãos entre os irmãos […]
[…] o bispo é týpos toû Patrós, como que a imagem viva de Deus Pai […]
O número 239 do Catecismo é quase um comentário a Mateus 23,9: Deus é a origem e a medida de toda paternidade, e nenhum pai humano se compara a ele. A Lumen Gentium, ao pedir que os presbíteros cuidem dos fiéis como pais em Cristo, cita na mesma frase 1 Coríntios 4,15. E o decreto Presbyterorum Ordinis, logo depois de chamar os padres de pais e mestres, lembra que eles são irmãos entre os irmãos; na nota desse trecho, remete justamente a Mateus 23,8 e a uma frase do papa Paulo VI: "pelo facto de desejarmos ser pastores, pais e mestres dos homens, por isso mesmo procedamos como seus irmãos". Ou seja, a Igreja lê Mateus 23 como um aviso dirigido, em primeiro lugar, aos próprios padres. O último trecho, do número 1549, retoma a carta de Inácio aos tralianos. Os trechos são curtos; o texto inteiro está no link de cada um.
E o título de Santo Padre? E é obrigatório chamar o padre de pai?
O Santo Padre. Quem levanta a objeção às vezes lembra que o próprio Jesus chama Deus de "Pai santo" (Jo 17,11), e pergunta como o papa pode receber um nome parecido. A pergunta é justa. Mas santo, na Bíblia, não é palavra reservada a Deus: Paulo chama os cristãos de Roma de "santos por vocação" (Rm 1,7), como explica a aula O que quer dizer santo na Bíblia?. Chamar o papa de Santo Padre é tratá-lo com respeito pelo encargo que recebeu, como pai na fé dos católicos; não é confundi-lo com Deus. E o título que os próprios papas usam nos documentos mais solenes é bem mais humilde: "servo dos servos de Deus", como lembra a aula Por que o papa é o líder da Igreja?.
É obrigatório? Não. A Igreja não manda ninguém chamar o padre de pai. Em português, padre virou simplesmente o nome comum do sacerdote. O que não pode faltar é o que o nome lembra: o padre é pai no sentido em que Paulo foi pai dos coríntios, e só nesse sentido.
Para ler os capítulos inteiros na Bíblia Ave-Maria: João 17 e Romanos 1.
Lado a lado
A objeção e o texto, lado a lado
| O que se diz | O que o texto mostra | Onde conferir |
|---|---|---|
| Mateus 23,9 proíbe chamar qualquer homem de pai. | A mesma Bíblia manda honrar pai e mãe, e Jesus repete o mandamento. O versículo exclui pôr um homem no lugar do Pai do céu. | Mt 15,4; Mt 23,9 |
| A proibição vale ao pé da letra. | Se valesse, valeria também para mestre e guia, que estão no mesmo trecho; mas o Novo Testamento fala de mestres na Igreja. | Mt 23,8-10; Ef 4,11; Tg 3,1 |
| Os apóstolos nunca chamaram ninguém de pai. | Paulo se diz pai dos coríntios; Estêvão e Paulo começam os seus discursos com "irmãos e pais"; João escreve aos pais da comunidade. | 1Cor 4,15; At 7,2; At 22,1; 1Jo 2,13 |
| Chamar pastores de pai é coisa da Idade Média. | Por volta de 155 a 160, o bispo Policarpo era conhecido como pai dos cristãos; Crisóstomo e Jerônimo comentaram o versículo no fim do século IV. | Martírio de Policarpo 12,2; Crisóstomo, Homilia 72 sobre Mateus; Jerônimo, Comentário a Mateus |
| O padre se põe no lugar de Deus. | A Igreja ensina que ninguém é pai como Deus e que os padres são discípulos e irmãos entre os irmãos. | Catecismo 239; Presbyterorum Ordinis 9 |
Os frutos
Que tipo de pai a Igreja pede que o padre seja?
Mateus 23 não é um texto contra os católicos. É um espelho para qualquer pessoa com autoridade na Igreja, e a Igreja o lê assim. Quando um padre busca honra, o primeiro lugar e o título pelo título, ele cai exatamente no que Jesus condenou nos fariseus, e ser chamado de pai não o desculpa: pesa mais contra ele. Quando serve, vive o que o nome promete. "O maior dentre vós será o vosso servo" (Mt 23,11).
Paulo mostra como é esse pai. Corrige sem humilhar ("não escrevo isto para vos envergonhar", 1Cor 4,14) e encoraja cada um, como um pai faz com os filhos (1Ts 2,11-12). Bento pedia o mesmo ao abade, lembrando que ele prestaria contas a Deus do que ensinasse e de como cuidasse do seu rebanho.
Com um irmão evangélico há um bom ponto de partida: muitos chamam os seus líderes de pastor, título que o Novo Testamento também usa (Ef 4,11), sem pensar que tiram algo de Cristo, o Bom Pastor. A palavra pai, no sentido de Paulo, segue a mesma lógica. A conversa fica mais fácil quando se lê junto o capítulo 23 inteiro, e não só o versículo 9.
Para guardar
Em Mateus 23, Jesus não proíbe a palavra pai: proíbe pôr um homem no lugar de Deus e buscar títulos por vaidade. Paulo se disse pai dos coríntios, e é nesse sentido, de quem gera para a fé e serve, que o católico chama o padre de pai.
Teste
Teste o que você aprendeu
5 perguntas. A resposta aparece assim que você escolhe.
1. Em Mateus 23,8-10, Jesus fala de três títulos, um ao lado do outro. Quais são?
As três frases estão juntas e se leem do mesmo jeito. O capítulo critica a vaidade de quem gosta de ser chamado de rabi e de ocupar os primeiros lugares (Mt 23,5-7), e termina dizendo que o maior será o servo (Mt 23,11).
2. Em qual carta Paulo diz que gerou os fiéis em Cristo Jesus pelo Evangelho?
Em 1 Coríntios 4,15, Paulo escreve que os coríntios podiam ter dez mil pedagogos, mas não muitos pais, porque foi ele quem os gerou em Cristo pelo Evangelho.
3. Que motivo o próprio versículo de Mateus 23,9 dá para a frase sobre o pai?
O versículo diz: "pois um só é o vosso Pai, o celeste". O que fica excluído é pôr um homem no lugar de Deus, não honrar o pai que a própria Lei manda honrar (Mt 15,4).
4. Como a multidão de Esmirna chamou o bispo Policarpo, por volta de 155 a 160?
Segundo o Martírio de Policarpo (12,2), a multidão gritou: "Este é o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor dos nossos deuses".
5. O que diz o Catecismo, no número 239, sobre a paternidade?
O Catecismo diz que Deus transcende a paternidade humana, sem deixar de ser a sua origem e a sua medida: "ninguém é pai como Deus".
Perguntas frequentes
O que quer dizer abba?
É a palavra aramaica para pai. Jesus a usa ao rezar no Getsêmani: "Abba, Pai, tudo te é possível" (Mc 14,36), e Paulo diz que o Espírito faz os cristãos clamarem "Abba, Pai" (Rm 8,15; Gl 4,6). Os monges do Egito e da Síria passaram a dar esse título aos seus guias espirituais; dele vêm o latim abbas e o português abade (Enciclopédia Católica, verbete Abbot).
Jesus também proibiu chamar alguém de mestre?
No mesmo trecho em que fala do pai, Jesus diz para não se fazer chamar de rabi nem de guia (Mt 23,8-10). Mas o Novo Testamento fala de mestres na Igreja (Ef 4,11; Tg 3,1). Os três avisos se leem juntos: o alvo é a vaidade de quem busca o título e se põe no lugar de Deus.
Outros apóstolos também chamam os fiéis de filhos?
Sim. Pedro termina a sua primeira carta mandando a saudação de "Marcos, meu filho" (1Pd 5,13). E João escreve: "Não tenho alegria maior do que esta: ouvir que os meus filhos andam na verdade" (3Jo 4). É a mesma paternidade espiritual de que Paulo fala em 1 Coríntios 4,15.
Por que o papa é chamado de Santo Padre?
É um título de respeito pelo encargo de pai na fé dos católicos, e não uma confusão com Deus. Na Bíblia, santo não é palavra só de Deus: Paulo chama os cristãos de santos (Rm 1,7). Nos documentos mais solenes, o papa se apresenta como servo dos servos de Deus.
O católico é obrigado a chamar o padre de pai?
Não. É um costume, não um dogma, e varia de língua para língua. A Igreja ensina o sentido da paternidade espiritual e o seu limite: ninguém é pai como Deus (Catecismo 239), e os padres são irmãos entre os irmãos (Presbyterorum Ordinis 9).
Para ir mais fundo
Fontes
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 239
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 1549
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 2214
- VaticanoConcílio Vaticano II, constituição Lumen Gentium, n. 28
- VaticanoConcílio Vaticano II, decreto Presbyterorum Ordinis, n. 9 e nota 51
- Bible HubMateus 23, texto grego e interlinear
- CCELInácio de Antioquia, Carta aos Tralianos 3,1 (texto grego e tradução inglesa de K. Lake)
- Bibliothek der Kirchenväter (Universidade de Friburgo)Martírio de Policarpo 12 (texto grego e tradução inglesa)
- New AdventJoão Crisóstomo, Homilia 72 sobre Mateus (tradução inglesa)
- New AdventJoão Crisóstomo, Homilia 13 sobre 1 Coríntios (tradução inglesa)
- CCELTomás de Aquino, Catena Aurea sobre Mateus, cap. 23 (tradução inglesa de 1842, com o trecho de Jerônimo)
- Documenta Catholica OmniaJerônimo, prefácios aos comentários: o comentário a Mateus é de 398 (tradução inglesa de Schaff)
- The Latin LibraryRegra de São Bento, cap. 2 (texto latino)
- Catholic EncyclopediaAbbot: a origem da palavra abba e o uso entre os monges
- Dicionário PriberamVerbete padre (origem no latim pater)
- Dicionário PriberamVerbete pai (origem no latim pater)

