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Imagem gerada por IA: à noite, entre oliveiras antigas, Jesus reza ajoelhado sobre as pedras, enquanto três discípulos dormem enrolados nos mantos, com os muros de Jerusalém ao fundo.

O Rosário é a repetição vazia de Mateus 6,7?

Jesus condena o falatório de quem acha que vai ser ouvido pela quantidade de palavras. A própria Igreja usa esse versículo para avisar quem reza o terço: sem meditação, ele corre o risco de virar o que Jesus condenou.

13 min de leitura

Imagem gerada por IA: Jesus reza ajoelhado no Getsêmani e, pela terceira vez, diz "outra vez as mesmas palavras" (Mt 26,44; Lc 22,41), em estilo de pintura barroca

A resposta curta

Não, quando é rezado como a Igreja pede. Em Mateus 6,7, Jesus condena o falatório de quem pensa que será ouvido "por causa do excesso de palavras", e não toda repetição: ele mesmo, no Getsêmani, orou três vezes, repetindo as mesmas palavras (Mt 26,44; Mc 14,39). O Rosário é a meditação da vida de Cristo ao ritmo da Ave-Maria, e a Igreja avisa que, sem essa meditação, ele corre o risco de virar a repetição mecânica que Jesus condena.

A objeção

O que se costuma dizer

Jesus foi claro: "Orando, não useis de vãs repetições, como os gentios" (Mt 6,7). E o que é o terço? Cinquenta Ave-Marias seguidas, com Pai-Nossos e Glórias no meio, contadas numa corrente de contas; o rosário inteiro tem quatro vezes isso. Se Deus ouve da primeira vez, para que repetir cinquenta? E a maior parte das palavras é dirigida a Maria, não a Deus. É exatamente o tipo de oração que Jesus mandou não fazer.

Quem fala assim quer rezar do jeito que Jesus ensinou, e essa vontade é boa. A objeção merece uma resposta que comece pelo próprio versículo.

De onde vem a pergunta

De onde vem essa objeção?

A expressão "vãs repetições" ficou conhecida pelas traduções protestantes clássicas (e aparece até na tradução portuguesa da exortação Marialis Cultus, n. 47, no site do Vaticano). A inglesa King James, de 1611, diz vain repetitions, e a tradução de João Ferreira de Almeida, comum entre os evangélicos brasileiros, diz "não useis de vãs repetições". A Bíblia Ave-Maria traduz de outro jeito: "não multipliqueis as palavras". A diferença não é detalhe: uma tradução fala em repetir, a outra em falar demais. A palavra grega permite discutir as duas coisas, como se verá abaixo.

A crítica pesa sobre o terço porque ele é, de fato, uma oração de repetição, contada nas contas. A Enciclopédia Católica, em 1912, já registrava que a objeção das "vãs repetições" era muito comum. Do lado católico, o cuidado também é antigo: em 1974, o papa Paulo VI usou o próprio versículo de Mateus 6,7 para avisar quem reza o terço sem meditar, e João Paulo II repetiu o aviso em 2002. A Igreja não acha que o risco é inventado. Acha que ele existe quando o terço é rezado do jeito errado.

A origem da Ave-Maria e a pergunta sobre rezar a Maria estão na aula Por que rezar a Maria se Jesus é o único mediador?. Aqui o assunto é a repetição.

A pergunta certa

Qual é a pergunta que importa?

A pergunta honesta é sobre o versículo: o que exatamente Jesus condena em Mateus 6,7: repetir palavras, ou achar que Deus se convence pela quantidade delas? Se for toda repetição, a Bíblia teria de condenar também alguns dos seus próprios salmos. Se for a ideia de vencer Deus pelo cansaço, a pergunta muda: o terço, rezado como a Igreja pede, é isso?

Uma comparação ajuda. A criança que repete "mãe, mãe, mãe" não acha que a mãe é surda; repete porque ama e porque confia. Quem repete uma fórmula achando que o efeito depende de dizê-la um certo número de vezes está fazendo outra coisa. Os dois repetem; só um confia.

O que diz a Bíblia

O que diz Mateus 6,7, no grego e no contexto?

Primeiro, o trecho inteiro:

Quando orardes, não fiqueis tagarelando como os pagãos, pois eles pensam que serão ouvidos por causa do excesso de palavras. Não sejais como eles, porque o vosso Pai sabe do que precisais antes que lho peçais. Vós, portanto, orai assim: Pai nosso, que estais nos céus... (Mt 6,7-9)

A palavra que Jesus usa é battalogéō, que só aparece aqui em todo o Novo Testamento. Os dicionários dão sentidos como gaguejar, repetir as mesmas coisas sem parar, falar palavras vazias, tagarelar. A origem é incerta, e o léxico de Thayer considera mais provável que ela imite o som de quem fala sem pensar, como o nosso "blá-blá-blá". É honesto reconhecer que a ideia de repetição pode estar dentro da palavra. Mas o próprio Jesus explica o que quer dizer: os pagãos acham que serão ouvidos "por causa do excesso de palavras" (polylogía, o muito falar). E dá o motivo para não imitá-los: o Pai já sabe do que precisamos. O que ele condena é a ideia de que Deus se convence pela quantidade.

A Bíblia mostra um exemplo dessa oração. No monte Carmelo, os profetas de Baal gritaram "Baal, responde-nos!" da manhã até o meio-dia, fizeram cortes no corpo "segundo o seu costume" e continuaram até a hora da oferta da tarde, "mas não houve voz, nem resposta, nem atenção" (1Rs 18,26-29). Era um esforço para obrigar um deus a ouvir.

No mesmo Sermão da Montanha, logo em seguida, Jesus ensina uma oração com palavras fixas: "orai assim" (Mt 6,9). Em Lucas, é ainda mais direto: "Quando orardes, dizei: Pai..." (Lc 11,2). E a Bíblia usa a repetição no louvor:

Dai graças ao Senhor, porque ele é bom: porque eterno é o seu amor. (Sl 136,1)

Os 26 versículos desse salmo terminam com a mesma frase, ki leolam hasdô, "porque eterno é o seu amor". No céu, segundo o Apocalipse, a repetição não para:

Os quatro seres vivos [...] não têm descanso, dia e noite, dizendo: Santo, santo, santo, Senhor Deus, o Todo-poderoso, aquele que era, que é e que vem. (Ap 4,8)

E o próprio Jesus, na noite em que foi preso, repetiu a mesma oração:

Deixando-os, afastou-se de novo e orou pela terceira vez, dizendo outra vez as mesmas palavras. (Mt 26,44)

Marcos conta o mesmo: Jesus "orou dizendo as mesmas palavras" (Mc 14,39). Por fim, Jesus contou uma parábola justamente sobre "a necessidade de orar sempre, sem desanimar": a da viúva que voltava sempre ao juiz até ser atendida. E concluiu: "E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele dia e noite?" (Lc 18,1.7).

O que Jesus condena, então, não é repetir. É a oração que confia no próprio volume, como a dos profetas de Baal. A viúva insiste, mas não acha que as palavras dela são mágicas: confia que vai ser ouvida.

Os versículos estão em tradução nossa, feita a partir do grego e do hebraico. Para ler cada capítulo inteiro numa tradução católica, veja a Bíblia Ave-Maria: Mateus 6, 1 Reis 18, Lucas 11, Salmo 136 (135 na numeração da Ave-Maria), Apocalipse 4, Mateus 26, Marcos 14 e Lucas 18.

O que diziam os primeiros cristãos

Como os primeiros cristãos entenderam isso?

Agostinho, em 412. Uma viúva nobre e rica, chamada Proba, pediu-lhe que escrevesse sobre a oração. Na resposta, Agostinho junta Mateus 6,7 com a parábola da viúva de Lucas 18 e mostra que os dois textos não se contradizem:

Longe de nós, na oração, o muito falar; mas também não deixemos de rezar longamente, se a atenção fervorosa da alma continuar. Falar muito na oração é gastar palavras demais para pedir uma coisa necessária; rezar longamente é ter o coração movido, sem parar, por um afeto piedoso por aquele a quem rezamos. (Carta 130,10,20)

Na mesma carta, ele conta que os monges do Egito faziam orações muito frequentes, mas muito breves, como que disparadas de repente, para que a atenção não se cansasse.

João Cassiano, nos anos 420. Monge que passou anos no deserto de Escete, no Egito, e por volta de 415 fundou dois mosteiros em Marselha, ele registra o conselho do abade Isaac: ter sempre na boca e no coração um único versículo, repetido em todas as situações, na tentação, no cansaço, na alegria e na tristeza. O versículo é o começo do Salmo 70, na forma latina que ele conhecia:

Ó Deus, vem em meu auxílio; Senhor, apressa-te em me socorrer. (Conferências X,10)

Os monges que contavam orações. O historiador Sozomeno, no século V, conta que no tempo do imperador Valente (364 a 378) um monge chamado Paulo, que vivia no deserto de Escete, rezava trezentas orações por dia. Para não perder a conta, guardava trezentas pedrinhas na dobra da roupa e tirava uma a cada oração (História Eclesiástica VI,29). A Enciclopédia Católica cita esse caso ao contar a história das contas de oração.

Nenhum deles achava que repetir era o problema. O problema, para Agostinho, era trocar a atenção do coração pelo número de palavras.

As frases de Agostinho e de Cassiano e o relato de Sozomeno estão em tradução nossa, feita a partir das versões inglesas indicadas nas fontes. Para ler o Salmo 70 inteiro, veja a Bíblia Ave-Maria (Salmo 69 na sua numeração).

Imagem gerada por IA: um monge idoso do deserto, sentado numa esteira à porta de uma cela de barro, segura pedrinhas na dobra da roupa e deixa cair uma delas numa tigela enquanto reza.
Imagem gerada por IA: Paulo, monge do deserto de Escete no século IV, contava as suas trezentas orações diárias com pedrinhas, segundo o historiador Sozomeno

O que a Igreja ensina

O que a Igreja diz sobre a repetição e o Rosário?

A Igreja conhece o risco de que fala Mateus 6,7 e usa o próprio versículo como aviso. Em 2002, ao escrever sobre o Rosário, João Paulo II retomou uma advertência que Paulo VI tinha feito em 1974:

Sem contemplação, o Rosário é um corpo sem alma e a sua recitação corre o perigo de tornar-se uma repetição mecânica de fórmulas […]

João Paulo II, Rosarium Virginis Mariae (citando Paulo VI, Marialis Cultus, n. 47), n. 12

[…] o Terço como expressão daquele amor que não se cansa de voltar à pessoa amada […]

João Paulo II, Rosarium Virginis Mariae, n. 26

Muitas vezes repetida por um coração humildemente atento, não se dispersa num «mar de palavras» (Mt 6, 7) […]

Catecismo da Igreja Católica, n. 2668

«Que a nossa oração seja atendida não depende da quantidade de palavras, mas do fervor das nossas almas».

Catecismo da Igreja Católica, n. 2700

No número 26, João Paulo II lembra a cena em que Jesus ressuscitado pergunta três vezes a Pedro "tu me amas?" e Pedro responde três vezes (Jo 21,15-17), e é difícil chamar essa repetição de vazia. E acrescenta que, embora a Ave-Maria se dirija a Maria, "com Ela e por Ela é para Jesus que, em última análise, vai o acto de amor". Por isso o centro de cada Ave-Maria é o nome de Jesus (n. 33).

O número 2668 do Catecismo fala da invocação do nome de Jesus, a oração repetida que os monges do Oriente transmitiram ("Jesus, Cristo, Filho de Deus, Senhor, tende piedade de nós, pecadores", n. 2667), e diz que essa repetição, feita com atenção, "guarda a Palavra e produz fruto pela constância": não é o falatório de Mateus 6,7. O número 2700 cita São João Crisóstomo. O Catecismo inclui o Rosário entre as formas de meditar os mistérios de Cristo (n. 2708) e o chama de "resumo de todo o Evangelho" (n. 971).

Vale distinguir os níveis: o Rosário não é dogma nem obrigação. O Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, de 2001, pede que, ao recomendar o terço, não se desvalorizem as outras formas de oração e não se faça ninguém se sentir culpado por não rezá-lo: os fiéis devem sentir-se livres para rezá-lo pela sua beleza (n. 202). Os trechos são curtos; o texto inteiro está no link de cada um.

O que a história mostra

De onde vem o Rosário: o que é certo e o que é tradição?

A história do Rosário mistura fatos bem documentados e uma tradição piedosa que os documentos não confirmam. É bom separar, como faz a Enciclopédia Católica, uma obra católica que lembra que discutir a origem histórica dessa devoção não toca em nenhum ponto de doutrina.

O que é certo. Contar orações é costume antigo, como mostra o monge Paulo com as suas pedrinhas. Na Idade Média, os mosteiros pediam orações simples a quem não rezava os salmos: em 1096, os costumes da abadia de Cluny mandavam que, pela morte de um irmão, cada monge que não fosse padre rezasse cinquenta salmos ou cinquenta Pai-Nossos. Os cordões de contas usados para contar ficaram conhecidos como "pai-nossos", e em 1268 os fabricantes desses cordões já formavam corporações de ofício em Paris. Quando a Ave-Maria se espalhou, no século XII, surgiu o costume de rezá-la cinquenta ou cento e cinquenta vezes, à imitação dos 150 salmos; daí o nome "saltério de Nossa Senhora". A meditação dos mistérios de Cristo durante as Ave-Marias, que é a alma do Rosário, segundo os estudos citados pela enciclopédia, surgiu no começo do século XV, com um cartuxo, Domingos da Prússia.

O que é tradição. Segundo uma tradição muito difundida, Nossa Senhora teria entregue o Rosário a São Domingos de Gusmão (morto em 1221) para combater a heresia albigense, e vários papas repetiram essa história. Mas as primeiras biografias de São Domingos, os depoimentos do seu processo de canonização e os documentos dominicanos dos dois séculos seguintes não ligam o Rosário a São Domingos nem lhe dão destaque. A história aparece com o pregador dominicano Alano de la Roche, por volta de 1470 a 1475, que fundou confrarias do Rosário com grande sucesso. A mais antiga das bulas que atribuem o Rosário a São Domingos, de Leão X, em 1520, ainda fala com cautela: "segundo se lê nas histórias". Hoje, a própria Igreja usa palavras prudentes: João Paulo II escreve que o Rosário se foi formando gradualmente no segundo milênio e que foi usado especialmente pelos dominicanos num momento difícil para a Igreja (Rosarium Virginis Mariae, n. 1 e 17). O que é certo é que os filhos de São Domingos foram, a partir do século XV, os grandes divulgadores do Rosário.

Lepanto e o 7 de outubro. Em 7 de outubro de 1571, primeiro domingo do mês, a frota cristã venceu a frota otomana em Lepanto, no mesmo dia em que as confrarias do Rosário faziam procissões em Roma. O papa Pio V mandou lembrar o Rosário nesse dia; Gregório XIII, em 1573, permitiu a festa nas igrejas que tinham altar do Rosário, e Clemente XI a estendeu a toda a Igreja em 1716. É a festa de Nossa Senhora do Rosário, celebrada em 7 de outubro.

2002: os mistérios da luz. O Rosário tinha 150 Ave-Marias, como os 150 salmos, em três grupos de mistérios. João Paulo II propôs, deixando à livre escolha de cada um, um quarto grupo, os mistérios da luz, da vida pública de Jesus: o Batismo no Jordão, as bodas de Caná, o anúncio do Reino, a Transfiguração e a instituição da Eucaristia (n. 19 e 21). Em português, "terço" lembra a terça parte do antigo rosário de 150; o Diretório de 2001 fala justamente dos que rezam um terço do Rosário (n. 200).

Lado a lado

O falatório de Mateus 6,7 e o Rosário que a Igreja pede, lado a lado

O falatório que Jesus condenaO Rosário como a Igreja pede
Em que confiaNa quantidade de palavrasNo Pai, que já sabe do que precisamos (Mt 6,8)
Onde está a atençãoEm cumprir a fórmulaNo mistério de Cristo que se medita (Catecismo, n. 2708)
RitmoPressa e volumeRitmo tranquilo, com leitura da Bíblia e silêncio (Rosarium Virginis Mariae, n. 12, 30 e 31)
Exemplo bíblicoOs profetas de Baal no Carmelo (1Rs 18,26-29)Jesus no Getsêmani (Mt 26,44); Salmo 136; Ap 4,8
Quando um vira o outroSempre que se confia no número de palavrasQuando se reza sem meditar: é a própria Igreja que avisa (Marialis Cultus, n. 47)

Os frutos

Como rezar o terço sem cair no falatório?

A carta de João Paulo II dá um caminho simples. Anunciar o mistério e, se possível, ler a passagem do Evangelho que ele recorda (n. 30). Fazer um momento de silêncio antes de começar (n. 31). Rezar o Pai-Nosso e as dez Ave-Marias sem pressa, pondo o peso no nome de Jesus, que é o centro de cada uma (n. 33); quem quiser pode acrescentar depois do nome uma frase curta sobre o mistério, costume antigo que o Diretório de 2001 recomenda (n. 201). Melhor uma dezena rezada assim do que cinco rezadas correndo.

Com um irmão evangélico, há um ponto de partida comum: dificilmente alguém dirá que o Pai-Nosso fica vazio por ser rezado todos os dias, ou que um refrão cantado várias vezes no culto é falatório, se o coração está nele. O critério de Jesus serve para os dois lados: o que importa é confiar no Pai, e não no número de palavras.

E quem não reza o terço não é menos católico por isso. A Igreja o recomenda como uma escola de oração centrada em Cristo, mas pede que ele seja rezado com liberdade, pela sua beleza (Diretório, n. 202).

Para guardar

Jesus não condenou a repetição: condenou achar que Deus ouve pelo excesso de palavras, e ele mesmo repetiu a mesma oração no Getsêmani. O terço rezado com meditação é o amor que volta à mesma frase; sem meditação, a própria Igreja diz que corre o risco de virar falatório.

Teste

Teste o que você aprendeu

5 perguntas. A resposta aparece assim que você escolhe.

  1. 1. Que palavra grega Jesus usa em Mateus 6,7?

  2. 2. Segundo Mateus 6,7, por que os pagãos falavam tanto na oração?

  3. 3. O que Jesus fez no Getsêmani, segundo Mateus 26,44?

  4. 4. Quantos versículos do Salmo 136 terminam com "porque eterno é o seu amor"?

  5. 5. O que João Paulo II, citando Paulo VI, diz do Rosário rezado sem contemplação?

Perguntas frequentes

Jesus proibiu repetir orações?

Não. Em Mateus 6,7, ele condena quem pensa que será ouvido pelo excesso de palavras. No mesmo trecho, ensina o Pai-Nosso para ser rezado com as mesmas palavras (Mt 6,9; Lc 11,2), e no Getsêmani orou três vezes, repetindo as mesmas palavras (Mt 26,44; Mc 14,39). O Salmo 136 repete o mesmo refrão nos seus 26 versículos.

São Domingos recebeu o Rosário de Nossa Senhora?

É uma tradição piedosa, repetida por vários papas, mas os documentos do tempo de São Domingos (morto em 1221) não falam disso. A história aparece com o dominicano Alano de la Roche, por volta de 1470. O certo é que as Ave-Marias repetidas são anteriores a São Domingos, que a meditação dos mistérios, segundo os estudos citados pela Enciclopédia Católica, surgiu no século XV e que os dominicanos foram os grandes divulgadores do Rosário.

Qual é a diferença entre terço e rosário?

O rosário antigo tinha 150 Ave-Marias, em quinze dezenas, como os 150 salmos. O terço é a terça parte dele: cinco dezenas, com cinco mistérios. Desde 2002, para quem adota os mistérios da luz, que o papa deixou à livre escolha, o rosário completo tem vinte mistérios, e cada dia costuma-se rezar um terço.

Por que tantas Ave-Marias e só um Pai-Nosso em cada dezena?

Porque a Ave-Maria funciona como fundo para meditar o mistério de Cristo. Paulo VI e João Paulo II explicam que a repetição da Ave-Maria é a trama sobre a qual se desenrola a contemplação, e que o centro de cada uma é o nome de Jesus (Marialis Cultus, n. 46; Rosarium Virginis Mariae, n. 18 e 33).

O católico é obrigado a rezar o terço?

Não. O Rosário é uma devoção muito recomendada pela Igreja, mas não é dogma nem obrigação. O Diretório sobre a piedade popular, de 2001, pede que ninguém seja levado a se sentir culpado por não rezá-lo e que os fiéis o rezem livremente, pela sua beleza (n. 202).

Para ir mais fundo

Fontes

  1. VaticanoJoão Paulo II, carta apostólica Rosarium Virginis Mariae (16 de outubro de 2002), n. 1, 12, 17, 19, 21, 26, 30, 31 e 33
  2. VaticanoPaulo VI, exortação apostólica Marialis Cultus (2 de fevereiro de 1974), n. 46 e 47
  3. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 2667, 2668 e 2678
  4. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 2700 e 2708
  5. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 971
  6. VaticanoCongregação para o Culto Divino, Diretório sobre a piedade popular e a liturgia (2001), n. 200 a 202
  7. VaticanoBento XVI, Angelus de 1º de outubro de 2006 (a festa do Rosário em 7 de outubro)
  8. VaticanoNova Vulgata, Evangelho de Mateus (Mt 6,7: multum loqui)
  9. Bible HubMateus 6,7 no grego (battalogéō, polylogía)
  10. Bible HubLéxico de Thayer, verbete βατταλογέω (Strong 945)
  11. Bible HubMateus 26,44 e Marcos 14,39 no grego (ton auton logon)
  12. Bible HubSalmo 136 no hebraico (o refrão nos 26 versículos)
  13. Bíblia OnlineMateus 6,7 na tradução de Almeida ("vãs repetições")
  14. New AdventAgostinho, Carta 130, a Proba (ano 412), cap. 10 (tradução inglesa)
  15. New AdventJoão Cassiano, Conferências, X,10 (tradução inglesa)
  16. Catholic EncyclopediaJohn Cassian: o deserto de Escete e os mosteiros de Marselha (c. 415)
  17. New AdventSozomeno, História Eclesiástica, VI,29 (tradução inglesa)
  18. Catholic EncyclopediaRosary: as contas de oração, o saltério de Nossa Senhora, Domingos da Prússia, Alano de la Roche e a bula de Leão X
  19. Catholic EncyclopediaFeast of the Holy Rosary: Lepanto (1571), Gregório XIII (1573) e Clemente XI (1716)
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