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Imagem gerada por IA: numa sala de pedra abobadada, um frade de hábito branco e capa preta ensina de pé, junto a uma estante de madeira, a jovens frades sentados em bancos, alguns com tabuinhas de cera no colo.

Há provas de que Deus existe?

A Igreja não promete uma conta de matemática, e sim caminhos da razão que levam a uma certeza verdadeira. Vale conhecê-los, junto com as objeções que merecem resposta.

13 min de leitura

Imagem gerada por IA: Tomás de Aquino ensina em Paris, onde voltou a ser mestre de teologia a partir de 1268, em estilo de pintura barroca

A resposta curta

Depende do que se chama de prova. Não existe prova de laboratório, porque Deus não é uma coisa dentro do universo. Mas a Igreja ensina que a razão pode chegar a Deus com certeza a partir do mundo criado (Concílio Vaticano I, 1870), por caminhos que o Catecismo chama de "argumentos convergentes e convincentes" (n. 31), como as cinco vias de Tomás de Aquino.

A objeção

O que se costuma dizer

Não existe nenhuma evidência de Deus. Antes, o que não se entendia era explicado com Deus: o raio, a doença, a origem do mundo. Hoje a ciência explica o universo, a vida e até a mente; Deus virou hipótese desnecessária. As "provas" de Tomás de Aquino são jogos de palavras medievais, e fé é acreditar sem evidência.

Quem diz isso nem sempre está zombando: muitas vezes pensou no assunto e não achou respostas. A objeção merece ser levada a sério.

De onde vem a pergunta

De onde vem essa discussão?

O raciocínio que vai do mundo a uma causa primeira vem de Platão e de Aristóteles, passou por filósofos muçulmanos, como Ibn Sina (c. 980 a 1037), e chegou a Tomás de Aquino no século XIII. No século XVIII, sofreu ataques sérios de David Hume, que questionou a própria ideia de causa em que ele se apoia, e de Immanuel Kant. No século XX, veio o cientificismo: só seria conhecimento o que a ciência mede (Fides et ratio, 88).

O Concílio Vaticano II lembra que alguns rejeitam uma imagem de Deus que nem é a do Evangelho, e admite que os crentes, com uma fé mal explicada ou mal vivida, muitas vezes "antes esconderam do que revelaram o autêntico rosto de Deus" (Gaudium et spes, 19).

A pergunta certa

Qual é a pergunta que importa?

Se prova quer dizer experimento de laboratório, a resposta é não, e nem poderia ser. A ciência estuda coisas dentro do universo; o Deus dos cristãos não é uma coisa a mais ao lado das galáxias, mas a razão de existir alguma coisa. Procurá-lo com um telescópio é como procurar o autor de um livro entre os personagens.

Mas há outro sentido de prova: partir do que se vê e raciocinar até a causa que o explica. A pergunta honesta é: olhando o mundo, a razão consegue chegar com segurança a uma causa primeira de tudo? E o que isso diz, e o que não diz, sobre Deus?

O que diz a Bíblia

O que a Bíblia diz sobre conhecer Deus pela razão?

A Bíblia não traz um tratado de filosofia, mas afirma que o mundo fala de Deus a quem o observa:

Porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles, pois Deus o manifestou a eles. De fato, desde a criação do mundo, as suas perfeições invisíveis, o seu poder eterno e a sua divindade, são percebidas pela inteligência por meio das obras que ele fez, de modo que eles não têm desculpa. (Rm 1,19-20)

O invisível em Deus é "percebido pela inteligência" (nooúmena) a partir das obras: é raciocínio, não experimento. Mas o contexto conta: Paulo fala diretamente dos povos pagãos, que conheciam algo de Deus e se voltaram para os ídolos (Rm 1,21-23). A Igreja tira daí um princípio que vale para todos, a capacidade da razão de conhecer Deus (Dei Filius, cap. 2), e não um julgamento sobre a consciência de cada pessoa que hoje não crê (Gaudium et spes, 19).

Antes de Paulo, o livro da Sabedoria, escrito em grego por um autor judeu, falava dos que tomaram por deuses o fogo, o vento e as estrelas:

Vãos por natureza eram todos os homens que ignoravam a Deus e que, pelos bens que se veem, não foram capazes de conhecer Aquele que é. [...] Pois pela grandeza da beleza das criaturas, por analogia, se contempla o seu Criador. Mas a culpa deles é pequena, porque talvez se extraviem buscando a Deus e querendo encontrá-lo. (Sb 13,1.5-6)

"Aquele que é" (tòn ónta) lembra o nome revelado a Moisés (Ex 3,14); "por analogia" (analógos) quer dizer da obra para o autor, muito maior que ela. (Muitas traduções, como a do Catecismo, n. 41, dizem "grandeza e beleza".) E o autor não despreza quem errou: diz que talvez se extraviem buscando a Deus, embora logo acrescente que nem eles têm desculpa, porque, se foram capazes de estudar o mundo, deviam ter encontrado o seu Senhor (Sb 13,8-9).

Versículos em tradução nossa, a partir do grego (a Sabedoria, na Septuaginta). Capítulos inteiros na Bíblia Ave-Maria: Romanos 1, Sabedoria 13 e Atos 17.

Imagem gerada por IA: no alto de uma colina rochosa de Atenas, com a Acrópole ao fundo, um homem de barba fala de braço erguido a um grupo de gregos de manto, alguns atentos, outros desconfiados.
Imagem gerada por IA: Paulo fala aos atenienses no Areópago (At 17,22-31), em estilo de pintura barroca: Deus não está longe de cada um de nós

O que diziam os primeiros cristãos

O que escreveram os primeiros cristãos e os grandes teólogos?

Teófilo de Antioquia, c. 180 (o livro III é de logo depois de 180). O bispo de Antioquia escreveu a um amigo pagão, Autólico. Ao desafio "mostra-me o teu Deus" (I,2), responde:

Assim como a alma, no homem, não se vê [...], mas se percebe pelo movimento do corpo, assim Deus não pode ser visto por olhos humanos, mas é contemplado e percebido pela sua providência e pelas suas obras. (A Autólico I,5)

E compara o mundo a um navio que chega ao porto: quem o vê sabe que há um piloto.

Agostinho de Hipona (354 a 430). Num sermão (241,2) citado pelo Catecismo (n. 32), manda interrogar a criação: "Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar [...]". Coisas belas que mudam pedem alguém belo que não muda.

Tomás de Aquino, c. 1267 a 1273. No começo da Suma Teológica, escreve: "Que Deus existe pode ser provado por cinco vias" (I, q. 2, a. 3). Antes, apresenta duas objeções que ainda hoje se ouvem muito: se Deus existisse, não haveria mal no mundo; e tudo se explica pela natureza e pela vontade humana, sem Deus.

Tomás em tradução nossa do latim; Teófilo, a partir de uma versão inglesa; Agostinho, na tradução oficial do Catecismo.

Quais são as cinco vias, em palavras simples?

Cada via parte de algo que qualquer pessoa vê e termina do mesmo jeito: isso é o que todos chamam Deus (Tomás varia a fórmula: "todos entendem", "todos chamam", "chamamos").

  1. A mudança. O que muda recebe a mudança de outro. Tomás dá o exemplo do bastão, que só move porque é movido pela mão. Uma série em que cada elo só passa adiante o que recebe precisa de um primeiro que não recebe de ninguém.
  2. A causa. Nada é causa de si mesmo. Numa série de causas que dependem umas das outras, tirada a primeira, cai todo o resto.
  3. A contingência. As coisas que vemos nascem e acabam: podem existir ou não. Precisa haver algo que exista por si, sem receber a existência de outro.
  4. Os graus. Dizemos que uma coisa é melhor ou mais verdadeira que outra. Esses graus supõem um máximo, causa do ser e do bem em tudo.
  5. A ordem. Coisas sem inteligência agem de modo regular, "sempre ou na maioria das vezes" do mesmo jeito, como quem tende a um fim. Isso supõe alguém que as dirige, "como a flecha pelo arqueiro".

As vias não dependem de o universo ter começado. Tomás achava que a razão sozinha não prova que o mundo teve começo no tempo; isso se sabe pela fé (Suma I, q. 46, a. 2). As vias falam de dependência agora. Chegar a uma causa primeira ainda não é conhecer o Deus da Bíblia. Tomás examina depois o que essa causa precisa ser (q. 3 a 11); que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, só se sabe pela revelação.

Expressões entre aspas: tradução nossa do latim.

Quais são as objeções honestas?

"Então quem criou Deus?"

As vias não dizem que tudo tem causa, e sim o que muda e o que recebe a existência. A conclusão é justamente algo que não a recebe de ninguém.

"Por que a série não pode ser infinita?"

Tomás distingue. Uma série em que cada causa só age porque está sendo movida agora pela anterior (a pedra pelo bastão, o bastão pela mão) não pode ser infinita. Já uma série no tempo, como pais que geram filhos, poderia ser infinita sem contradição (Suma I, q. 46, a. 2, ad 7). Não é preciso um primeiro dia, e sim uma fonte agora.

"A terceira via dá um salto"

Tomás diz que, se tudo pudesse não existir, em algum momento nada teria existido. Críticos como Anthony Kenny e William Rowe veem aí um salto: cada coisa poder deixar de existir não quer dizer que todas deixem de existir juntas. Defensores de Tomás, como John Haldane, respondem que ele não pensa numa sucessão no tempo, mas na dependência atual das coisas. Seja como for, muitos preferem a forma de Leibniz, no começo do século XVIII: juntar coisas que não explicam a própria existência, mesmo infinitas, não produz explicação. Ou o conjunto das coisas fica sem explicação, ou existe algo que tem em si a razão de existir.

"A evolução derrubou a quinta via"

A quinta via costuma ser confundida com o argumento do relógio, de William Paley (1802), que Darwin enfraqueceu. Mas Tomás fala da regularidade da natureza, da qual a própria evolução depende: por que existe uma ordem para a ciência descrever?

"O universo simplesmente existe, e pronto"

Foi a resposta de Bertrand Russell num debate de 1948 na rádio BBC com o jesuíta Frederick Copleston: o universo está "simplesmente aí, e é tudo". Aqui o argumento não força quem se recusa a fazer a pergunta; mas, para quem aceita que o que existe pede explicação, a conclusão é firme. E a Igreja ensina que esses caminhos, somados, permitem chegar a verdadeiras certezas (Catecismo, n. 31).

E o argumento moral?

O Catecismo inclui entre os caminhos para Deus "o seu sentido do bem moral" e "a voz da sua consciência" (n. 33). Torturar uma criança por diversão é errado de verdade, e não só desagradável. Se isso obriga até quem discorda, pede um fundamento maior que a opinião ou a utilidade. Leão XIII, citado pelo Catecismo, diz que a razão que manda fazer o bem "não poderia ter força de lei, se não fosse a voz e a intérprete duma razão superior" (n. 1954).

O argumento não diz que ateus são imorais: o próprio Paulo reconhece que quem não conhece a Lei revelada pode fazer o bem, porque traz no coração "a obra da Lei" (Rm 2,14-15); a pergunta é sobre o fundamento, não sobre o comportamento. A evolução explica como passamos a sentir empatia, não por que esse sentimento seria verdadeiro, e não só útil. **Há uma objeção inspirada no diálogo Eutífron, de Platão:** o bem é bom porque Deus quer, ou Deus quer porque é bom? A tradição católica responde: Deus não obedece a um bem acima dele, nem manda por capricho; Ele é o próprio Bem. "Só Deus é bom por essência", diz Tomás (Suma I, q. 6, a. 3).

Romanos 2 e Tomás em tradução nossa. Capítulo inteiro na Bíblia Ave-Maria: Romanos 2.

O que a Igreja ensina

O que a Igreja ensina, e o que ela não define?

O Concílio Vaticano I, em 1870, na constituição Dei Filius (cap. 2), apoiado em Romanos 1,20, definiu que Deus pode ser conhecido pela razão e condenou quem negasse essa possibilidade. O Catecismo cita o texto e explica que tipo de prova é essa:

[…] Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido, com certeza, pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas […]

Catecismo da Igreja Católica, citando o Concílio Vaticano I, n. 36

[…] não no sentido das provas que as ciências naturais indagam mas no de «argumentos convergentes e convincentes» que permitem chegar a verdadeiras certezas.

Catecismo da Igreja Católica, n. 31

[…] a existência de Deus Criador pode ser conhecida com certeza pelas suas obras […], mesmo que tal conhecimento muitas vezes seja obscurecido e desfigurado pelo erro.

Catecismo da Igreja Católica, n. 286

Em terminologia filosófica, podemos dizer que, neste significativo texto paulino, está afirmada a capacidade metafísica do homem.

São João Paulo II, Fides et ratio, sobre Romanos 1, n. 22

O que é dogma. Que a razão pode conhecer Deus com certeza. Não que todos cheguem lá: o Catecismo lembra os obstáculos dos sentidos, da imaginação e dos maus desejos (n. 37), e Tomás dizia que, só pela razão, a verdade sobre Deus chegaria "a poucos, depois de muito tempo e com mistura de muitos erros" (Suma I, q. 1, a. 1). Por isso Deus também se revelou (n. 38).

O que não é dogma. Nenhum argumento particular: um católico pode achar uma via fraca e outra forte. E as provas não produzem a fé: "podem dispor para a fé" (n. 35). A pesquisa séria "jamais estará em oposição à fé" (n. 159), mas o caminho até Deus é filosófico, não de laboratório; por isso esta aula não usa a ciência como prova direta de Deus. A Dei Filius, em latim, está no site do Vaticano.

O que a história mostra

O que a ciência pode dizer, e o que não pode?

Um padre na origem da teoria. O belga Georges Lemaître, ordenado sacerdote em 1923, propôs em 1927 que as equações da relatividade de Einstein, aplicadas ao universo real, indicavam um universo em expansão. Em 1931, na revista Nature, sugeriu que o universo tivesse começado num estado extremamente denso: a primeira formulação do que se chamaria Big Bang, nome dado depois, com ironia, pelo astrônomo Fred Hoyle.

O que ele recusava. Em 1951, o papa Pio XII, num discurso à Pontifícia Academia das Ciências, falou dessa teoria como se ela confirmasse a criação. Segundo os arquivos da Universidade de Louvain, o discurso incomodou Lemaître: a teoria não era consenso, e ali se confundia o começo do universo, assunto da física, com a criação. Lemaître não guardou mágoa: em 1963 disse que o papa falara no terreno que lhe é próprio. Em 1958, afirmou que a cosmologia teórica permanece "inteiramente fora de qualquer questão metafísica ou religiosa".

Começo não é o mesmo que criação. Criar não é só dar o primeiro empurrão: é sustentar no ser, agora, tudo o que existe. Mesmo um universo sem começo absoluto pediria a mesma pergunta: por que existe alguma coisa? (A fé ensina que o mundo teve começo, Catecismo, n. 338; aqui se fala só do que a razão alcança.) Há quem use o Big Bang como apoio a uma das premissas de um argumento (o kalām, defendido hoje pelo filósofo William Lane Craig), mas apoiar a fé numa teoria física é arriscado: se a teoria muda, o argumento cai.

O limite de cada uma. A ciência descreve muito (a NASA situa a expansão do universo há cerca de 13,8 bilhões de anos), mas não pode dizer por que existe um universo com leis. E a fé não precisa de buracos na ciência para pôr Deus neles.

As frases de Lemaître estão em tradução nossa a partir das fontes em inglês.

Lado a lado

As objeções e as respostas, lado a lado

O que se dizO que se pode responderOnde conferir
Não há nenhuma evidência de Deus.Não há prova de laboratório, porque Deus não é uma coisa dentro do universo; há argumentos da razão a partir do mundo.Rm 1,19-20; Catecismo, n. 31
A ciência já explicou tudo.A ciência explica como as coisas funcionam, não por que existe algo com leis que se deixam estudar.Catecismo, n. 284; Fides et ratio, 88
O Big Bang prova que Deus existe.Nem prova nem refuta; o próprio Lemaître, que era padre, recusava essa mistura.Kragh; arquivos da Universidade de Louvain

Os frutos

Como conversar sobre isso com quem não crê?

O Concílio Vaticano II diz que a Igreja procura entender as razões de quem nega Deus e convida os ateus "cortêsmente a considerar com espírito aberto o Evangelho de Cristo" (Gaudium et spes, 21). Convite, não pressão.

Na prática: ouvir primeiro, porque muitos rejeitam uma caricatura de Deus, que o cristão também rejeita; ser honesto sobre o alcance dos argumentos, que levam a uma causa primeira, e não diretamente à Trindade; viver o que se diz, porque o que mais manifesta a presença de Deus é "a caridade fraterna dos fiéis" (n. 21).

Para guardar

A razão não põe Deus num tubo de ensaio, mas pode chegar a Ele pelo mundo: o que muda, o que poderia não existir e a ordem da natureza apontam para uma causa primeira. A Igreja chama esses caminhos de argumentos convergentes e convincentes, não de conta de matemática.

Teste

Teste o que você aprendeu

5 perguntas. A resposta aparece assim que você escolhe.

  1. 1. Em que sentido o Catecismo fala de "provas da existência de Deus"?

  2. 2. O que o Concílio Vaticano I ensinou em 1870 sobre Deus e a razão?

  3. 3. Quem propôs, em 1931, que o universo tivesse começado num estado inicial extremamente denso?

  4. 4. Segundo Tomás de Aquino, o que a razão sozinha não consegue provar?

  5. 5. Segundo o livro da Sabedoria (13,5), o que se contempla "por analogia" a partir da grandeza e da beleza das criaturas?

Perguntas frequentes

As cinco vias provam que Deus é Trindade?

Não. Elas chegam a uma causa primeira, que existe por si e sustenta todas as coisas. O Catecismo diz que Deus "deixou traços do seu Ser trinitário na obra da criação", mas que a intimidade do seu Ser como Trindade "constitui um mistério inacessível à razão sozinha" (n. 237). A razão chega ao Criador; que Ele é Pai, Filho e Espírito Santo, só a revelação mostra. Sobre o que a Bíblia diz, veja a aula Onde está a Trindade na Bíblia?.

O argumento de Santo Anselmo, só com o pensamento, prova que Deus existe?

É o chamado argumento ontológico, proposto por Anselmo de Cantuária no século XI, no Proslógio: Deus é aquilo de que nada maior se pode pensar, e o que existe na realidade é maior do que o que existe só na mente. Teve defensores ilustres, como Descartes, no século XVII, e críticos igualmente ilustres. Tomás de Aquino não o aceitava: entender a definição ainda não mostra que existe na realidade algo que corresponda a ela (Suma I, q. 2, a. 1, ad 2). Mais tarde, Kant também o criticou. A Igreja não se pronunciou sobre ele; é discussão livre entre filósofos.

E o "ajuste fino" do universo?

Físicos notam que, se algumas constantes da natureza fossem um pouco diferentes, por exemplo a força da gravidade em relação à do eletromagnetismo, estrelas como o Sol seriam muito diferentes, e poderiam faltar os elementos pesados de que a vida precisa. Muitos crentes veem nisso um sinal de propósito; outros respondem com a hipótese de muitos universos, ou dizem que não sabemos calcular essas probabilidades. É um dado que faz pensar, mas não é uma prova, e a doutrina da Igreja não depende dele.

Quem não crê em Deus pode se salvar?

O Concílio Vaticano II ensina que a Providência não nega os auxílios necessários à salvação a quem, sem culpa, ainda não chegou a conhecer Deus explicitamente e se esforça, com a ajuda da graça, por levar uma vida reta (Lumen gentium, 16). E diz também o outro lado: "não estão imunes de culpa todos aqueles que procuram voluntàriamente expulsar Deus do seu coração" (Gaudium et spes, 19). Só Deus conhece cada coração; à Igreja cabe anunciar o Evangelho, não julgar o íntimo de ninguém.

Se Deus existe, por que não se mostra de modo evidente?

A própria Bíblia conhece essa experiência: "Verdadeiramente tu és um Deus que se esconde, ó Deus de Israel, Salvador" (Is 45,15, em tradução nossa do hebraico; capítulo inteiro na Bíblia Ave-Maria). A Igreja ensina que a fé, para ser humana, tem de ser livre: ninguém pode ser obrigado a crer (Catecismo, n. 160). Daí uma reflexão: Deus se dá a conhecer de um modo que convida sem forçar; os sinais bastam para quem procura, mas não obrigam quem não quer ver. É uma reflexão teológica, não uma definição da Igreja.

Ciência e fé estão em guerra?

Não na doutrina da Igreja. O Concílio Vaticano II diz que a pesquisa feita com método nunca será realmente oposta à fé, e lamenta atitudes de cristãos que, por não reconhecerem a justa autonomia da ciência, levaram muitos a pensar o contrário; numa nota, cita uma biografia de Galileu publicada pela Pontifícia Academia das Ciências (Gaudium et spes, 36). Reconhecer esses erros também faz parte da resposta. E um padre e cientista, Georges Lemaître, um dos pais da cosmologia moderna, presidiu a Pontifícia Academia das Ciências de 1960 até morrer, em 1966.

Para ir mais fundo

Fontes

  1. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 27 a 49 (incluindo 31 a 38)
  2. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 237, 283 a 286 e 338
  3. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 159 e 160
  4. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 1954 (Leão XIII sobre a lei natural)
  5. VaticanoConcílio Vaticano I, constituição Dei Filius (1870), cap. 2 e cânon 2,1, em latim
  6. VaticanoSão João Paulo II, Fides et ratio, n. 19, 22 e 88
  7. VaticanoConcílio Vaticano II, Gaudium et spes, n. 19, 21 e 36
  8. VaticanoConcílio Vaticano II, Lumen gentium, n. 16
  9. Corpus ThomisticumTomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 2 (latim)
  10. Corpus ThomisticumTomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 1, a. 1 (latim)
  11. Corpus ThomisticumTomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 6, a. 3 (latim)
  12. Corpus ThomisticumTomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 46, a. 2 e ad 7 (latim)
  13. New AdventTeófilo de Antioquia, A Autólico, livro I (tradução inglesa)
  14. Catholic EncyclopediaTeófilo de Antioquia: a datação de A Autólico (depois de 180)
  15. Catholic EncyclopediaLivro da Sabedoria: escrito em grego, por um judeu de Alexandria
  16. Catholic EncyclopediaSanto Agostinho: datas da vida e das Confissões
  17. ElpenorSabedoria 13, texto grego da Septuaginta
  18. Bible HubRomanos 1,20, texto grego
  19. SefariaIsaías 45,15, texto hebraico
  20. Stanford Encyclopedia of PhilosophyCosmological Argument (histórico, Ibn Sina, Leibniz, kalām e Russell)
  21. Stanford Encyclopedia of PhilosophyTeleological Arguments for God's Existence (Paley, 1802)
  22. Stanford Encyclopedia of PhilosophyOntological Arguments (Anselmo, Descartes, Kant)
  23. Stanford Encyclopedia of PhilosophyFine-Tuning
  24. Stanford Encyclopedia of PhilosophyThomas Aquinas (datação da Suma Teológica)
  25. Stanford Encyclopedia of PhilosophyCosmological Argument, seção 5.2 (a terceira via: Rowe, Kenny e Haldane)
  26. Project GutenbergPlatão, Eutífron (tradução inglesa de Jowett)
  27. David Hume TextsDavid Hume, Diálogos sobre a religião natural (1779), parte IX
  28. Open CultureO debate de Russell e Copleston na rádio BBC (28 de janeiro de 1948)
  29. MacTutor (Universidade de St Andrews)Helge Kragh, verbete Lemaître na Biographical Encyclopedia of Astronomers
  30. MacTutor (Universidade de St Andrews)Biografia de Georges Lemaître (1927, 1931 e o nome Big Bang)
  31. Arquivos da UCLouvainPio XII, o discurso Un'Ora (1951) e a reação de Lemaître
  32. União Astronômica InternacionalComunicado iau1812: a lei de Hubble-Lemaître (2018)
  33. NASAVisão geral do universo: a expansão há cerca de 13,8 bilhões de anos
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