A resposta curta
Pela graça de Deus, recebida na fé. A Igreja Católica não ensina salvação pelas obras: o Concílio de Trento condenou quem diz que o homem se justifica pelas próprias obras, sem a graça de Cristo (sessão VI, cânon 1), e o Catecismo ensina que ninguém pode merecer a graça primeira, que dá início à conversão e à justificação (n. 2010). O que a Igreja recusa é uma fé sem caridade: a fé que salva "age pela caridade" (Gl 5,6), e as obras feitas na graça contam no juízo (Mt 25,31-46).
A objeção
O que se costuma dizer
A Bíblia é clara: "é pela graça que estais salvos, por meio da fé [...]; não vem das obras, para que ninguém se orgulhe" (Ef 2,8-9). Paulo conclui que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei (Rm 3,28). A Igreja Católica, porém, ensina que é preciso somar à fé as obras, os sacramentos, as penitências e os méritos para chegar ao céu. Isso é querer pagar por um presente que Cristo já pagou na cruz. Foi contra isso que a Reforma se levantou: a salvação é só pela graça, só pela fé, só por Cristo.
A objeção toca o centro do Evangelho, e quem a faz quase sempre quer defender a glória de Cristo. Merece uma resposta cuidadosa, que comece pelo que cada lado de fato ensina.
De onde vem a pergunta
De onde vem essa discussão?
O lado evangélico, pelo que ele mesmo diz
A partir da crise das indulgências de 1517 (contada na aula Indulgência é vender a salvação?), Martinho Lutero levou ao debate público a justificação pela fé, que se tornou o centro da Reforma. Na tradução alemã do Novo Testamento, de 1522, verteu Romanos 3,28 assim: o homem é justificado sem as obras da lei, "somente pela fé" (alleyn durch den glawben, na grafia daquela edição).
Mas é caricatura dizer que os reformadores desprezavam as boas obras. No mesmo Novo Testamento de 1522, no prefácio à Carta aos Romanos, Lutero escreveu que a fé é "uma coisa viva, ocupada, ativa e poderosa", e que separar dela as obras é tão impossível quanto separar do fogo o queimar e o iluminar. A Confissão de Augsburgo, de 1530, ensina que essa fé "deve produzir bons frutos", sem que se confie nas obras para merecer a justificação (art. 6). Calvino escreveu que Cristo "não justifica ninguém sem também o santificar" (Institutas III,16,1). A Confissão de Westminster, de 1647, base de muitas igrejas presbiterianas, resume: a fé é o único instrumento da justificação, mas "não está sozinha na pessoa justificada"; não é fé morta, "mas age pelo amor" (cap. 11,2). Em outras palavras: só a fé justifica, mas a fé que justifica nunca fica sozinha.
Onde está a diferença de verdade
O desacordo não é se as obras importam. É o que acontece quando Deus justifica alguém. Para as confissões da Reforma, como a de Westminster, Deus declara justo o pecador, atribuindo-lhe a justiça de Cristo; a mudança por dentro, a santificação, vem sempre junto, mas é outra coisa (Westminster 11,1 e 13,1). Para a Igreja Católica, a justificação já inclui essa mudança: Deus perdoa os pecados e, pelo Espírito Santo, torna o homem justo por dentro (Concílio de Trento, sessão VI, cap. 7). Daí vêm as outras diferenças: se as obras feitas na graça fazem crescer a justiça recebida, e em que sentido têm mérito. A resposta católica oficial veio no Concílio de Trento, no decreto aprovado em 13 de janeiro de 1547.
E é honesto admitir: também entre católicos há quem resuma a fé a "ser boa pessoa para ir para o céu". Isso a Igreja não ensina.
A pergunta certa
Qual é a pergunta que importa?
A pergunta "fé ou obras?" já vem armada, como se uma excluísse a outra. As perguntas honestas são três: quem dá o primeiro passo na salvação, Deus ou o homem? Que fé é essa que salva? E que lugar têm as obras depois que Deus nos acolhe?
Na primeira, católicos e evangélicos estão mais perto do que se imagina; nas outras duas há diferenças reais, e esta aula não esconde nenhuma. A aula seguinte, Tiago contradiz Paulo sobre fé e obras?, olha de perto o caso de Abraão e o grego de Tiago 2.
O que diz a Bíblia
O que dizem Efésios, Romanos e Gálatas?
Efésios 2: graça, fé e obras no mesmo parágrafo
Porque é pela graça que estais salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós: é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se orgulhe. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para as boas obras que Deus preparou de antemão, para que nelas caminhássemos. (Ef 2,8-10)
O versículo 10 costuma ficar de fora, e muda a leitura. As obras não são a causa da salvação ("não vem das obras"), mas o seu destino ("criados [...] para as boas obras"), e até elas foram preparadas por Deus. A Igreja assina embaixo das duas metades.
Romanos 3,28 e o "somente" de Lutero
Pois sustentamos que o ser humano é justificado pela fé, sem as obras da lei. (Rm 3,28)
No grego, a frase é logizómetha gàr dikaioûsthai pístei ánthrōpon chōrìs érgōn nómou. A palavra "somente" (mónon) não está ali. Lutero sabia disso. Em 1530, na Carta aberta sobre a tradução (Sendbrief vom Dolmetschen), respondeu aos críticos que sabia muito bem que a palavra solum não estava no texto latino nem no grego; mas defendeu que o alemão pede o "somente" quando se afirma uma coisa e se nega outra, e que esse era o sentido de Paulo. O historiador protestante Philip Schaff, no século XIX, achou o acréscimo correto como conclusão, mas impróprio como tradução.
Paulo fala de "obras da lei", a Lei de Moisés; os estudiosos discutem se ele pensa na Lei inteira ou sobretudo nas marcas que separavam judeus e pagãos, como a circuncisão. Logo depois, porém, ele alarga a ideia: "a quem trabalha, o salário não é contado como graça, mas como dívida" (Rm 4,4). Ninguém põe Deus em dívida, e a Igreja ensina exatamente isso.
Gálatas 5,6: a fé que age
Pois em Cristo Jesus nem a circuncisão vale alguma coisa, nem a falta dela, mas a fé que age pela caridade. (Gl 5,6)
O particípio grego energouménē quer dizer "que está em ação". Na carta em que mais insiste na fé sem as obras da lei, Paulo descreve a fé que conta: a que se põe em ação pelo amor (agápē).
Romanos 2 e Mateus 25: o juízo olha as obras
Ele retribuirá a cada um segundo as suas obras: a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, buscam glória, honra e incorruptibilidade. (Rm 2,6-7)
Entre os intérpretes evangélicos, uns leem esse trecho como o princípio da Lei, que sem Cristo ninguém cumpre; outros, como a descrição dos frutos de quem já crê. A Igreja o lê como juízo verdadeiro sobre as obras feitas na graça (Trento, sessão VI, cap. 16). Jesus descreve o mesmo juízo:
Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, recebei em herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Pois eu tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão, e viestes até mim. [...] Em verdade vos digo: sempre que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. (Mt 25,34-36.40)
O Reino é recebido "em herança" e estava "preparado" desde antes: ninguém o fabrica. Mas o que se examina são obras de misericórdia bem concretas.
Os versículos estão em tradução nossa, feita a partir do grego. Para ler cada capítulo inteiro numa tradução católica, veja a Bíblia Ave-Maria: Efésios 2, Romanos 2, Romanos 3, Romanos 4, Gálatas 5 e Mateus 25.

O que diziam os primeiros cristãos
O que dizia Agostinho, que os dois lados citam?
Agostinho de Hipona (354 a 430) é o padre da Igreja mais lembrado nesse debate, pelos dois lados. Contra Pelágio, que ensinava, em resumo, que o homem pode fazer o bem e evitar o pecado com as próprias forças, defendeu que tudo começa na graça, e Lutero e Calvino o leram com paixão. Mas o mesmo Agostinho ensina que a fé que salva age pelo amor e que a vida eterna é recompensa.
No livro A graça e o livre-arbítrio (426 ou 427), ele comenta Efésios 2 e diz que Paulo previu dois erros opostos:
Ele viu, é claro, que alguém poderia pensar, por essas palavras, que as boas obras não são necessárias aos que creem e que só a fé lhes basta; e viu também que alguém poderia se orgulhar das boas obras, como se fosse capaz de fazê-las por si mesmo. (A graça e o livre-arbítrio 8,20)
Por isso, explica, Paulo acrescenta que somos criados "para as boas obras": não salvam as obras que alguém pensa tirar só de si; as que Deus preparou, sim. A vida eterna é recompensa e graça ao mesmo tempo. E resume:
Se os teus bons méritos são dons de Deus, Deus não coroa os teus méritos como méritos teus, mas como dons seus. (A graça e o livre-arbítrio 6,15)
A liturgia católica reza algo parecido no primeiro prefácio dos santos (citado no Catecismo, no início da parte sobre o mérito, n. 2006). Um cuidado: Agostinho escreveu contra os pelagianos, não contra Lutero, e usá-lo como arma de um lado contra o outro é forçar o texto. O que ele mostra é que, no século V, a Igreja já ensinava juntas a graça que vem antes de tudo e a fé que não fica sem obras.
As frases de Agostinho foram traduzidas a partir da versão inglesa indicada nas fontes.
O que a Igreja ensina
O que a Igreja ensina, com as palavras dela?
Primeiro, o Concílio de Trento, muitas vezes apresentado como o concílio da "salvação pelas obras". Em resumo, a partir do decreto de 1547:
- O homem não se justifica pelas próprias obras. O cânon 1 condena quem disser que alguém pode ser justificado diante de Deus pelas suas obras, feitas pelas forças da natureza ou pelo ensino da Lei, sem a graça de Deus por Jesus Cristo.
- A fé é a raiz. Somos justificados pela fé porque ela é o começo da salvação, o fundamento e a raiz de toda justificação; e gratuitamente, porque nada do que vem antes, nem a fé nem as obras, merece a graça de ser justificado (cap. 8).
- O "só a fé" que Trento condena. O cânon 9 condena um sentido preciso: que o pecador seja justificado só pela fé de tal modo que nada mais seja preciso para cooperar, nem a preparação da própria vontade. O cânon 11 condena reduzir a justificação à atribuição da justiça de Cristo ou ao perdão, sem a caridade que o Espírito derrama no coração.
- O mérito. As boas obras do justificado são dons de Deus e também méritos dele; feitas na graça, merecem o aumento da graça e a vida eterna, se ele morrer na graça (cânon 32).
Os cânones de Trento são doutrina definida. O Catecismo apresenta a mesma doutrina assim:
A nossa justificação vem da graça de Deus.
[…] ninguém pode merecer a graça primeira, que está na origem da conversão, do perdão e da justificação.
A justificação estabelece a colaboração entre a graça de Deus e a liberdade do homem.
[…] os méritos das obras devem ser atribuídos à graça de Deus, primeiro, e depois ao fiel.
Os santos tiveram sempre uma consciência viva de que os seus méritos eram pura graça.
Por isso, a expressão "sola fide" de Lutero é verdadeira, se não se opõe a fé à caridade, ao amor.
O mérito é o ponto que mais assusta. Mas, diante de Deus, "não há, da parte do homem, mérito no sentido dum direito estrito" (n. 2007): ele existe porque Deus quis associar o homem à obra da sua graça (n. 2008), e o Catecismo cita Agostinho: "Os méritos são dons de Deus" (n. 2009).
Na mesma catequese de 2008, Bento XVI lembrou o Evangelho do juízo final, cujo critério é o amor, e disse que não há contradição entre esse Evangelho e São Paulo. Os trechos são curtos; o texto inteiro está no link de cada um.
O que a história mostra
O que católicos e luteranos assinaram em 1999, e o que ficou em aberto?
Em 31 de outubro de 1999, em Augsburgo, na Alemanha, a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial assinaram a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação. No Angelus daquele dia, João Paulo II a chamou de "um marco miliário na não fácil estrada da recomposição da plena unidade entre os cristãos". Depois aderiram o Conselho Metodista Mundial (2006) e a Comunhão Mundial de Igrejas Reformadas (2017), e a Comunhão Anglicana a acolheu (2017).
O que os dois lados disseram juntos
O coração do texto está no número 15: "Confessamos juntos: somente por graça, na fé na obra salvífica de Cristo, e não por causa de nosso mérito, somos aceitos por Deus e recebemos o Espírito Santo", que renova o coração e chama para as boas obras. O número 19 diz: "Justificação acontece somente por graça." E o número 25, sobre a fé: "Essa fé atua pelo amor; por isso o cristão não pode e não deve ficar sem obras."
Um anexo de 1999, assinado pelos dois lados, chega a dizer "somente por fé", mas no mesmo parágrafo lembra que Deus opera em nós o querer e o fazer e que somos chamados a nos empenhar (Fl 2,12-13); e, logo depois, que no juízo as pessoas justificadas "serão julgadas também de acordo com suas obras" (Anexo, 2C e 2E). É o sentido que Bento XVI explicou: uma fé que não se opõe à caridade. Com base nesse consenso, a Declaração afirma que as condenações do século XVI sobre a justificação não atingem a doutrina de cada lado tal como exposta no texto (n. 41).
O que não foi resolvido
A própria Declaração deixa em aberto a Igreja, a autoridade, o ministério e os sacramentos (n. 43). E a Santa Sé, na resposta oficial de 1998, apontou diferenças no próprio tema da justificação:
- "Justo e pecador ao mesmo tempo". Para a Igreja, o batismo tira tudo o que é de fato pecado; a inclinação ao mal que fica (a concupiscência) não é, propriamente, pecado.
- Cooperação. A graça dá ao homem uma capacidade nova de aderir a Deus; ele não recebe a justificação de modo "meramente passivo".
- Obras e vida eterna. A vida eterna é, ao mesmo tempo, graça e recompensa dada por Deus às boas obras.
- A penitência. Pelo sacramento da penitência, quem perdeu a justiça pode ser justificado de novo, tema da aula É possível perder a salvação?.
O anexo esclareceu parte disso, não tudo. E o acordo vale para as comunhões que o assinaram: batistas e pentecostais, por exemplo, não fazem parte dele.
Lado a lado
O que se diz e o que se ensina, lado a lado
| O que se diz | O que de fato se ensina | Onde conferir |
|---|---|---|
| A Igreja Católica ensina salvação pelas obras. | Trento condena quem diz que o homem se justifica pelas próprias obras, sem a graça de Cristo. | Trento, sessão VI, cânon 1 |
| Para os católicos, as obras compram o céu. | Ninguém pode merecer a graça primeira; os méritos são, antes, dons de Deus. | Catecismo, n. 2009 e 2010 |
| Romanos 3,28 diz "somente pela fé". | A palavra "somente" não está no grego; Lutero a pôs na tradução e a defendeu em 1530. | Rm 3,28; Carta aberta sobre a tradução |
| Os evangélicos acham que basta crer e viver de qualquer jeito. | As confissões evangélicas ensinam que a fé verdadeira produz boas obras. | Augsburgo, art. 6; Westminster 11,2 |
| Católicos e luteranos nunca concordaram em nada sobre isso. | Em 1999 confessaram juntos que somos aceitos por Deus somente por graça, e que a fé atua pelo amor. | Declaração Conjunta, n. 15 e 25 |
Os frutos
O que isso muda na vida de quem crê?
Se tudo começa na graça, ninguém tem do que se orgulhar, e ninguém precisa viver com medo de não ter feito o bastante. As obras deixam de ser moeda e passam a ser a resposta de quem já foi amado. Santa Teresa do Menino Jesus, citada pelo Catecismo, queria aparecer diante de Deus "com as mãos vazias" (n. 2011), e foi uma das santas que mais amaram e serviram. Nos Atos, Tabita é lembrada como "cheia de boas obras e das esmolas que fazia" (At 9,36): uma fé que virou cuidado.
Com um irmão evangélico, há muito para começar junto: a graça que vem primeiro (Ef 2,8-9), a vida que ela produz (Ef 2,10) e a frase que católicos e luteranos assinaram em 1999. A conversa honesta é sobre o que vem depois: o que Deus faz em nós quando nos justifica, e o que valem as obras feitas na sua graça.
Atos em tradução nossa a partir do grego; o capítulo inteiro está na Bíblia Ave-Maria.
Para guardar
A Igreja Católica não ensina salvação pelas obras: ninguém merece a graça primeira, que nos justifica. Ensina que essa graça, recebida na fé, nos muda por dentro, e que a fé verdadeira age pela caridade.
Teste
Teste o que você aprendeu
5 perguntas. A resposta aparece assim que você escolhe.
1. O que diz Efésios 2,10, logo depois de "não vem das obras"?
Paulo diz que a salvação não vem das obras (v. 9) e, logo depois, que somos criados em Cristo Jesus para as boas obras que Deus preparou (v. 10). As obras não são a causa da salvação, mas o seu destino.
2. O que o Concílio de Trento condena no cânon 1 do decreto sobre a justificação?
O cânon 1 condena justamente a salvação pelas obras sem a graça. Para Trento, a fé é o começo e a raiz da justificação, e nada do que vem antes dela merece a graça de ser justificado (cap. 8).
3. A palavra "somente" está no grego de Romanos 3,28?
O grego diz que o ser humano é justificado pela fé, sem as obras da lei. Lutero admitiu, em 1530, que a palavra não estava no texto, e defendeu o acréscimo como exigência do alemão e do sentido de Paulo.
4. Segundo Gálatas 5,6, que fé vale em Cristo Jesus?
Paulo escreve que em Cristo nem a circuncisão nem a falta dela valem, mas "a fé que age pela caridade". O Catecismo repete: a fé viva atua pela caridade (n. 1814).
5. O que católicos e luteranos confessaram juntos na Declaração de 1999 (n. 15)?
É a frase central da Declaração Conjunta. O mesmo texto diz que essa fé atua pelo amor e que o cristão não pode ficar sem obras (n. 25), e lista as questões que continuam em aberto (n. 43).
Perguntas frequentes
Lutero inventou a expressão "só pela fé"?
Não exatamente. A Confissão de Augsburgo, de 1530, cita uma frase que atribui a Santo Ambrósio, segundo a qual quem crê em Cristo é salvo sem obras, só pela fé (art. 6). E o historiador protestante Philip Schaff anota que uma Bíblia alemã anterior a Lutero já dizia "só pela fé" (nur durch den Glauben) em Gálatas 2,16; mas ali não houve acréscimo, porque o grego e o latim dizem "senão pela fé" (ean mē dià písteōs, nisi per fidem). O que foi novo foi pôr a palavra em Romanos 3,28, onde ela não está, e dar a ela o sentido defendido pela Reforma.
O que é mérito, para a Igreja Católica?
Não é um direito que o homem tenha diante de Deus por conta própria. O Catecismo diz que o mérito do cristão é "um direito derivante da graça" (n. 2009): Deus quis associar o homem à sua obra, e por isso recompensa o que Ele mesmo tornou possível. A primeira graça, a da conversão, ninguém merece (n. 2010).
A Declaração de 1999 é um dogma novo? Ela revoga Trento?
Não. É um documento de diálogo. A Resposta oficial da Igreja Católica, de 1998, foi preparada de comum acordo pela Congregação para a Doutrina da Fé e pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, e assinada pelo presidente deste. E a própria Declaração diz: "Com isso não se tira nada da seriedade das condenações doutrinais referentes à doutrina da justificação" (n. 42). O que ela afirma é que essas condenações não atingem a doutrina de cada lado tal como exposta no texto.
Então basta ter fé e ser batizado?
O Catecismo ensina que a justificação é concedida pelo batismo, "sacramento da fé" (n. 1992), mas também que a fé pode ser perdida e precisa ser alimentada para perseverar até o fim, agindo pela caridade (n. 162). O batismo é o começo de um caminho, não a linha de chegada. O papel do batismo será tratado na aula "O batismo salva ou é só um símbolo?", ainda em preparo.
Por que Trento usou anátemas?
Nos concílios, o anátema era a condenação de uma doutrina contrária à fé, com a exclusão da comunhão dos fiéis para quem a sustentasse. A palavra aparece no Novo Testamento (Gl 1,8-9). Em 1999, católicos e luteranos disseram que as condenações sobre a justificação não atingem a doutrina de cada lado tal como exposta na Declaração, mas que algumas delas conservam "o significado de advertências salutares" (n. 41 e 42).
Para ir mais fundo
Fontes
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 1987 a 2029 (graça, justificação e mérito)
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 162 (a fé pode ser perdida)
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 1814 (a fé viva atua pela caridade)
- VaticanoBento XVI, audiência geral de 19 de novembro de 2008
- VaticanoBento XVI, audiência geral de 26 de novembro de 2008
- VaticanoJoão Paulo II, Angelus de 31 de outubro de 1999
- Vaticano (Sala de Imprensa)Declaração conjunta da Federação Luterana Mundial e do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos (31 de outubro de 2017): adesões de metodistas, reformados e anglicanos
- Dicastério para a Promoção da Unidade dos CristãosDeclaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, texto em português
- Dicastério para a Promoção da Unidade dos CristãosAnexo à Declaração Oficial Comum (1999), texto em português
- Dicastério para a Promoção da Unidade dos CristãosResposta da Igreja Católica à Declaração Conjunta (1998), em inglês: preparada pela Congregação para a Doutrina da Fé e pelo Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos
- VaticanoNova Vulgata, Carta aos Gálatas (2,16: nisi per fidem)
- Hanover CollegeConcílio de Trento, sessão VI, decreto sobre a justificação (tradução inglesa de Waterworth)
- New AdventAgostinho, A graça e o livre-arbítrio (tradução inglesa)
- WikisourceLutero, Novo Testamento de 1522, prefácio à Carta aos Romanos (texto alemão)
- Taylor Institution, Universidade de OxfordLutero, Carta aberta sobre a tradução (1530), trechos traduzidos para o inglês
- CCELPhilip Schaff, History of the Christian Church, vol. 7, cap. 4 (a tradução de Lutero e o "allein")
- BookOfConcord.orgConfissão de Augsburgo (1530), art. 6 (tradução inglesa)
- CCELCalvino, Institutas III,16 (tradução inglesa)
- Orthodox Presbyterian ChurchConfissão de Westminster, cap. 11, 13 e 16 (texto inglês)
- CCELSchaff, Creeds of Christendom, vol. 3: a Confissão de Westminster, de 1647
- Wikipedia (alemão)Septembertestament: as datas da tradução em Wartburg
- Catholic EncyclopediaAnathema (1907)
- Bible HubEfésios 2 em grego (Nestle 1904)
- Bible HubRomanos 3 em grego (Nestle 1904)
- Bible HubGálatas 5 em grego (Nestle 1904)
- Bible HubMateus 25 em grego (Nestle 1904)

