Pular para o conteúdo
Imagem gerada por IA, em estilo de pintura a óleo: ao entardecer, homens de túnica descem às pressas um corpo enrolado em linho num túmulo de pedra, enquanto um bando armado aparece no alto do morro; dentro do túmulo, o homem se levanta vivo.

Relíquias têm fundamento na Bíblia?

A Bíblia mostra Deus agindo por meio dos ossos de um profeta e dos lenços de um apóstolo. A Igreja honra as relíquias por isso, sem atribuir a elas poder próprio.

14 min de leitura

Imagem gerada por IA: Um morto revive ao tocar os ossos do profeta Eliseu (2Rs 13,20-21), em estilo de pintura barroca

A resposta curta

Sim. A Bíblia conta que um morto voltou à vida ao tocar os ossos do profeta Eliseu (2Rs 13,21) e que Deus curava doentes por meio de lenços que tinham tocado o corpo de Paulo (At 19,11-12). A Igreja honra as relíquias dos santos desde o século II, mas ensina que quem age é Deus, e não o objeto. Manda afastar toda superstição e todo lucro indigno, e proíbe vender relíquias (Concílio de Trento, sessão 25; Código de Direito Canônico, cân. 1190).

A objeção

O que se costuma dizer

Guardar ossos, dentes e pedaços de roupa de gente que já morreu é superstição. A Bíblia diz que quem toca um cadáver fica impuro (Nm 19,11), e o rei Ezequias quebrou a serpente de bronze feita por Moisés quando o povo começou a queimar incenso para ela (2Rs 18,4). Venerar restos mortais é coisa de pagão. E a história está cheia de relíquias falsas, vendidas para tirar dinheiro do povo simples.

A objeção junta um argumento bíblico, um histórico e uma denúncia de abusos. Os três merecem resposta, e o terceiro tem uma parte de verdade que é preciso reconhecer.

De onde vem a pergunta

De onde vem essa crítica?

A crítica mais conhecida é de João Calvino. Em 1543 ele publicou um tratado contra as relíquias, que se tornou o mais lido dos seus escritos contra Roma. Nele, listava com ironia relíquias repetidas e duvidosas espalhadas pela Europa. Desde então, o tema aparece em pregações e livros evangélicos, e também na crítica de quem não tem fé.

Mas a denúncia de relíquias falsas é muito mais antiga que a Reforma, e é católica. Por volta de 401, Santo Agostinho reclamava de falsos monges que andavam pelas províncias "vendendo membros de mártires, se é que são de mártires" (O trabalho dos monges 28,36). Em 1215, o IV Concílio de Latrão proibiu vender relíquias e enganar os fiéis com documentos falsos. O próprio Calvino abre o seu tratado citando essa queixa de Agostinho.

Ou seja, houve abusos, e a Igreja foi a primeira a condená-los. A pergunta desta aula é outra: honrar as relíquias dos santos é, em si, contra a Bíblia?

A pergunta certa

Qual é a pergunta que importa?

Primeiro, o que é uma relíquia. A palavra vem do latim reliquiae, "restos". A Igreja chama de relíquias, antes de tudo, o corpo ou partes do corpo dos santos; e, num sentido mais largo, objetos que pertenceram a eles ou que tocaram o seu corpo ou o seu túmulo (Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia, n. 236).

A pergunta honesta, então, é esta: a Bíblia mostra Deus agindo por meio do corpo e dos objetos de pessoas santas? E, se mostra, honrar as relíquias continua essa lógica ou cai na magia?

A diferença entre a honra dada aos santos e a adoração devida só a Deus é tema da aula O que são latria, dulia e hiperdulia?.

O que diz a Bíblia

O que a Bíblia mostra?

Os ossos de Eliseu

Eliseu morreu, e o sepultaram. Bandos de moabitas costumavam invadir o país quando chegava o começo do ano. Certa vez, uns homens estavam sepultando um morto quando viram um desses bandos, e jogaram o homem no túmulo de Eliseu. Quando o homem tocou os ossos de Eliseu, reviveu e se pôs de pé. (2Rs 13,20-21)

O texto conta o fato sem nenhuma reprovação. O contato com o corpo de um homem de Deus, morto havia tempo, não aparece como impureza, mas como ocasião de vida. Séculos depois, o livro do Eclesiástico lembrou o episódio como um sinal de Deus: "e, mesmo adormecido, o seu corpo profetizou; em vida fez prodígios, e na morte as suas obras foram admiráveis" (Eclo 48,14-15). Repare que o texto grego chama a morte de "sono", como faz toda a Bíblia. É bom não exagerar: o texto não manda guardar os ossos de ninguém. Ele mostra que Deus quis agir por meio deles.

A franja do manto de Jesus

Uma mulher, que sofria de hemorragia havia doze anos, chegou por trás e tocou a franja do manto [de Jesus], pois dizia consigo: Se eu tocar ao menos o seu manto, ficarei curada. Jesus voltou-se, viu-a e disse: Coragem, filha, a tua fé te salvou. E desde aquela hora a mulher ficou curada. (Mt 9,20-22)

Nas três vezes, o verbo grego é o mesmo, sṓzō, que quer dizer ao mesmo tempo salvar e curar. Marcos acrescenta que Jesus "percebeu que uma força tinha saído dele" (Mc 5,30). Os dois detalhes juntos dizem tudo: a força vem de Jesus, a fé da mulher é necessária, e o manto é o meio que ela usou. Mais adiante, Mateus conta que os doentes pediam para tocar "ao menos a franja do seu manto, e todos os que tocaram ficaram curados" (Mt 14,36).

A sombra de Pedro

Chegavam a levar os doentes para as praças e a deitá-los em camas e macas, para que, quando Pedro passasse, ao menos a sua sombra cobrisse algum deles. Também das cidades vizinhas de Jerusalém vinha muita gente, trazendo doentes e atormentados por espíritos impuros, e todos eram curados. (At 5,15-16)

Lucas não diz, com essas palavras, que a sombra curava. Diz o que o povo fazia e que todos eram curados, e não registra nenhuma censura dos apóstolos.

Os lenços de Paulo

Deus fazia milagres fora do comum por meio das mãos de Paulo, a ponto de levarem aos doentes lenços e aventais que tinham tocado a pele dele; as doenças os deixavam, e os espíritos maus saíam. (At 19,11-12)

Repare em quem faz: "Deus fazia". Os lenços eram panos de enxugar o suor, e os aventais, roupas de trabalho; Paulo ganhava a vida fazendo tendas (At 18,3). Objetos comuns, que tinham tocado um homem de Deus.

E o mesmo capítulo mostra a diferença entre fé e magia. Logo depois, uns exorcistas ambulantes tentam usar o nome de Jesus como fórmula, "Eu vos conjuro por Jesus, a quem Paulo prega", e fracassam (At 19,13-16). Em seguida, muitos que praticavam magia queimam os seus livros diante de todos (At 19,19). A magia quer controlar o poder com uma fórmula ou um objeto. A fé pede a Deus, que age quando e como quer.

E as objeções?

Quem tocar o cadáver de qualquer pessoa ficará impuro durante sete dias. (Nm 19,11)

É uma lei de pureza ligada ao culto do santuário, não uma proibição moral. A mesma Lei de Moisés mostra Israel levando para a Terra Prometida os ossos de José: "Moisés levou consigo os ossos de José, pois José tinha feito os filhos de Israel jurarem: Deus certamente vos visitará, e então levareis daqui os meus ossos convosco" (Ex 13,19). A Carta aos Hebreus diz que José deu essa ordem "pela fé" (Hb 11,22). E Jesus tocou o caixão do filho da viúva de Naim (Lc 7,14).

[Ezequias] despedaçou a serpente de bronze que Moisés tinha feito, porque até aqueles dias os israelitas queimavam incenso para ela. (2Rs 18,4)

A serpente tinha sido feita por ordem de Deus (Nm 21,8-9) e foi guardada por séculos. Ezequias a destruiu porque o povo lhe queimava incenso, isto é, a tratava como divindade. O problema era a idolatria, não o objeto. A Igreja diz o mesmo: nenhuma relíquia é adorada.

Por fim, Paulo lembra que "o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós" (1Cor 6,19). É por isso que os cristãos tratam com respeito o corpo dos santos: ele foi casa do Espírito e vai ressuscitar.

Os versículos estão em tradução nossa, feita a partir do hebraico e do grego; o Eclesiástico, a partir do grego da Septuaginta (na numeração grega, Eclo 48,13-14). Para ler cada capítulo inteiro numa tradução católica, veja a Bíblia Ave-Maria: II Reis 13, Eclesiástico 48, Mateus 9, Marcos 5, Mateus 14, Atos 5, Atos 19, Números 19, Êxodo 13, Lucas 7, II Reis 18, Números 21 e 1 Coríntios 6.

O que diziam os primeiros cristãos

O que faziam e diziam os primeiros cristãos?

Esmirna, por volta de 155 a 160. O relato do martírio do bispo Policarpo conta que muitos cristãos queriam recolher o corpo dele e "ter parte na sua santa carne" (17,1). Mas um dos adversários pediu ao governador que não entregasse o corpo, com o argumento de que os cristãos poderiam "deixar o Crucificado e começar a adorar este" (17,2). A comunidade responde em uma linha: "A Ele, que é o Filho de Deus, adoramos; os mártires, como discípulos e imitadores do Senhor, amamos com justiça" (17,3; o tema é tratado na aula Se só Deus é adorado, por que venerar santos?). Depois que o corpo foi queimado, eles fizeram assim:

Mais tarde recolhemos os seus ossos, mais preciosos que pedras de grande valor e mais apurados que o ouro, e os depusemos num lugar conveniente. (Martírio de Policarpo 18,2)

É um dos testemunhos mais antigos de cristãos guardando as relíquias de um mártir, e já com a distinção clara entre adorar e honrar.

Cirilo de Jerusalém, por volta de 350. Explicando a ressurreição aos que iam ser batizados, Cirilo comenta os ossos de Eliseu: Deus fez isso para mostrar que, mesmo sem a alma presente, há uma força no corpo dos santos, por causa da alma justa que morou nele por tantos anos e se serviu dele. E completa: se lenços e aventais, que vinham de fora, curavam os doentes ao tocá-los, quanto mais o próprio corpo do profeta (Catequeses 18,16).

Milão, 386. O bispo Ambrósio encontra os corpos dos mártires Gervásio e Protásio e os coloca sob o altar da nova basílica, com uma frase que faz pensar nos mártires "debaixo do altar" do Apocalipse (Ap 6,9): "Ele sobre o altar, ele que sofreu por todos; eles debaixo do altar, eles que foram resgatados pela sua paixão" (Carta 22,13). Na mesma carta, conta que um cego conhecido na cidade, Severo, voltou a ver ao tocar o pano que cobria as relíquias (22,17). Santo Agostinho, que estava em Milão naquele tempo, também registrou o fato (A Cidade de Deus XXII,8).

Jerônimo, 404. Vigilâncio, um padre da Gália, chamava os que honravam as relíquias de "adoradores de cinzas" e idólatras, que veneravam ossos de homens mortos. Jerônimo respondeu numa carta a outro padre da região:

Nós não prestamos culto nem adoramos, não digo as relíquias dos mártires, mas nem sequer o sol e a lua, nem os anjos, nem os arcanjos, nem os serafins, nem os querubins, nem nenhum nome que se nomeia neste mundo e no futuro, para não servirmos à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Honramos, porém, as relíquias dos mártires, para adorar aquele de quem eles são mártires. Honramos os servos, para que a honra dos servos redunde no Senhor, que diz: Quem vos recebe, a mim recebe. (Carta 109,1)

Na mesma carta, ele lembra os ossos de Eliseu e os de José (109,2).

As frases do Martírio de Policarpo estão em tradução nossa a partir do grego, e a de Jerônimo, a partir do latim (edição de Hilberg). As de Cirilo e Ambrósio foram traduzidas ou resumidas a partir das versões inglesas indicadas nas fontes.

Imagem gerada por IA, em estilo de pintura a óleo: ao amanhecer, num estádio romano vazio, cristãos de túnicas simples recolhem com cuidado ossos das cinzas de uma fogueira num pano de linho branco.
Imagem gerada por IA: Os cristãos de Esmirna recolhem os ossos do bispo Policarpo, por volta de 155, em estilo de pintura renascentista

O que a Igreja ensina

O que a Igreja ensina, e o que não ensina?

O texto de referência é o decreto do Concílio de Trento sobre a invocação dos santos, as relíquias e as imagens, aprovado na sessão 25, em dezembro de 1563. Em resumo, com as nossas palavras: os bispos devem ensinar que os corpos dos mártires e dos outros santos, que foram membros vivos de Cristo e templos do Espírito Santo e vão ressuscitar na glória, devem ser venerados pelos fiéis, e que por meio deles Deus concede muitos benefícios aos homens. O Concílio condena quem diz que as relíquias não merecem honra nenhuma. No mesmo decreto, manda tirar toda superstição e todo lucro indigno, e proíbe reconhecer relíquia ou milagre novo sem o exame e a aprovação do bispo. Documentos mais recentes, no vatican.va, confirmam esse ensino e mostram os seus limites:

A Igreja, segundo a tradição, venera os Santos e as suas relíquias autênticas, bem como as suas imagens.

Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, n. 111

Estas manifestações são um prolongamento da vida litúrgica da Igreja, mas não a substituem.

Catecismo da Igreja Católica, n. 1675

Não é permitido vender relíquias sagradas.

Código de Direito Canônico, cân. 1190, § 1

Conserve-se a antiga tradição de guardar sob o altar fixo relíquias de mártires ou de outros santos […]

Código de Direito Canônico, cân. 1237, § 2

Não se tratando duma matéria de fé, a Igreja não tem competência específica para se pronunciar sobre essas questões.

João Paulo II, discurso diante do Sudário de Turim (1998), n. 2

Juntando tudo, dá para dizer com precisão o que a Igreja ensina e o que ela não ensina.

Ensina que é bom e legítimo honrar as relíquias dos santos, e que Deus pode conceder graças por meio delas, como fez com os ossos de Eliseu e os lenços de Paulo. E condena quem diz que elas não merecem honra nenhuma.

Não ensina que a relíquia tem poder próprio, nem que funciona sozinha: quem age é Deus, e a fé de quem reza é necessária. Não obriga nenhum católico a venerar esta ou aquela relíquia; o Catecismo coloca essa devoção entre as formas de piedade popular, que acompanham a liturgia mas não a substituem (n. 1674 e 1675). E não garante que toda relíquia que já circulou na história seja verdadeira. O Diretório sobre a Piedade Popular, de 2001, pede que se confira a autenticidade das relíquias expostas, que as duvidosas sejam retiradas com prudência, que não se dividam os corpos em pedacinhos, que se evitem coleções e que se impeça toda fraude, comércio e superstição (n. 237). A instrução da Congregação para as Causas dos Santos de 2017 proíbe expor uma relíquia sem certificado de autenticidade. Sobre objetos famosos, como o Sudário de Turim, a Igreja não define se são autênticos, como diz o último trecho acima. Os trechos são curtos; o texto inteiro está no link de cada um.

Linha do tempo

Das cinzas de Policarpo às normas de hoje, em datas

A Igreja nunca aboliu a veneração das relíquias, mas foi apertando as regras contra os abusos. Calvino criticou abusos reais; Trento respondeu separando a fé do comércio.

  1. c. 155 a 160Os ossos de PolicarpoA Igreja de Esmirna recolhe os ossos do bispo mártir e combina se reunir ali no aniversário do martírio.
  2. c. 350Cirilo de JerusalémEnsina aos catecúmenos que Deus age até pelo corpo dos santos, lembrando Eliseu e os lenços de Paulo.
  3. 386Gervásio e ProtásioAmbrósio põe as relíquias dos mártires sob o altar da basílica, em Milão.
  4. c. 401Agostinho denuncia fraudesCritica os falsos monges que vendem supostas relíquias de mártires.
  5. 404Jerônimo contra VigilâncioExplica que os cristãos honram as relíquias dos mártires para adorar a Deus, de quem eles são testemunhas.
  6. 1215IV Concílio de LatrãoProíbe vender relíquias, exibi-las fora de relicários e venerar relíquias novas sem aprovação do papa.
  7. 1543O tratado de CalvinoO reformador ridiculariza as relíquias repetidas e duvidosas espalhadas pela Europa.
  8. 1563Concílio de Trento, sessão 25Confirma a veneração das relíquias e manda afastar superstição e lucro, sob o controle dos bispos.
  9. 1963Sacrosanctum ConciliumO Concílio Vaticano II lembra que a Igreja venera as relíquias autênticas dos santos.
  10. 1983Código de Direito CanônicoProíbe vender relíquias e mantém a tradição de guardá-las sob o altar.
  11. 2001Diretório sobre a Piedade PopularPede conferir a autenticidade, retirar as duvidosas e impedir fraude, comércio e superstição.
  12. 2017Instrução sobre as relíquiasNenhuma relíquia pode ser exposta sem certificado de autenticidade.

Lado a lado

A objeção e os textos, lado a lado

O que se dizO que os textos mostramOnde conferir
Quem toca em morto fica impuro.É lei de pureza do culto antigo. A mesma Lei mostra Israel levando os ossos de José, e Jesus tocou o caixão em Naim.Nm 19,11; Ex 13,19; Lc 7,14
Ezequias destruiu a serpente de bronze.Porque o povo queimava incenso para ela. O problema era a idolatria, que a Igreja também condena.2Rs 18,4; Nm 21,8-9
Deus não age por objetos.Agiu pelos ossos de Eliseu, pela franja do manto de Jesus e pelos lenços de Paulo.2Rs 13,21; Mt 9,20-22; At 19,11-12
É invenção da Idade Média.Por volta de 155, os cristãos de Esmirna já guardavam os ossos de Policarpo.Martírio de Policarpo 18
É magia.No capítulo dos lenços de Paulo, quem tenta usar o nome de Jesus como fórmula fracassa, e os livros de magia são queimados.At 19,13-19
A Igreja vive de vender relíquias.O direito da Igreja proíbe vender relíquias, e Latrão IV já proibia em 1215.Código, cân. 1190; Latrão IV, cân. 62

Os frutos

Por que isso faz sentido para quem crê?

Santo Agostinho explicou com uma comparação simples. Se a roupa ou o anel de um pai é tanto mais querido aos filhos quanto maior o amor por ele, muito menos se devem desprezar os corpos dos justos, que o Espírito Santo usou como instrumentos para todas as boas obras (A Cidade de Deus I,13). Quem guarda com carinho a Bíblia de uma avó que já partiu entende metade da questão.

A outra metade é a fé na ressurreição. O cristão honra o corpo de um santo porque esse corpo foi templo do Espírito e vai ressuscitar glorioso. Por isso as relíquias ficam sob o altar: os que deram a vida por Cristo descansam junto do sacrifício de Cristo, como os mártires que João viu "debaixo do altar" (Ap 6,9).

Com um amigo evangélico, vale começar pelo que é comum: a mulher que tocou o manto de Jesus, os ossos de Eliseu, os lenços de Paulo. Os dois concordam que quem cura é Deus. A conversa honesta é sobre se Deus ainda pode querer agir assim, e sobre como evitar que a devoção vire superstição, um cuidado que a própria Igreja exige.

Para guardar

A Bíblia mostra Deus agindo pelos ossos de Eliseu e pelos lenços de Paulo. A Igreja honra as relíquias dos santos desde o século II, mas quem age é sempre Deus, e a superstição e a venda de relíquias estão proibidas.

Teste

Teste o que você aprendeu

5 perguntas. A resposta aparece assim que você escolhe.

  1. 1. O que aconteceu, segundo 2 Reis 13,21, quando um morto tocou os ossos de Eliseu?

  2. 2. Em Atos 19,11-12, quem fazia os milagres por meio dos lenços que tinham tocado Paulo?

  3. 3. Qual destes é um testemunho do século II de cristãos guardando as relíquias de um mártir?

  4. 4. O que o Código de Direito Canônico diz sobre vender relíquias?

  5. 5. Sobre a autenticidade do Sudário de Turim, o que disse João Paulo II em 1998?

Perguntas frequentes

O que é uma relíquia?

Antes de tudo, o corpo ou partes do corpo de um santo ou beato. Num sentido mais largo, objetos que pertenceram a ele ou que tocaram o seu corpo ou o seu túmulo (Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia, n. 236). As normas de 2017 distinguem relíquias significativas, como o corpo ou partes notáveis dele, e não significativas, como pequenos fragmentos ou objetos de contato.

Venerar relíquias não é idolatria?

Não, quando se honra o santo e se adora só a Deus. Já no Martírio de Policarpo, por volta de 155, os cristãos explicavam: "A Ele, que é o Filho de Deus, adoramos; os mártires, como discípulos e imitadores do Senhor, amamos com justiça" (17,3). Jerônimo dizia que honramos as relíquias dos mártires para adorar aquele de quem eles são mártires. Tratar um objeto como divindade, como fizeram com a serpente de bronze (2Rs 18,4), seria idolatria.

O católico é obrigado a venerar relíquias?

Não é obrigado a venerar esta ou aquela relíquia. A Igreja ensina que a veneração é legítima e boa e condena quem diz que as relíquias não merecem honra nenhuma (Concílio de Trento, sessão 25), mas trata essa devoção como forma de piedade popular, que acompanha a liturgia e não a substitui (Catecismo, n. 1675).

E as relíquias falsas?

Existiram, e a Igreja as combate há muito tempo. Agostinho já denunciava falsos vendedores por volta de 401, o IV Concílio de Latrão proibiu o comércio em 1215, Trento mandou os bispos examinarem toda relíquia nova, e as normas de hoje exigem certificado de autenticidade e mandam retirar com prudência as relíquias duvidosas.

Por que há relíquias sob os altares?

É uma tradição antiga, mantida pelo Código de Direito Canônico (cân. 1237, § 2). Em 386, Ambrósio pôs as relíquias de dois mártires sob o altar em Milão, dizendo que Cristo está sobre o altar e os que foram resgatados por ele, debaixo. A imagem lembra Apocalipse 6,9, onde as almas dos mártires estão debaixo do altar.

Para ir mais fundo

Fontes

  1. Hanover Historical TextsConcílio de Trento, sessão 25, decreto sobre a invocação, a veneração e as relíquias dos santos (tradução inglesa de Waterworth, 1848)
  2. VaticanoConcílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, n. 111
  3. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 1674 a 1676
  4. VaticanoCódigo de Direito Canônico, cân. 1190 e 1237
  5. VaticanoJoão Paulo II, veneração do Santo Sudário em Turim (24 de maio de 1998)
  6. VaticanoDiretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia (2001), n. 236 e 237 (inglês)
  7. VaticanoCongregação para as Causas dos Santos, instrução sobre as relíquias (2017, inglês)
  8. VaticanoDivinus Perfectionis Magister, n. 3: a autenticidade das relíquias
  9. Fordham UniversityIV Concílio de Latrão (1215), cânon 62 (tradução inglesa)
  10. BKV (Universidade de Friburgo)Martírio de Policarpo, 17 (texto grego, edição Loeb)
  11. BKV (Universidade de Friburgo)Martírio de Policarpo, 18 (texto grego, edição Loeb)
  12. New AdventMartírio de Policarpo (tradução inglesa)
  13. New AdventCirilo de Jerusalém, Catequese 18, 16 (tradução inglesa)
  14. New AdventAmbrósio de Milão, Carta 22 (tradução inglesa)
  15. Internet ArchiveJerônimo, Carta 109, texto latino (Hilberg, CSEL 55, 1912)
  16. New AdventJerônimo, Carta 109, a Ripário (tradução inglesa)
  17. New AdventAgostinho, A Cidade de Deus, livro XXII (tradução inglesa)
  18. The Latin LibraryAgostinho, A Cidade de Deus, livro I, 13 (texto latino)
  19. New AdventAgostinho, O trabalho dos monges, 28 (tradução inglesa)
  20. CCELPhilip Schaff, History of the Christian Church, vol. 8, § 122: o tratado de Calvino sobre as relíquias (1543)
  21. Bible Hub2 Reis 13,21 no hebraico
  22. ElpenorEclesiástico 48 no grego da Septuaginta
Grupo no WhatsApp