
A notícia
Gazeta do Povo [dir.]21/10/2026
Governo Lula 3 mantém R$ 83 milhões do cartão corporativo em sigilo e barra 22 mil pedidos via LAI
De janeiro de 2023 a agosto de 2026, a Presidência da República gastou R$ 84,5 milhões com o cartão corporativo, e R$ 83,4 milhões (98,6%) estão em sigilo: o público vê o mês, o valor e a unidade, mas não a data, quem usou o cartão nem onde comprou. O sigilo tem base na Lei de Acesso à Informação, que manda fechar até o fim do mandato o que põe em risco a segurança do presidente e da família. O dado veio a público na semana em que Lula autorizou no TSE a abertura dos próprios sigilos bancário, fiscal e telefônico e desafiou Flávio Bolsonaro a fazer o mesmo.
Ler na íntegra em Gazeta do PovoA avaliação
- Prudencial·Doutrina SocialO governo Lula mantém em sigilo, com base na Lei de Acesso à Informação e alegando a segurança do presidente e da família, o detalhe de 98,6% dos gastos da Presidência com o cartão corporativo de janeiro de 2023 a agosto de 2026 (R$ 83,4 milhões de R$ 84,5 milhões), sem separar em público o que é segurança e o que é gasto comum.
O que a Igreja ensina
É uma questão que incumbe especialmente ao mundo da comunicação pública e ao da economia. Neles, o uso descomedido do dinheiro faz com que surjam questões cada vez mais urgentes, que necessariamente reclamam uma necessidade de transparência e honestidade no agir pessoal e social.
A Informação está entre os principais instrumentos de participação democrática. Não é pensável participação alguma sem o conhecimento dos problemas da comunidade política, dos dados de fato e das várias propostas de solução dos problemas.
O bem e a segurança de outrem, o respeito pela vida privada e pelo bem comum, são razões suficientes para calar o que não deve ser conhecido ou para usar uma linguagem discreta.
Reflexão
O segredo que a lei permite
A lei brasileira manda fechar, até o fim do mandato, o que põe em risco a segurança do presidente, do vice e de suas famílias. Ninguém sensato quer o roteiro de viagem de um chefe de Estado publicado na véspera. O Catecismo diz o mesmo com outras palavras: a segurança de alguém é razão suficiente para calar o que não deve ser conhecido (CIC 2489). A regra vale para qualquer presidente, não só para este. Até aqui, não há escândalo, e nenhuma fonte aponta irregularidade nesses gastos.
Quando quase tudo vira segurança
O problema está na proporção. De cada 100 reais que a Presidência pagou com o cartão desde 2023, 98 reais e 60 centavos ficaram sem data, sem portador e sem fornecedor conhecidos. A própria Lei de Acesso à Informação pede que, ao fechar um dado, se use "o critério menos restritivo possível" (art. 24, § 5º). Quando quase tudo é tratado como segurança, o cidadão perde o meio de separar o que protege o presidente do que é despesa comum de um gabinete.
A Doutrina Social da Igreja não fixa quanto um governo pode guardar. Isso é juízo prudente de quem governa, e por isso a marca deste Olhar é de ressalva. Mas ela diz para onde a balança deve pender: a informação é um dos principais instrumentos de participação democrática (Compêndio, 414), e o uso descomedido do dinheiro levanta questões que reclamam transparência e honestidade no agir pessoal e social (Compêndio, 198). O dinheiro do cartão não é do presidente. É de quem paga imposto.
A mesma régua
Nesta semana, Lula autorizou no TSE a abertura dos próprios sigilos bancário, fiscal e telefônico, e os da família, e desafiou o adversário a fazer o mesmo. Sigilo pessoal e gasto público não são a mesma coisa. Mas a régua da transparência, uma vez erguida em praça pública, passa a medir também quem a ergueu. O Evangelho é direto: seremos medidos com a medida que usamos (Mt 7,2). E Leão XIV lembrou há poucos dias que quem dá a César o que é de César é chamado a ser verdadeiro, sem subserviência nem hipocrisia.
Pedir ao outro a verdade inteira é justo. Mais forte seria começar por aquilo que já está nas mãos do próprio governo. A transparência que convence não é a que se cobra do adversário na reta final; é a que se pratica em casa, e quanto mais alto o cargo, mais perto da porta ela deveria começar.
Assinado por Filipe Lourenço.
Perguntas e respostas
Quanto dos gastos da Presidência com o cartão corporativo está em sigilo no governo Lula 3?
De janeiro de 2023 a agosto de 2026, a Presidência da República gastou R$ 84,5 milhões com o cartão corporativo, e R$ 83,4 milhões (98,6%) estão marcados como sigilosos nos dados abertos do Portal da Transparência. O número foi publicado pela Gazeta do Povo e conferido pelo Olhar de Fé nos arquivos do portal.
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O sigilo do cartão corporativo da Presidência é ilegal?
Não. A Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011, art. 24, § 2º) manda classificar como reservadas, até o fim do mandato, as informações que possam pôr em risco a segurança do presidente, do vice e de suas famílias. A regra vale para qualquer presidente. A mesma lei pede o critério menos restritivo possível ao fechar uma informação.
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A Igreja condena que o governo guarde segredo sobre gastos?
Não de forma absoluta. O Catecismo (2489) ensina que a segurança de alguém é razão suficiente para calar o que não deve ser conhecido. Mas o Compêndio da Doutrina Social (198 e 414) lembra que o uso descomedido do dinheiro levanta questões que reclamam transparência e que a informação é instrumento de participação democrática. Quanto fechar é questão prudencial.
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Quando os gastos sigilosos do cartão da Presidência serão abertos?
Pela Lei de Acesso à Informação, ao fim do mandato em exercício ou, em caso de reeleição, ao fim do último mandato.
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Fontes
- Gazeta do Povo [dir.]Governo Lula 3 mantém R$ 83 milhões do cartão corporativo em sigilo e barra 22 mil pedidos via LAI
- Portal da Transparência (CGU)Dados abertos do Cartão de Pagamento do Governo Federal (CPGF)
- PlanaltoLei 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação), art. 24
- Jovem Pan [dir.]Flávio diz que aceita abrir sigilo se Lula divulgar dados do cartão corporativo
- Santa SéCompêndio da Doutrina Social da Igreja
- Santa SéCatecismo da Igreja Católica, 2196 a 2557
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