A resposta curta
O Catecismo admite que a esta pergunta "não é possível dar uma resposta rápida e satisfatória" (n. 309). A fé não explica cada sofrimento, mas ensina que Deus não criou o mal, que permite o mal moral por respeito à liberdade das criaturas, que fez um mundo ainda a caminho da perfeição, que sabe tirar do mal um bem e que em Cristo Ele mesmo entrou na dor para vencê-la.
A objeção
O que se costuma dizer
Um escritor cristão do começo do século IV, Lactâncio, guardou o argumento assim, atribuindo-o ao filósofo grego Epicuro:
Ou Deus quer tirar os males e não pode; ou pode e não quer; ou nem quer nem pode; ou quer e pode. Se quer e não pode, é fraco, o que não convém a Deus. Se pode e não quer, é invejoso, o que é igualmente estranho a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e fraco, e portanto nem é Deus. Se quer e pode, o único caso que convém a Deus, de onde vêm então os males? Ou por que não os tira? (A ira de Deus 13,20-21)
Hoje a objeção tem rostos: crianças com câncer, terremotos, os campos de extermínio. Diante disso, "Deus sabe o que faz" soa como desculpa, e o mais honesto, dizem muitos, seria admitir que não há ninguém lá em cima.
Não se responde a isso com pressa. Às vezes, quem pergunta acabou de enterrar alguém.
A frase de Lactâncio está em tradução nossa a partir do latim.
De onde vem a pergunta
De onde vem esse argumento?
Epicuro, ou não? Lactâncio põe o argumento na boca de Epicuro (341 a 270 a.C.), mas nenhum texto de Epicuro que chegou até nós o confirma. O estudioso alemão Reinhold Glei, já no título de um artigo de 1988, chama o trecho de "suposto fragmento de Epicuro" (das angebliche Epikurfragment). E Epicuro não era ateu: acreditava em deuses que não se ocupam dos assuntos humanos. A conclusão que Lactâncio lhe atribui não é "Deus não existe", e sim "Deus não se importa".
Depois. No século XVIII, David Hume retomou o argumento nos Diálogos sobre a religião natural (1779): "as velhas perguntas de Epicuro continuam sem resposta", diz um dos personagens (tradução nossa). No século XIX, em Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, Ivan conta casos de crianças torturadas e recusa uma harmonia final paga com essas lágrimas: não nega Deus, "devolve o bilhete". Em 1955, o filósofo John L. Mackie defendeu que Deus e o mal são logicamente incompatíveis.
A Igreja conhece esse caminho. O Concílio Vaticano II reconhece que o ateísmo "nasce muitas vezes dum protesto violento contra o mal que existe no mundo" (Gaudium et spes, 19). Bento XVI escreveu que, diante do sofrimento deste mundo, "o protesto contra Deus é compreensível", embora seja presunção achar que a humanidade fará sozinha aquilo que acusa Deus de não fazer (Spe salvi, 42).
A pergunta certa
Qual é a pergunta que importa?
Debaixo da mesma frase há duas perguntas, e misturá-las faz mal.
Uma é intelectual: há contradição entre um Deus bom e todo-poderoso e a existência do mal? Essa pede raciocínio honesto.
A outra é pessoal: por que isto aconteceu comigo, com o meu filho? Essa raramente se resolve com raciocínio. Dar um silogismo a quem está de luto é crueldade; dar só um abraço a quem pede um argumento é fugir da pergunta.
Ajuda também separar, como faz o Catecismo, o mal físico (doenças, terremotos) do mal moral, o mal que as criaturas livres fazem, "incomensuravelmente mais grave que o mal físico" (n. 311).
O que diziam os primeiros cristãos
O que é o mal? A resposta de Agostinho
Agostinho de Hipona (354 a 430) passou anos preso a essa pergunta. Na juventude, seguiu o maniqueísmo, que a resolvia com dois princípios eternos em luta, um bom e um mau (Catecismo, n. 285). Nas Confissões, escritas por volta de 400, ele lembra aquela angústia numa frase que o Catecismo cita: "Procurava a origem do mal e não encontrava solução" (VII,7,11; Catecismo, n. 385).
A saída veio de outro lado. Se Deus é bom e criou tudo, tudo o que existe, enquanto existe, é bom:
Portanto, tudo o que existe é bom; e aquele mal cuja origem eu procurava não é uma substância, porque, se fosse substância, seria um bem. (Confissões VII,12,18)
O mal não é uma coisa ao lado das outras: é uma falta numa coisa boa. No Enchiridion, um pequeno manual da fé escrito depois de setembro de 420, ele pergunta: "O que é aquilo a que chamamos mal, senão a privação do bem?" A doença é falta de saúde; quando há cura, ela não vai morar em outro lugar, simplesmente deixa de existir (Enchiridion 11). E o mal moral? Agostinho procurou o que era a maldade e não encontrou uma substância, mas "a perversão de uma vontade que se desvia da suprema substância, que és tu, ó Deus, para as coisas mais baixas" (Confissões VII,16,22).
Isso não quer dizer que o mal seja ilusão, nem que doa menos: a cegueira é uma falta, e é real. Tomás de Aquino precisou a ideia: não ter a força do leão não é um mal para o homem, mas não ter a visão, que pertence ao olho, é (Suma I, q. 48, a. 3). Mal é a falta do que devia estar ali.
No mesmo capítulo 11 do Enchiridion está a frase que o Catecismo usa para resumir a fé da Igreja (n. 311, citada abaixo), e com ela Tomás responde à objeção do mal no artigo das cinco vias (Suma I, q. 2, a. 3, ad 1).
As frases das Confissões e de Tomás estão em tradução nossa a partir do latim; a do Enchiridion, a partir de uma versão inglesa; a de Confissões VII,7,11, na tradução oficial do Catecismo.
O que diz a Bíblia
O que a Bíblia faz diante do sofrimento?
A Bíblia começa dizendo que a criação é boa ("Deus viu tudo o que tinha feito, e eis que era muito bom", Gn 1,31) e conta, numa linguagem feita de imagens, um acontecimento real do princípio da história: o pecado entra no mundo pela liberdade mal usada (Gn 3; Catecismo, n. 390). Mas o livro que enfrenta a pergunta de frente é Jó. Jó é justo e perde os bens, os filhos e a saúde. A primeira reação dele é de fé:
O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor. (Jó 1,21)
Três amigos vêm consolá-lo, e o melhor que fazem acontece antes de abrirem a boca:
Ficaram sentados com ele no chão sete dias e sete noites, e ninguém lhe dizia palavra alguma, porque viam que a sua dor era muito grande. (Jó 2,13)
Depois falam, e erram: insistem que, se Jó sofre, é porque pecou. Jó protesta e pede que Deus responda. Quando Deus fala, não explica; mostra a imensidão da criação e pergunta: "Onde estavas quando eu fundava a terra?" (Jó 38,4). Jó não recebe o porquê, mas encontra Deus: "Eu te conhecia de ouvir dizer, mas agora o meu olho te vê" (Jó 42,5). E o final surpreende. Deus diz a um dos amigos:
A minha ira se acendeu contra ti e contra os teus dois amigos, porque não falastes de mim o que é reto, como o meu servo Jó. (Jó 42,7)
Jó também ouviu correção e se calou diante de Deus (Jó 40,4-5; 42,6). Mas é dele, e não dos amigos que defendiam Deus com explicações fáceis, que Deus diz ter falado o que é reto. (No hebraico, "de mim" pode ser lido literalmente como "a mim"; por isso muitos leitores notam que Jó passa o livro falando com Deus, e os amigos, falando sobre Deus.)
Jesus segue a mesma linha. Sobre uma tragédia em Jerusalém, ele diz:
E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, pensais que eram mais culpados do que todos os moradores de Jerusalém? Não, eu vos digo. Mas, se não vos converterdes, todos perecereis do mesmo modo. (Lc 13,4-5)
Ele não explica a tragédia; recusa a ideia de que as vítimas fossem mais culpadas que os outros e a transforma num chamado para quem ouve. Diante de um cego de nascença, os discípulos perguntam de quem é a culpa; "nem ele pecou, nem os seus pais, mas para que nele se manifestem as obras de Deus", responde Jesus (Jo 9,3), e o cura. Diante do túmulo do amigo Lázaro, o Evangelho registra duas palavras: "Jesus chorou" (Jo 11,35). Na cruz, ele grita com as palavras com que começa o Salmo 22 (21 na numeração da Ave-Maria): "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mc 15,34). E, quase no fim, o Apocalipse promete que Deus "enxugará toda lágrima" e que não haverá mais morte, nem luto, nem grito, nem dor (Ap 21,4).
Versículos em tradução nossa, a partir do hebraico (Gênesis e Jó) e do grego (Evangelhos e Apocalipse). Capítulos inteiros na Bíblia Ave-Maria: Gênesis 1, Jó 1, Jó 2, Jó 38, Jó 42, Lucas 13, João 9, João 11, Marcos 15 e Apocalipse 21.

Por que Deus não fez um mundo sem mal?
A liberdade. O mal moral vem de criaturas livres, que, segundo o Catecismo, "devem caminhar para o seu último destino por livre escolha e amor preferencial" e, por isso, podem se desviar (n. 311). Deus quis criaturas capazes de amar de verdade, por escolha; nesta vida, essa liberdade inclui o risco de recusar. Deus não é causa do mal moral, "nem directa nem indirectamente"; Ele o permite, por respeito à liberdade (n. 311).
O mal físico. E o terremoto, o câncer, que ninguém escolheu? Deus quis criar um mundo "em estado de caminho" para a perfeição, em que há construção e destruição, seres que surgem e seres que desaparecem; por isso, "com o bem físico também existe, pois, o mal físico, enquanto a criação não tiver atingido a perfeição" (n. 310). Num mundo de leis estáveis, o fogo que aquece também queima. Para o homem, o Catecismo liga também a morte e a desarmonia com a criação ao pecado original (n. 400 e 1008), sem dizer que cada doença é castigo de um pecado pessoal.
Entre os filósofos. Em 1974, Alvin Plantinga respondeu a Mackie, no livro God, Freedom, and Evil, que não há contradição lógica em afirmar um Deus bom que permite o mal por causa de um bem como a liberdade. Desde então, boa parte do debate passou a outra forma: tanto mal, e tão concreto, não torna Deus improvável? O filósofo Michael Tooley, na Stanford Encyclopedia of Philosophy, insiste em discutir males concretos, e tem razão: é aí que a pergunta pesa.
O que a fé não diz. Não diz que cada sofrimento tem uma explicação visível agora: "só no fim" conheceremos plenamente os caminhos de Deus (n. 314). E não diz que o mal vira bem. Deus pode tirar um bem até de um crime, como na história de José, vendido pelos irmãos (Gn 50,20), e sobretudo na cruz, "mas nem por isso o mal se transforma em bem" (n. 312).
O que a Igreja ensina
O que a Igreja ensina sobre o mal?
O Catecismo trata do mal com uma franqueza rara. Começa admitindo o limite de qualquer resposta:
A esta questão, tão premente como inevitável, tão dolorosa como misteriosa, não é possível dar uma resposta rápida e satisfatória.
[…] nunca permitiria que qualquer mal existisse nas suas obras se não fosse suficientemente poderoso e bom para do próprio mal, fazer surgir o bem
Deus é infinitamente bom e todas as suas obras são boas. No entanto, ninguém escapa à experiência do sofrimento […]
Cristo não explica abstractamente as razões do sofrimento; mas, antes de mais nada, diz: « Segue-me! ».
Deus não pode padecer, mas pode-se compadecer.
O número 309 explica que a resposta é "o conjunto da fé cristã", da bondade da criação à vida eterna: não uma frase, mas uma história. João Paulo II (Salvifici doloris, 1984) lembra que Jó mostra que nem todo sofrimento é castigo (n. 11); Bento XVI (Spe salvi, 2007) explica que Deus se fez homem para poder sofrer com o homem, na carne e no sangue (n. 39).
O que é doutrina: Deus é bom e criou todas as coisas boas; não é causa do mal moral; permite o mal e é capaz de tirar dele o bem; Cristo venceu o mal pela cruz e pela ressurreição. O que fica em aberto: por que este mal concreto, nesta medida, nesta pessoa. A Igreja não diz que sabe (n. 314). O texto inteiro está no link de cada trecho.
O que a história mostra
Onde estava Deus em Auschwitz?
Em 28 de maio de 2006, Bento XVI, um papa alemão, foi ao antigo campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônia. Não chegou com explicações. Disse que, num lugar como aquele, "faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado", um silêncio que é "um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto?". E fez a pergunta de todos: "Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou?"
O papa não respondeu com uma teoria. Citou o Salmo 44, lamento de Israel que se sente abandonado ("Desperta, Senhor, por que dormes?"), lembrou que não somos juízes de Deus e da história, e transformou a pergunta num pedido: que Deus desperte, e que desperte também a sua presença escondida no coração dos homens (discurso em Auschwitz-Birkenau).
No mesmo complexo de Auschwitz, em 1941, o frade franciscano Maximiliano Kolbe se ofereceu para morrer no lugar de um prisioneiro condenado a morrer de fome, Franciszek Gajowniczek, porque ele era pai de família. Kolbe foi morto em 14 de agosto de 1941. Gajowniczek sobreviveu e estava presente quando João Paulo II canonizou Kolbe, em 10 de outubro de 1982 (homilia da canonização). Em Auschwitz morreu também, provavelmente em 9 de agosto de 1942, a filósofa de família judia Edith Stein, batizada em 1922, irmã Teresa Benedita da Cruz.
Nada disso explica Auschwitz. Mostra outra coisa: que no lugar onde o mal parecia ter a última palavra houve quem amasse até o fim.
Lado a lado
Respostas fáceis e o que a fé diz de fato
| O que se ouve | O que a fé diz | Onde conferir |
|---|---|---|
| "Foi castigo de Deus." | Nem todo sofrimento é castigo; Jesus recusou essa leitura. | Lc 13,4-5; Jo 9,3; Salvifici doloris, 11 |
| "Deus quis isso para você." | Deus não é causa do mal moral; permite-o e pode tirar dele um bem, mas o mal não vira bem. | Catecismo, n. 311 e 312 |
| "O mal não existe, é ilusão." | O mal é a falta de um bem que devia estar ali, e é bem real, como a cegueira. | Confissões VII,12,18; Suma I, q. 48, a. 3 |
| "Deus é indiferente." | Em Cristo, o Filho de Deus feito homem chorou, sofreu e morreu por nós. | Jo 11,35; Spe salvi, 39 |
Os frutos
O que a fé oferece a quem sofre, e o que pede a quem está perto?
A resposta cristã ao mal não é uma frase: é uma pessoa. Na cruz, Deus não explicou o sofrimento de fora; entrou nele. O Catecismo diz que Jesus nos assumiu a ponto de poder dizer, em nosso nome, "Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?" (n. 603). E a ressurreição diz que a dor não tem a última palavra. Bento XVI escreve: "existe a ressurreição da carne", e logo depois: "Existe uma justiça" (Spe salvi, 43).
Para quem está perto de alguém que sofre, Jó ensina muito: os amigos acertaram enquanto ficaram calados ao lado dele. João Paulo II, comentando a parábola do bom samaritano, escreve que "o Evangelho é a negação da passividade diante do sofrimento" (Salvifici doloris, 30): parar, cuidar, ajudar.
Com um amigo que deixou de crer por causa do mal, vale reconhecer que a pergunta é séria e que a Bíblia também a faz. O cristão não tem explicação para cada lágrima. Tem a promessa de que cada uma será enxugada (Ap 21,4), e um Deus que também chorou (Jo 11,35).
Para guardar
O Catecismo admite que não há resposta rápida para o mal. Mas o cristão sabe três coisas: Deus não criou o mal, sabe tirar o bem até do pior mal, e em Cristo entrou na dor para vencê-la. Diante de quem sofre, o primeiro gesto é o dos amigos de Jó antes de falar: ficar ao lado.
Teste
Teste o que você aprendeu
5 perguntas. A resposta aparece assim que você escolhe.
1. A quem o escritor cristão Lactâncio atribuiu o argumento "ou Deus quer tirar os males e não pode, ou pode e não quer"?
Lactâncio cita o argumento em A ira de Deus (13,20-21), no começo do século IV, como sendo de Epicuro. Estudiosos duvidam da atribuição, porque nenhum texto do próprio Epicuro o traz.
2. Para Santo Agostinho, o que é o mal?
Nas Confissões (VII,12,18), Agostinho conclui que o mal não é uma substância. No Enchiridion (11), ele o descreve como privação do bem, como a doença é falta de saúde. É uma falta real, não uma ilusão.
3. O que fizeram os amigos de Jó nos primeiros sete dias?
Jó 2,13 conta que ficaram sete dias e sete noites com ele, sem dizer palavra, porque viam que a dor era muito grande. Os erros deles começaram quando passaram a explicar o sofrimento como castigo.
4. Segundo o Catecismo (n. 311), por que Deus permite o mal moral?
O Catecismo diz que Deus não é, de modo algum, causa do mal moral, mas o permite por respeito à liberdade da criatura e misteriosamente sabe tirar dele o bem.
5. O que Jesus diz, em Lucas 13, sobre os dezoito mortos na queda da torre de Siloé?
Jesus recusa ver castigo na tragédia (Lc 13,4-5): eles não eram mais culpados. E transforma o fato num chamado à conversão para quem ouve.
Perguntas frequentes
É pecado reclamar com Deus no sofrimento?
Levar a dor a Deus, até em forma de lamento e de pergunta dura, não é pecado: a Bíblia guarda essas orações. Há salmos de lamento, como o 44 (43 na numeração da Ave-Maria), que Bento XVI citou em Auschwitz; há Jeremias, que chega a amaldiçoar o dia em que nasceu (Jr 20,14); há o livro de Jó inteiro. O que a Bíblia recusa é voltar-se contra Deus, como sugere a mulher de Jó (Jó 2,9-10); o Catecismo chama de blasfêmia as palavras de ódio e desafio contra Deus (n. 2148). Queixar-se diante de Deus ainda é falar com Ele.
Por que Deus não impediu o primeiro pecado?
O Catecismo responde com São Leão Magno: «A graça inefável de Cristo deu-nos bens superiores aos que a inveja do demónio nos tinha tirado» (n. 412). E lembra o canto da Vigília Pascal que chama a culpa de Adão de "feliz culpa", por ter merecido tão grande Redentor. Não quer dizer que o pecado foi bom, mas que Deus respondeu a ele com um bem maior.
E o sofrimento dos animais?
A Igreja não tem uma doutrina detalhada sobre isso, e é honesto dizer. O Catecismo situa a dor e a morte na natureza dentro de um mundo "em estado de caminho", em que uns seres surgem e outros desaparecem (n. 310). João Paulo II observa que a dor está amplamente difundida no mundo dos animais, mas que só o homem, ao sofrer, sabe que sofre e pergunta por quê (Salvifici doloris, 9). O resto é reflexão teológica em aberto.
O que é teodiceia?
É a tentativa de justificar Deus diante do mal. A palavra ficou famosa com o livro Teodiceia, do filósofo Leibniz (1710), que defendia que este é o melhor dos mundos possíveis. O Catecismo não vai por esse caminho: diz que Deus, no seu poder infinito, "podia sempre ter criado um mundo melhor" (n. 310, citando Tomás de Aquino). A fé não afirma que este mundo é o melhor possível, e sim que Deus o conduz, com o mal incluído, para um fim bom (n. 314).
Para ir mais fundo
Fontes
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 285, 309 a 314, 324, 385, 390, 400 e 412
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 603
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 1008
- VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 2148
- VaticanoConcílio Vaticano II, Gaudium et spes, n. 19
- VaticanoBento XVI, Spe salvi, n. 39, 42 e 43
- VaticanoSão João Paulo II, Salvifici doloris, n. 9, 11, 26 e 30
- VaticanoBento XVI, discurso no campo de Auschwitz-Birkenau (28 de maio de 2006)
- VaticanoSão João Paulo II, homilia da canonização de Maximiliano Kolbe (10 de outubro de 1982)
- VaticanoBiografia de Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein)
- Perseus (Universidade Tufts)Lactâncio, A ira de Deus 13, texto latino (edição Brandt, 1897)
- New AdventLactâncio, A ira de Deus 13 (tradução inglesa)
- Catholic EncyclopediaLactâncio, apologista cristão do século IV
- BrillReinhold Glei, Et invidus et inbecillus. Das angebliche Epikurfragment bei Laktanz, De ira Dei 13,20-21, Vigiliae Christianae 42 (1988), p. 47 a 58
- Stanford Encyclopedia of PhilosophyEpicurus (datas e os deuses que não se ocupam dos homens)
- David Hume TextsDavid Hume, Diálogos sobre a religião natural, parte X
- Project GutenbergDostoiévski, Os irmãos Karamázov, livro V, cap. 4, Rebelião (tradução inglesa)
- Stanford Encyclopedia of PhilosophyMichael Tooley, The Problem of Evil (Mackie, Plantinga e as formas do argumento)
- Stanford Encyclopedia of PhilosophyLeibniz on the Problem of Evil (Teodiceia, 1710)
- The Latin LibraryAgostinho, Confissões, livro VII (latim)
- New AdventAgostinho, Enchiridion, cap. 11 (tradução inglesa)
- CCELNota introdutória ao Enchiridion: escrito depois de setembro de 420
- Catholic EncyclopediaSanto Agostinho: datas da vida e das Confissões
- Corpus ThomisticumTomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 2, a. 3, ad 1 (latim)
- Corpus ThomisticumTomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 48, a. 1 e 3 (latim)
- SefariaJó 42,7, texto hebraico
- Bible HubLucas 13,4, texto grego

