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Doutrina Social

MEI com teto maior e perdão de dívidas: o que a Igreja ensina

A Câmara aprovou por 461 a 4 o projeto do governo para o MEI: o pequeno negócio merece apoio, e o perdão de dívida pede prudência.

O OlharPrudencialA doutrina não decide: católicos fiéis podem divergir.60Nota do Olhar
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Foto: deputados no Plenário da Câmara dos Deputados durante a sessão de 14/10/2026 que votou o projeto do MEI, com os painéis de votação acesos nas laterais e a Mesa ao fundo.
Plenário da Câmara na sessão de 14/10/2026. Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados. Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados, via Agência Câmara, Uso livre com crédito (Câmara dos Deputados)

A notícia

Agência Câmara14/10/2026

Câmara aprova novo limite de enquadramento para microempreendedor individual e inclui perdão de dívidas

Em 14/10/2026, a Câmara dos Deputados aprovou, por 461 votos a 4, o projeto do governo Lula que sobe o teto de faturamento do MEI de R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, permite contratar até dois empregados e perdoa as dívidas de MEIs inscritas na Dívida Ativa da União até 13/10/2026. O texto ainda vai ao Senado. Na véspera, Flávio Bolsonaro, adversário de Lula no segundo turno, criticou o pacote anunciado pelo governo para os MEIs, em especial o PixMEI (que não está neste projeto), como tentativa de enganar o eleitor perto da eleição.

Hoje o MEI às vezes dispensa um contrato para não extrapolar a faixa

Rubens Pereira Júnior (PT-MA), relator, à Agência Câmara
Ler na íntegra em Agência Câmara

A avaliação

Questão prudencialA doutrina não decide: católicos fiéis podem divergir.60
  1. FielDoutrina SocialA Câmara dos Deputados aprovou, em 14/10/2026, subir o teto de faturamento do MEI para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028 e permitir até dois empregados com salário mínimo ou o piso da categoria.
  2. PrudencialDoutrina SocialO mesmo projeto, aprovado pela Câmara em 14/10/2026, perdoa as dívidas de MEIs inscritas na Dívida Ativa da União até 13/10/2026, desde que o microempreendedor pague em dia os seis meses seguintes e desista de ações na Justiça.
  3. ContraCondutaO governo Lula anunciou o pacote para os MEIs em 13/10/2026, a 12 dias do segundo turno, e no mesmo dia o adversário Flávio Bolsonaro disse que Lula quer enganar o eleitor com o PixMEI e prometeu cortar impostos e burocracia.

A nota do Olhar vai de 0 a 100: fiel vale 100 e contra vale 0, pesando mais o que é inegociável. Prudencial fica fora da conta. Como a nota é feita

O que a Igreja ensina

O trabalho nas pequenas e médias empresas, o trabalho artesanal e o trabalho independente podem constituir uma ocasião para tornar mais humana a experiência do trabalho, tanto pela possibilidade de estabelecer positivas relações interpessoais em comunidades de pequenas dimensões, quanto pelas oportunidades oferecidas por uma maior iniciativa e empreendimento

Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 315

As finanças públicas se orientam para o bem comum quando se atêm a alguns princípios fundamentais: o pagamento dos impostos como especificação do dever de solidariedade; racionalidade e eqüidade na imposição dos tributos; rigor e integridade na administração e na destinação dos recursos públicos.

Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 355

A submissão à autoridade e a corresponsabilidade pelo bem comum exigem moralmente o pagamento dos impostos, o exercício do direito de voto, a defesa do país

Catecismo da Igreja Católica, 2240

Reflexão

O teto que encolhe sem ninguém mexer

Um limite de faturamento que fica parado por anos encolhe sozinho. O preço do pão sobe, a conta de luz sobe, e quem vende o mesmo tanto de bolo passa a faturar mais em reais sem ter crescido nada. O relator resumiu o efeito numa frase: o MEI às vezes deixa de fechar um contrato para não estourar a faixa. É uma regra que acaba punindo o pequeno por crescer.

A Igreja olha para esse pequeno com carinho particular. O Compêndio da Doutrina Social diz que o trabalho nas pequenas empresas e o trabalho independente "podem constituir uma ocasião para tornar mais humana a experiência do trabalho" (n. 315). E chama a liberdade da pessoa no campo econômico de "um valor fundamental e um direito inalienável a ser promovido e tutelado" (n. 336). A costureira, o eletricista e a dona da lanchonete não são números da Receita: são famílias que arriscam o próprio sustento. Subir o teto e deixar contratar mais um empregado com carteira, ganhando ao menos o salário mínimo ou o piso, vai na direção desse ensino. Por isso a marca de acordo nesse ponto.

Perdoar também é ensinar a pagar

O perdão das dívidas pede mais cuidado. A Igreja não manda perdoar nem proíbe perdoar dívida de imposto: é decisão prudencial, que depende de quanto custa, de quem recebe e do que ensina. De um lado está a misericórdia com quem quebrou na pandemia, na crise ou na doença, e não tem como sair do buraco. Do outro está o vizinho que apertou o orçamento e pagou tudo em dia. O Catecismo lembra que a corresponsabilidade pelo bem comum exige "moralmente o pagamento dos impostos" (n. 2240), e o Compêndio pede "racionalidade e eqüidade na imposição dos tributos" (n. 355).

O texto aprovado tenta juntar as duas coisas: só fica com o perdão quem voltar a pagar em dia nos seis meses seguintes. É um perdão que pede conversão, não um prêmio pelo atraso. Se vai funcionar assim, ou se vai ensinar que sempre vale a pena esperar o próximo perdão, só o tempo mostra. Católicos fiéis podem pensar diferente aqui, e está tudo bem.

A mesma régua para os dois lados

O pacote foi anunciado a 12 dias do segundo turno (o projeto do teto estava no Congresso desde junho; o do perdão chegou nesta semana), e a votação veio a 11. Flávio Bolsonaro disse que Lula quer enganar o eleitor e, no mesmo discurso, prometeu cortar impostos e burocracia desde o primeiro dia. As duas coisas merecem a mesma pergunta: quem paga a conta e quem sai mais justo no fim? Medida boa não fica ruim por sair em outubro, e promessa de corte não fica boa por ser corte. O que vale para o perdão de Lula vale para o alívio prometido por Flávio. O presidente da Câmara ligou esta votação ao fim da escala 6x1 aprovado no Senado, e a pergunta é a mesma lá.

No fim, a Câmara votou 461 a 4, um raro momento em que quase ninguém viu motivo para ser contra. Talvez porque, por baixo da briga, todo mundo conhece um MEI: uma tia que vende marmita, um primo que conserta celular. A política pode usar essa gente como cabo eleitoral ou pode servir a ela. A diferença não aparece no anúncio, aparece no que fica de pé depois da eleição.

Assinado por Filipe Lourenço.

Perguntas e respostas

O que a Câmara aprovou para o MEI em 14/10/2026?

Por 461 votos a 4, a Câmara aprovou o projeto do governo que sobe o teto de faturamento do MEI de R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, permite até dois empregados com salário mínimo ou piso da categoria e perdoa as dívidas de MEIs na Dívida Ativa da União até 13/10/2026. O texto ainda precisa passar pelo Senado.

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A Igreja apoia o pequeno empreendedor?

Sim. O Compêndio da Doutrina Social chama a liberdade da pessoa no campo econômico de direito inalienável (n. 336) e diz que o trabalho nas pequenas empresas e o trabalho independente podem tornar mais humana a experiência do trabalho (n. 315).

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Perdoar dívida de imposto é justo segundo a Igreja?

A doutrina não decide: é questão prudencial. Pagar impostos é dever moral (Catecismo 2240) e os tributos pedem equidade (Compêndio 355). O perdão pode ser misericórdia com quem quebrou, mas precisa ser justo com quem pagou e não pode ensinar que atrasar compensa.

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O novo teto do MEI já está valendo?

Não. Em 15/10/2026 o projeto ainda dependia do Senado e da sanção. Pelo texto aprovado, o novo teto começaria em 2027.

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Fontes

  1. Agência CâmaraCâmara aprova novo limite de enquadramento para microempreendedor individual e inclui perdão de dívidas
  2. Agência CâmaraHugo Motta destaca aprovação quase unânime de novo limite para enquadramento de MEI
  3. PB AgoraHugo Motta comemora aprovação quase unânime de novo limite para o MEI: "Esta conquista dialoga com o fim da escala 6x1"
  4. Agência Brasil (Tribuna de Minas)Câmara aprova aumento do limite de faturamento do MEI para R$ 140 mil e perdão de dívidas
  5. Congresso em FocoProspera MEI: Lula propõe perdão de dívidas e repasses de até R$ 5 mil
  6. ExameFlávio Bolsonaro critica Pix para MEI anunciado por Lula: 'Ele acha que o povo é otário'
  7. Brasil em FolhasCâmara aprova pacote de Lula com benefícios para MEIs a 11 dias do 2º turno
  8. VaticanoCompêndio da Doutrina Social da Igreja
  9. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, terceira parte, segunda seção

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