Pular para o conteúdo
Doutrina Social

Propaganda falsa nos dois lados: o que diz o oitavo mandamento

Criticar o adversário é livre. Inventar o que ele propõe, ou ligá-lo ao crime sem prova, é falso testemunho, venha de onde vier.

O OlharContrao ensino da Igreja · 3 pontos avaliados0Nota do Olhar
F5 min de leitura
Pintura de Botticelli: num salão de arcos, mulheres arrastam pelos cabelos um jovem quase nu até um rei com orelhas de burro, que ouve conselheiros ao pé do ouvido; à esquerda, a Verdade, nua, aponta para o céu.
A Calúnia de Apeles, de Sandro Botticelli (por volta de 1495), Galeria Uffizi, Florença. Foto: Galeria Uffizi, via Wikimedia Commons, Domínio público

A notícia

Agência Brasil09/10/2026

TSE determina que Lula e Janja removam vídeos contra Flávio

Em 8 de outubro de 2026, o TSE mandou apagar propaganda das duas campanhas do segundo turno. Em decisões provisórias, ministros mandaram tirar do ar vídeos da campanha de Lula, da primeira-dama Janja e de deputados aliados que apresentavam como certas propostas que Flávio Bolsonaro não fez ou ligavam a eleição dele ao crime organizado e a milícias; o plenário, por unanimidade, mandou Flávio apagar dois posts que ligavam Lula ao PCC e ao Comando Vermelho sem base mínima nos fatos, e um terceiro em que a inteligência artificial simulava Lula numa situação inexistente, sem o aviso exigido.

atribuir ao adversário propostas específicas que não encontram respaldo nos elementos objetivos disponíveis

Ministro André Mendonça, do TSE, citado pela Agência Brasil
Ler na íntegra em Agência Brasil

A avaliação

Contra o ensino da IgrejaA marca vai no ato, não na pessoa.0
  1. ContraCondutaDuas propagandas da campanha de Lula, um vídeo da primeira-dama Janja e posts dos deputados André Janones e Lindbergh Farias apresentaram como certas propostas que Flávio Bolsonaro não fez, como cortes em programas sociais e jornada de sete dias, e associaram a eleição dele ao crime organizado e a milícias, segundo decisões provisórias de ministros do TSE de 8 de outubro de 2026, que ainda vão ao plenário.
  2. ContraCondutaDois posts de Flávio Bolsonaro, de maio de 2026, ligaram Lula ao PCC e ao Comando Vermelho sem base mínima nos fatos, segundo o plenário do TSE, que mandou apagá-los por unanimidade em 8 de outubro de 2026.
  3. PrudencialCondutaUm post de Flávio Bolsonaro, de maio de 2026, usou inteligência artificial para simular Lula "em uma situação inexistente", sem o aviso que a lei eleitoral exige; o plenário do TSE mandou apagar pela falta do aviso, e o relator registrou que, embora tivesse aparência caricatural e fantasiosa, o conteúdo não estava identificado como feito por IA. Se ele enganava ou era caricatura malévola (Catecismo 2481) só se julga vendo-o.

A nota do Olhar vai de 0 a 100: fiel vale 100 e contra vale 0, pesando mais o que é inegociável. Prudencial fica fora da conta. Como a nota é feita

O que a Igreja ensina

O respeito pela reputação das pessoas proíbe toda e qualquer atitude ou palavra susceptíveis de lhes causar um dano injusto. Torna-se culpado: (...) de calúnia, aquele que, por afirmações contrárias à verdade, prejudica a reputação dos outros e dá ocasião a falsos juízos a seu respeito.

Catecismo da Igreja Católica, 2477

A maledicência e a calúnia destroem a reputação e a honra do próximo. Ora, a honra é o testemunho social prestado à dignidade humana e todos gozam do direito natural à honra do seu nome, à boa reputação e ao respeito.

Catecismo da Igreja Católica, 2479

A mentira é a ofensa mais directa à verdade. Mentir é falar ou agir contrariamente à verdade, para induzir em erro.

Catecismo da Igreja Católica, 2483

A jactância ou vanglória constitui um pecado contra a verdade. O mesmo se diga da ironia que visa depreciar alguém, caricaturando, de modo malévolo, um ou outro aspecto do seu comportamento.

Catecismo da Igreja Católica, 2481

Qualquer falta cometida contra a justiça e contra a verdade implica o dever da reparação, mesmo que o seu autor tenha sido perdoado.

Catecismo da Igreja Católica, 2487

A Informação está entre os principais instrumentos de participação democrática.

Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 414

Reflexão

Crítica é livre, invenção não

Em 8 de outubro de 2026, o TSE mandou apagar propaganda das duas campanhas. A pedido de Flávio Bolsonaro, ministros mandaram tirar do ar duas propagandas da campanha de Lula, um vídeo da primeira-dama Janja e cinco posts dos deputados André Janones (Avante) e Lindbergh Farias (PT). O vídeo de Lula partia do corte de R$ 200 bilhões no Orçamento que Flávio de fato anunciou, mas dizia como certo que ele cortaria o Pé-de-Meia, o Farmácia Popular e a merenda; outros conteúdos diziam que ele imporia jornada de sete dias ou subiria a idade da aposentadoria para 70 anos. O vídeo de Janja dizia ainda que ele deixaria o crime organizado dominar o país, e outra propaganda da campanha ligava a vitória dele a mais violência e a milícias. Para os ministros, as afirmações sobre cortes em programas específicos não têm "lastro mínimo" no programa de Flávio nem nas falas dele. A pedido da federação do PT, o plenário mandou Flávio apagar dois posts de maio que ligavam Lula ao PCC e ao Comando Vermelho sem "substrato fático mínimo".

O tribunal usou a mesma linha nos dois casos, e ela coincide com a da Igreja. Temer o que o adversário fará, e dizer isso, é crítica: o slogan "Se o Flávio vence, você perde" continua permitido. O que não pode é apresentar como fato uma proposta que o outro não fez, ou ligá-lo ao crime organizado sem prova. O Catecismo chama isso de calúnia: prejudicar a reputação de alguém "por afirmações contrárias à verdade" (2477).

A mesma régua, com pesos diferentes

As decisões não têm o mesmo peso jurídico, e isso precisa ser dito. As que atingem os vídeos da campanha de Lula, de Janja e dos deputados são provisórias, cada uma de um só ministro, e ainda vão ao plenário. A que atinge os posts de Flávio já é do plenário, por unanimidade. E a conta precisa ser feita do mesmo jeito: das próprias campanhas, são duas propagandas da de Lula e três posts de Flávio; os vídeos de Janja e dos deputados são de aliados, que respondem pelo que publicam.

Antes disso, cada lado já tinha casos parecidos. Em agosto, o plenário mandou a campanha de Flávio tirar do ar um vídeo que também ligava Lula ao PCC e ao CV. Do lado de Lula, decisões provisórias suspenderam a inserção de TV "Currículo de Flávio Bolsonaro", em agosto, por "grave descontextualização", e o jingle "Foi o Flávio Bolsonaro", em setembro.

Mas o mandamento não muda de lado. "A maledicência e a calúnia destroem a reputação e a honra do próximo" (Catecismo 2479), e o próximo, numa campanha, é justamente o adversário.

O que só se julga vendo

Um terceiro post de Flávio saiu do ar por outro motivo. Segundo o TSE, ele usou inteligência artificial "para simular a imagem de Lula em uma situação inexistente", sem o aviso que a lei eleitoral exige. O relator anotou que, "embora a primeira publicação apresentasse aparência caricatural e fantasiosa, o conteúdo não estava identificado como produzido com inteligência artificial". A decisão, unânime, se apoiou na falta do aviso, e o aviso existe para o eleitor saber que aquilo foi fabricado.

O Catecismo lembra que mentir é "falar ou agir contrariamente à verdade, para induzir em erro" (2483), e trata como pecado contra a verdade "a ironia que visa depreciar alguém, caricaturando, de modo malévolo" (2481). Se esse vídeo induzia em erro ou era sátira evidente, e se passou do ponto, só se julga vendo-o, e este Olhar não conseguiu vê-lo: o post saiu do ar, e as notícias não descrevem a cena. Por isso o ponto fica como prudencial, sem peso na nota, até que se veja o conteúdo; a mesma regra vale para um caso igual do outro lado.

A mentira que me favorece

O mais difícil do oitavo mandamento não é reconhecer a mentira do outro lado. É desconfiar, com o mesmo rigor, do que agrada ao meu candidato. Antes de repassar, vale perguntar se a proposta está no programa de governo ou numa fala inteira, com data. E quem repassou algo falso tem uma tarefa: "Qualquer falta cometida contra a justiça e contra a verdade implica o dever da reparação" (Catecismo 2487). Corrigir no mesmo lugar onde se postou é o começo.

Uma eleição se decide no voto, mas começa antes, na conversa. O Compêndio da Doutrina Social lembra que a informação "está entre os principais instrumentos de participação democrática" (414). Quem mente sobre o adversário não atinge só a ele: tira do eleitor a chance de escolher sabendo.

Veja outros Olhares sobre a vida em sociedade.

Assinado por Filipe Lourenço.

Perguntas e respostas

Por que o TSE mandou apagar vídeos de Lula e de Janja contra Flávio Bolsonaro?

Em decisões provisórias de 8 de outubro de 2026, os ministros André Mendonça e Nunes Marques entenderam que os vídeos apresentavam como certas propostas que Flávio não fez, como cortes no Pé-de-Meia e no Farmácia Popular e jornada de sete dias, sem "lastro mínimo" no programa nem nas falas dele; uma propaganda de Lula também ligava a vitória de Flávio a milícias. As decisões ainda vão ao plenário, e o slogan "Se o Flávio vence, você perde" continua permitido.

Enviar esta pergunta

Por que o TSE mandou Flávio Bolsonaro apagar posts sobre Lula?

Em 8 de outubro de 2026, o plenário do TSE, por unanimidade, mandou apagar dois posts de maio que ligavam Lula ao PCC e ao Comando Vermelho sem "substrato fático mínimo", e um terceiro em que a inteligência artificial foi usada "para simular a imagem de Lula em uma situação inexistente", sem o aviso que a lei eleitoral exige (Resolução TSE 23.610, art. 9-B).

Enviar esta pergunta

Usar inteligência artificial sem aviso para mostrar um candidato é mentir?

Depende do que o conteúdo mostra. Para o Catecismo, mentir é "falar ou agir contrariamente à verdade, para induzir em erro" (2483), e é pecado contra a verdade caricaturar alguém "de modo malévolo" para depreciá-lo (2481). Uma sátira evidente não engana; uma cena falsa que parece real engana. O aviso exigido pela lei eleitoral serve para o eleitor saber o que foi fabricado. No caso de Flávio, o TSE disse que a inteligência artificial simulou Lula "em uma situação inexistente", e o relator registrou que o conteúdo, embora caricatural e fantasioso, não tinha o aviso; sem ver o conteúdo, não dá para dizer se ele enganava.

Enviar esta pergunta

Repassar uma notícia falsa sem saber que era falsa é pecado?

Mentir, para o Catecismo, é dizer o que é falso com a intenção de enganar (2482), então quem repassa sem saber não mente. Mas cabe a prudência de conferir antes e, ao descobrir o erro, corrigir no mesmo lugar, por justiça com quem foi atingido.

Enviar esta pergunta

Fontes

  1. Agência BrasilTSE determina que Lula e Janja removam vídeos contra Flávio
  2. SBT NewsTSE manda remover posts de Lula, Janja e aliados
  3. TSETSE manda retirar do ar vídeos com uso de IA publicados por Flávio Bolsonaro
  4. SBT NewsTSE manda Flávio apagar vídeos que associava Lula a facções
  5. Diario de Pernambuco (Estadão Conteúdo)TSE manda campanha de Flávio Bolsonaro retirar vídeo que associa Lula ao PCC e ao Comando Vermelho
  6. SBT NewsTSE manda retirar do ar propaganda do PT contra Flávio
  7. Diário do Grande ABCNunes Marques suspende propaganda de Lula que associa Flávio Bolsonaro a rachadinha e Master

olh-0005

Do mesmo tema

Mais sobre a vida em sociedade

Grupo no WhatsApp