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Imagem gerada por IA: no alto de um monte, sob um céu de tempestade, um menino está amarrado sobre a lenha de um altar de pedras; ao lado, um ancião com uma faca erguida olha para o alto, onde um anjo aparece num raio de luz; perto, um carneiro preso num arbusto.

Tiago contradiz Paulo sobre fé e obras?

Os dois apóstolos citam o mesmo versículo sobre Abraão. Paulo fala de quem quer pôr Deus em dívida; Tiago, de uma fé que só existe em palavras.

13 min de leitura

Imagem gerada por IA: Quando Abraão vai oferecer Isaac, o anjo do Senhor o chama do céu, e ele vê um carneiro preso pelos chifres numa moita (Gn 22,9-13). Tiago cita o episódio (Tg 2,21), e a Carta aos Hebreus o conta como ato de fé (Hb 11,17). Em estilo de pintura barroca

A resposta curta

Não. Paulo e Tiago citam o mesmo versículo, "Abraão creu em Deus, e isso lhe foi contado como justiça" (Gn 15,6), mas respondem a erros diferentes: Paulo nega que alguém ponha Deus em dívida com as suas obras (Rm 4,4-5); Tiago nega que salve uma fé que fica só nas palavras (Tg 2,14-17). Lutero chamou a carta de "epístola de palha" em 1522, mas a manteve na sua Bíblia, e a Igreja a lê junto com Paulo.

A objeção

O que se costuma dizer

Basta pôr os dois textos lado a lado. Paulo: "sustentamos que o ser humano é justificado pela fé, sem as obras da lei" (Rm 3,28), e Abraão foi justificado pela fé (Rm 4,2-3). Tiago: "o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé" (Tg 2,24), e Abraão foi justificado pelas obras (Tg 2,21). É contradição direta. Ou a Bíblia se contradiz, ou um dos dois está errado. Lutero percebeu isso e chamou a Carta de Tiago de "epístola de palha".

A objeção aparece em três bocas diferentes: na de quem não crê e quer mostrar que a Bíblia se contradiz; na de quem quer pôr Tiago abaixo de Paulo; e, às vezes, na de católicos que usam Tiago como se ele desmentisse Paulo. As três leituras tropeçam no mesmo lugar.

De onde vem a pergunta

De onde vem essa tensão?

A Carta de Tiago é atribuída pela tradição a Tiago, "o irmão do Senhor" (Gl 1,19), uma das "colunas" da Igreja de Jerusalém (Gl 2,9), que toma a palavra no concílio dos apóstolos (At 15,13). A data e o autor são discutidos pelos estudiosos. Ela foi recebida aos poucos: Eusébio de Cesareia, no começo do século IV, anotou que poucos antigos a citavam, mas que era lida publicamente em muitíssimas igrejas (História Eclesiástica II,23,25). A história do cânon está na aula Por que a Bíblia católica tem sete livros a mais?.

A tensão com Paulo ficou famosa no século XVI. Em 1522, no prefácio do seu Novo Testamento alemão, Lutero comparou a carta aos livros que, para ele, mostravam melhor a Cristo e a chamou de "epístola de palha"; no prefácio próprio da carta, disse que ela atribui a justificação às obras, "diretamente contra São Paulo". O que ele disse depois está mais abaixo.

Mas os reformadores não ficaram todos com essa frase. Calvino defendeu Tiago como Escritura: se Tiago é servo de Cristo, escreveu, o que ele diz deve ser entendido de modo que não discorde de Cristo, que fala pela boca de Paulo (Institutas III,17,11). Hoje, as Bíblias evangélicas trazem a Carta de Tiago, e as igrejas evangélicas a leem como Palavra de Deus, harmonizada com Paulo.

A pergunta certa

Qual é a pergunta que importa?

A pergunta não é "quem venceu, Paulo ou Tiago?". É: os dois usam as palavras "fé", "obras" e "justificar" no mesmo sentido, e respondem ao mesmo problema? E outra, mais concreta: por que os dois escolhem justamente Abraão, e citam o mesmo versículo?

A aula anterior, A salvação é pela fé ou pelas obras?, mostrou o quadro geral. Aqui vamos ao texto, frase por frase.

O que diz a Bíblia

O que Paulo diz sobre Abraão em Romanos 4?

Se Abraão foi justificado pelas obras, tem do que se orgulhar, mas não diante de Deus. Pois o que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi contado como justiça. Ora, a quem trabalha, o salário não é contado como graça, mas como dívida; mas a quem não trabalha, e sim crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é contada como justiça. (Rm 4,2-5)

Três observações.

O versículo citado. Paulo cita Gênesis 15,6. No hebraico: "Abrão creu no Senhor, e Ele lho contou como justiça". A cena é de noite: Abrão é velho, não tem filhos, e Deus lhe mostra as estrelas e promete uma descendência sem conta (Gn 15,5). Ele não tem nada a oferecer, só confia.

O problema de Paulo. Aqui ele diz só "obras", sem "da lei", e explica com a imagem do salário: a quem trabalha, paga-se o que é devido (v. 4). O que Paulo exclui é a obra que pretende deixar Deus em dívida. E lembra a ordem dos fatos: a fé de Abrão lhe foi contada como justiça antes da circuncisão (Rm 4,10-11). Pelo relato do Gênesis, a promessa de Gn 15 vem antes do nascimento de Ismael, quando Abrão tinha 86 anos (Gn 16,16), e a circuncisão só aos 99 (Gn 17,24).

O verbo. "Justificar" (dikaióō) vem da linguagem do tribunal: Deus absolve o culpado e o acolhe como justo; Deus "justifica o ímpio". Para a Igreja, essa palavra de Deus faz o que diz: torna o pecador justo de verdade, por dentro (Trento, sessão VI, cap. 7; Catecismo 1992). Ninguém começa a relação com Deus com créditos.

Os versículos estão em tradução nossa, feita a partir do grego e, em Gênesis, do hebraico. Para ler os capítulos inteiros: Romanos 4, Gênesis 15 e Gênesis 22.

O que diz a Bíblia

O que Tiago diz no capítulo 2?

De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Será que essa fé pode salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem sem roupa e sem o alimento de cada dia, e um de vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos, sem lhes dar o que o corpo precisa, de que adianta? Assim também a fé: se não tiver obras, está morta em si mesma. (Tg 2,14-17)

Repare no verbo: "alguém dizer que tem fé" (légē). Tiago fala de uma fé de palavras, que deixa o irmão com fome. E dá o exemplo extremo:

Tu crês que há um só Deus? Fazes bem. Os demônios também creem, e tremem. (Tg 2,19)

A "fé" que Tiago recusa é a mera aceitação de uma verdade, que até os demônios têm. Depois vem Abraão:

Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaac? Vês que a fé cooperava com as obras dele, e que pelas obras a fé chegou à perfeição; e cumpriu-se a Escritura que diz: Abraão creu em Deus, e isso lhe foi contado como justiça; e ele foi chamado amigo de Deus. Vedes que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé. (Tg 2,21-24)

Quatro detalhes do grego:

  • Outro episódio. Tiago olha para Gênesis 22, anos depois, quando Isaac já é um rapaz (Gn 22,5) e Abraão é posto à prova. Deus diz então: "agora sei que temes a Deus" (Gn 22,12).
  • O mesmo versículo. Tiago também cita Gn 15,6 e diz que ele "se cumpriu" no monte. A fé de Gn 15 não é negada: ela aparece em ato.
  • A fé coopera. Os verbos são synḗrgei ("trabalhava junto") e eteleiṓthē ("chegou à perfeição"). Em Tiago, a fé não é substituída pelas obras: ela age com elas e nelas se completa.
  • "Não somente". O grego diz ouk ek písteōs mónon: "não somente pela fé". Mónon é advérbio; Tiago não nega a fé, nega a fé sozinha, sem obras.

E o verbo "justificar" pode ter mais de um matiz. Em Lucas, o povo e os publicanos "justificaram a Deus" (Lc 7,29), isto é, reconheceram que Deus era justo. Muitos intérpretes, como Calvino, leem Tiago nesse sentido: as obras mostram que a pessoa é justa. A Igreja, como se verá, lê também um crescimento real na justiça recebida.

Por fim, a Carta aos Hebreus conta o mesmo episódio de Gn 22 como ato de fé: "pela fé, Abraão, posto à prova, ofereceu Isaac" (Hb 11,17). Para a Carta aos Hebreus, obedecer no monte foi um ato de fé.

Tradução nossa, a partir do grego e, em Gênesis, do hebraico. Os capítulos inteiros: Tiago 2, Lucas 7 e Hebreus 11.

Lado a lado

Abraão em Paulo e em Tiago, lado a lado

PontoPaulo (Romanos 4)Tiago (Tiago 2)
Episódio de AbraãoA promessa das estrelas, quando ele ainda não tinha filho (Gn 15)Isaac oferecido no monte, anos depois (Gn 22)
Versículo citadoGn 15,6: Abraão creu, e isso lhe foi contado como justiçaGn 15,6, que "se cumpriu" no monte
Erro combatidoAchar que se pode pôr Deus em dívida com obrasAchar que basta dizer que tem fé, sem amar nem obedecer
"Obras" quer dizerObra tomada como salário, antes da graçaCaridade e obediência que nascem da fé
"Fé" quer dizerConfiar em Deus, que justifica o ímpioA fé que coopera com as obras, contra a fé só de palavras
O que os dois afirmamA justificação é graça, não salárioA fé que salva não fica sem obras
Imagem gerada por IA: à noite, diante de uma tenda de pastor, um ancião ergue o rosto para um céu cheio de estrelas.
Imagem gerada por IA: Deus mostra as estrelas a Abrão e promete uma descendência sem conta; Abrão crê, e isso lhe é contado como justiça (Gn 15,5-6), o versículo que Paulo e Tiago citam. Em estilo de pintura barroca

O que diziam os primeiros cristãos

Como os primeiros cristãos liam os dois apóstolos?

Clemente de Roma, no fim do século I (a data mais citada é por volta de 96). A carta da Igreja de Roma aos coríntios, que a tradição atribui a Clemente, usa Abraão dos dois jeitos, sem ver conflito. Primeiro pergunta:

Por que foi abençoado o nosso pai Abraão? Não foi porque praticou a justiça e a verdade pela fé? (Primeira Carta de Clemente 31,2)

E logo depois, sobre os cristãos:

E também nós, chamados pela sua vontade em Cristo Jesus, não somos justificados por nós mesmos, nem pela nossa sabedoria, inteligência ou piedade, nem pelas obras que fizemos em santidade de coração, mas pela fé, pela qual Deus todo-poderoso justificou todos desde o princípio. (32,4)

O capítulo seguinte começa: "Que faremos, então, irmãos? Ficaremos preguiçosos para fazer o bem e abandonaremos a caridade?", e responde que não: apressemo-nos a realizar toda obra boa (33,1). Justificação pela fé e zelo pelas obras, na mesma página, poucas décadas depois de Paulo.

Agostinho, em 426 ou 427. No livro A graça e o livre-arbítrio, ele junta os dois apóstolos numa frase:

Pessoas sem entendimento, diante da frase do apóstolo, "concluímos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei", pensaram que ele queria dizer que a fé basta, mesmo a quem vive mal e não tem boas obras. (A graça e o livre-arbítrio 7,18)

E responde com o próprio Paulo, que fala da "fé que age pela caridade" (Gl 5,6), e com Tiago: é essa fé que separa os fiéis dos demônios, que também creem e tremem (Tg 2,19).

As frases de Clemente estão em tradução nossa a partir do grego; a de Agostinho, a partir da versão inglesa indicada nas fontes.

O que a Igreja ensina

Como a Igreja lê Paulo e Tiago juntos?

O Concílio de Trento, no decreto sobre a justificação (1547), cita os dois apóstolos no mesmo parágrafo: a fé, se não lhe forem acrescentadas a esperança e a caridade, não une plenamente a Cristo, e por isso "a fé sem obras é morta" (Tg 2,17.20) e, em Cristo, vale "a fé que age pela caridade" (Gl 5,6) (cap. 7). E usa Tiago 2,24 para falar do crescimento de quem já foi justificado: a fé, cooperando com as boas obras, faz crescer a justiça recebida (cap. 10). O primeiro passo, para Trento, continua sendo pura graça (cap. 8). O Catecismo diz o mesmo com Tiago:

Mas, «sem obras, a fé está morta» (Tg 2, 26): privada da esperança e do amor, a fé não une plenamente o fiel a Cristo, nem faz dele um membro vivo do seu corpo.

Catecismo da Igreja Católica, n. 1815

Pela fé, finalmente, Abraão ofereceu em sacrifício o seu filho único

Catecismo da Igreja Católica, n. 145

Com frequência viu-se uma infundada oposição entre a teologia de São Paulo e a de São Tiago […]

Bento XVI, audiência geral de 26 de novembro de 2008, catequese 14 sobre São Paulo

Portanto quer para Paulo quer para Tiago a fé activa no amor confirma o dom gratuito da justificação em Cristo.

Bento XVI, audiência geral de 26 de novembro de 2008, catequese 14 sobre São Paulo

O Catecismo apresenta Abraão como o modelo da "obediência da fé" (n. 143 e 144): a fé que confia na promessa (Gn 15) é a mesma que obedece no monte (Gn 22). Por isso, no número 145, segue a Carta aos Hebreus e chama de fé o gesto do monte, e no número 146 cita Romanos 4,3. Bento XVI explica a diferença de foco: Paulo quer mostrar que a fé em Cristo é "necessária e suficiente", e Tiago realça as consequências da fé nas obras. E quando o Catecismo descreve as obras de misericórdia, cita justamente Tiago 2,15-16 (n. 2447).

Vale distinguir os níveis: que a justificação é graça e que a fé viva age pela caridade é doutrina definida em Trento; a maneira exata de harmonizar as frases de Paulo e Tiago é tarefa dos intérpretes, e a Igreja não definiu uma explicação técnica única. Os trechos são curtos; o texto inteiro está no link de cada um.

O que a história mostra

O que Lutero disse em 1522, e o que mudou depois?

O prefácio de 1522

O Novo Testamento alemão de Lutero saiu em setembro de 1522. No prefácio geral, ele diz quais são, para ele, os melhores livros: o Evangelho de João e a sua primeira carta, as cartas de Paulo, sobretudo Romanos, Gálatas e Efésios, e a primeira de Pedro. E conclui:

Por isso a epístola de São Tiago é, comparada com eles, uma verdadeira epístola de palha, pois não tem nada da natureza do Evangelho.

No índice, Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse aparecem no fim, separados e sem número.

O prefácio da própria carta

No prefácio a Tiago e Judas, Lutero é mais matizado do que a frase famosa sugere:

A epístola de São Tiago, embora rejeitada pelos antigos, eu a louvo e a tenho por boa, porque não estabelece nenhuma doutrina humana e insiste com força na lei de Deus.

Mas diz que não a considera escrito de um apóstolo, e a primeira razão é Abraão: Tiago atribuiria a justificação às obras, "diretamente contra São Paulo e toda a Escritura". E termina dizendo que não quer impedir ninguém de pôr a carta onde quiser e de estimá-la, "pois há nela muitas boas sentenças".

O que mudou depois

Lutero nunca tirou Tiago da sua Bíblia. Em edições posteriores, a frase sobre a palha, que estava no prefácio geral, foi retirada ou modificada, segundo o historiador protestante Philip Schaff. Em 1530, o prefácio a Tiago perdeu as frases mais duras (que a carta "despedaça a Escritura") e, em vez de "não quero tê-lo na minha Bíblia entre os livros principais", passou a dizer apenas que não podia contá-lo entre eles (notas da edição americana das obras de Lutero, vol. 35). A reserva continuou; o tom baixou.

As igrejas luteranas leem Tiago como Escritura: em 1999, no anexo ao acordo sobre a justificação, católicos e luteranos citaram juntos Tiago 3,2, "Todos tropeçamos em muitas coisas".

As frases de Lutero estão em tradução nossa a partir do alemão de 1522; as mudanças de 1530, a partir das notas em inglês indicadas nas fontes.

Os frutos

O que os dois apóstolos combinaram?

Paulo conta, na Carta aos Gálatas, um encontro em Jerusalém:

Tiago, Cefas e João, que eram tidos como colunas, deram a mim e a Barnabé a mão direita em sinal de comunhão [...]. Só pediram que nos lembrássemos dos pobres, e foi isso mesmo que procurei fazer com empenho. (Gl 2,9-10)

Tiago e os outros pediram que não esquecessem os pobres, e Paulo diz que se empenhou nisso. O Tiago que a tradição tem por autor da carta contra a fé que deixa o irmão com fome deu a mão ao apóstolo que mais pregou a graça. Os dois cabem na mesma Igreja porque cabem no mesmo Evangelho.

Para quem crê, a lição é dupla. Contra o orgulho, Paulo: ninguém põe Deus em dívida. Contra a acomodação, Tiago: a fé que não se mexe diante de quem tem fome está morta. Com um irmão evangélico, a conversa pode começar aqui, lendo juntos Romanos 4 e Tiago 2 e perguntando o que cada um combate.

Tradução nossa a partir do grego; o capítulo inteiro está na Bíblia Ave-Maria.

Para guardar

Paulo e Tiago citam o mesmo versículo sobre Abraão. Paulo diz que ninguém põe Deus em dívida com obras; Tiago, que uma fé só de palavras está morta. A fé que salva é a que confia e age.

Teste

Teste o que você aprendeu

5 perguntas. A resposta aparece assim que você escolhe.

  1. 1. Que versículo do Gênesis Paulo e Tiago citam ao falar de Abraão?

  2. 2. Que tipo de "fé" Tiago diz que não salva?

  3. 3. Em Tiago 2,24, o que significa "não somente pela fé" (ouk ek písteōs mónon)?

  4. 4. Como Lutero chamou a Carta de Tiago no prefácio de 1522?

  5. 5. O que a Carta aos Hebreus diz sobre o sacrifício de Isaac?

Perguntas frequentes

Quem escreveu a Carta de Tiago?

A tradição a atribui a Tiago, "o irmão do Senhor" (Gl 1,19), uma das colunas da Igreja de Jerusalém. A data e a autoria são discutidas pelos estudiosos. Eusébio, no começo do século IV, registrou que poucos antigos a citavam, mas que era lida em muitíssimas igrejas.

Lutero confundiu os dois Tiagos?

Parece que sim. No prefácio de 1522, para sugerir que a carta seria tardia, ele lembra que Tiago foi morto por Herodes em Jerusalém antes de Pedro. As notas da edição americana das obras de Lutero (vol. 35) observam que esse é o apóstolo Tiago, irmão de João (At 12,2), e não Tiago, o irmão do Senhor, a quem a tradição atribui a carta, que depois disso ainda aparece falando no concílio de Jerusalém (At 15,13).

Tiago escreveu para corrigir Paulo?

Não há como saber com certeza. O que o Novo Testamento mostra é que já havia quem entendesse mal as cartas de Paulo: a Segunda Carta de Pedro diz que nelas há "coisas difíceis de entender", que pessoas sem instrução e inconstantes torcem (2Pd 3,16). Tiago combate uma fé sem obras; Paulo, no mesmo espírito, pergunta se devemos continuar pecando para que a graça abunde, e responde: de modo nenhum (Rm 6,1-2).

Quem é Raabe, que Tiago também cita?

É a mulher de Jericó que escondeu os espiões de Israel (Js 2). Tiago diz que ela foi justificada pelas obras ao acolhê-los (Tg 2,25); a Carta aos Hebreus diz que foi "pela fé" que ela não morreu com os desobedientes (Hb 11,31). Mais uma vez, o mesmo gesto é chamado de fé e de obra.

Os evangélicos de hoje rejeitam a Carta de Tiago?

Não. As igrejas evangélicas a recebem como Escritura. Calvino a defendia e explicava que, em Tiago, as obras mostram a justiça de quem crê (Institutas III,17,12). A diferença com os católicos não está em aceitar Tiago, mas em como ler o "justificar" de Tiago 2,24.

Para ir mais fundo

Fontes

  1. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 145 e 146 (a fé de Abraão)
  2. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 1815 (a fé sem obras)
  3. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 2447 (obras de misericórdia e Tg 2,15-16)
  4. VaticanoBento XVI, audiência geral de 26 de novembro de 2008
  5. Hanover CollegeConcílio de Trento, sessão VI, cap. 7, 8 e 10 (tradução inglesa de Waterworth)
  6. Dicastério para a Promoção da Unidade dos CristãosAnexo à Declaração Oficial Comum (1999), em português: citação de Tg 3,2
  7. WikisourceLutero, Novo Testamento de 1522: prefácio geral e índice (texto alemão)
  8. WikisourceLutero, prefácio a Tiago e Judas, 1522 (texto alemão)
  9. Bible ResearchPrefácios de Lutero a Tiago, Judas e Apocalipse, com as mudanças de 1530 e a nota sobre os dois Tiagos (notas de Luther's Works, vol. 35)
  10. CCELPhilip Schaff, History of the Christian Church, vol. 7, cap. 4 (a frase da palha retirada ou modificada)
  11. CCELCalvino, Institutas III,17,11-12 (tradução inglesa)
  12. New AdventEusébio, História Eclesiástica II,23 (tradução inglesa)
  13. Catholic EncyclopediaPope St. Clement I: a data da carta aos coríntios
  14. Bible HubRomanos 6 e Atos 12 em grego (Nestle 1904)
  15. New AdventPrimeira Carta de Clemente, 31 a 33 (tradução inglesa)
  16. BKV, Universidade de FriburgoPrimeira Carta de Clemente, texto grego (edição Loeb) ao lado da tradução; em 32,4 o grego dessa página omite um trecho por falha de edição, e a nossa tradução segue o texto completo, como a versão inglesa da mesma página
  17. New AdventAgostinho, A graça e o livre-arbítrio, 7,18 (tradução inglesa)
  18. Bible HubTiago 2 em grego (Nestle 1904)
  19. Bible HubRomanos 4 em grego (Nestle 1904)
  20. Bible HubGênesis 15,6 em hebraico, com análise
  21. Bible HubGênesis 22 em hebraico (Códice de Leningrado)
  22. Bible HubLucas 7 e Hebreus 11 em grego (Nestle 1904)
  23. Bible HubGálatas 2 em grego (Nestle 1904)
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