Pular para o conteúdo
Imagem gerada por IA: ao entardecer, um homem magro e ferido está sentado entre cinzas, com um caco de cerâmica na mão, e três homens idosos de roupas rasgadas sentam-se no chão ao lado dele, em silêncio.

Se Deus é bom, por que existe o mal?

Talvez seja a objeção mais séria contra a fé, e a Igreja admite que não há resposta rápida. A resposta cristã existe, mas passa por Jó, pela cruz de Cristo e por quem fica ao lado de quem sofre.

13 min de leitura

Imagem gerada por IA: Jó e os três amigos, que ficaram sete dias em silêncio ao lado dele (Jó 2,8-13), em estilo de pintura barroca

A resposta curta

O Catecismo admite que a esta pergunta "não é possível dar uma resposta rápida e satisfatória" (n. 309). A fé não explica cada sofrimento, mas ensina que Deus não criou o mal, que permite o mal moral por respeito à liberdade das criaturas, que fez um mundo ainda a caminho da perfeição, que sabe tirar do mal um bem e que em Cristo Ele mesmo entrou na dor para vencê-la.

A objeção

O que se costuma dizer

Um escritor cristão do começo do século IV, Lactâncio, guardou o argumento assim, atribuindo-o ao filósofo grego Epicuro:

Ou Deus quer tirar os males e não pode; ou pode e não quer; ou nem quer nem pode; ou quer e pode. Se quer e não pode, é fraco, o que não convém a Deus. Se pode e não quer, é invejoso, o que é igualmente estranho a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e fraco, e portanto nem é Deus. Se quer e pode, o único caso que convém a Deus, de onde vêm então os males? Ou por que não os tira? (A ira de Deus 13,20-21)

Hoje a objeção tem rostos: crianças com câncer, terremotos, os campos de extermínio. Diante disso, "Deus sabe o que faz" soa como desculpa, e o mais honesto, dizem muitos, seria admitir que não há ninguém lá em cima.

Não se responde a isso com pressa. Às vezes, quem pergunta acabou de enterrar alguém.

A frase de Lactâncio está em tradução nossa a partir do latim.

De onde vem a pergunta

De onde vem esse argumento?

Epicuro, ou não? Lactâncio põe o argumento na boca de Epicuro (341 a 270 a.C.), mas nenhum texto de Epicuro que chegou até nós o confirma. O estudioso alemão Reinhold Glei, já no título de um artigo de 1988, chama o trecho de "suposto fragmento de Epicuro" (das angebliche Epikurfragment). E Epicuro não era ateu: acreditava em deuses que não se ocupam dos assuntos humanos. A conclusão que Lactâncio lhe atribui não é "Deus não existe", e sim "Deus não se importa".

Depois. No século XVIII, David Hume retomou o argumento nos Diálogos sobre a religião natural (1779): "as velhas perguntas de Epicuro continuam sem resposta", diz um dos personagens (tradução nossa). No século XIX, em Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, Ivan conta casos de crianças torturadas e recusa uma harmonia final paga com essas lágrimas: não nega Deus, "devolve o bilhete". Em 1955, o filósofo John L. Mackie defendeu que Deus e o mal são logicamente incompatíveis.

A Igreja conhece esse caminho. O Concílio Vaticano II reconhece que o ateísmo "nasce muitas vezes dum protesto violento contra o mal que existe no mundo" (Gaudium et spes, 19). Bento XVI escreveu que, diante do sofrimento deste mundo, "o protesto contra Deus é compreensível", embora seja presunção achar que a humanidade fará sozinha aquilo que acusa Deus de não fazer (Spe salvi, 42).

A pergunta certa

Qual é a pergunta que importa?

Debaixo da mesma frase há duas perguntas, e misturá-las faz mal.

Uma é intelectual: há contradição entre um Deus bom e todo-poderoso e a existência do mal? Essa pede raciocínio honesto.

A outra é pessoal: por que isto aconteceu comigo, com o meu filho? Essa raramente se resolve com raciocínio. Dar um silogismo a quem está de luto é crueldade; dar só um abraço a quem pede um argumento é fugir da pergunta.

Ajuda também separar, como faz o Catecismo, o mal físico (doenças, terremotos) do mal moral, o mal que as criaturas livres fazem, "incomensuravelmente mais grave que o mal físico" (n. 311).

O que diziam os primeiros cristãos

O que é o mal? A resposta de Agostinho

Agostinho de Hipona (354 a 430) passou anos preso a essa pergunta. Na juventude, seguiu o maniqueísmo, que a resolvia com dois princípios eternos em luta, um bom e um mau (Catecismo, n. 285). Nas Confissões, escritas por volta de 400, ele lembra aquela angústia numa frase que o Catecismo cita: "Procurava a origem do mal e não encontrava solução" (VII,7,11; Catecismo, n. 385).

A saída veio de outro lado. Se Deus é bom e criou tudo, tudo o que existe, enquanto existe, é bom:

Portanto, tudo o que existe é bom; e aquele mal cuja origem eu procurava não é uma substância, porque, se fosse substância, seria um bem. (Confissões VII,12,18)

O mal não é uma coisa ao lado das outras: é uma falta numa coisa boa. No Enchiridion, um pequeno manual da fé escrito depois de setembro de 420, ele pergunta: "O que é aquilo a que chamamos mal, senão a privação do bem?" A doença é falta de saúde; quando há cura, ela não vai morar em outro lugar, simplesmente deixa de existir (Enchiridion 11). E o mal moral? Agostinho procurou o que era a maldade e não encontrou uma substância, mas "a perversão de uma vontade que se desvia da suprema substância, que és tu, ó Deus, para as coisas mais baixas" (Confissões VII,16,22).

Isso não quer dizer que o mal seja ilusão, nem que doa menos: a cegueira é uma falta, e é real. Tomás de Aquino precisou a ideia: não ter a força do leão não é um mal para o homem, mas não ter a visão, que pertence ao olho, é (Suma I, q. 48, a. 3). Mal é a falta do que devia estar ali.

No mesmo capítulo 11 do Enchiridion está a frase que o Catecismo usa para resumir a fé da Igreja (n. 311, citada abaixo), e com ela Tomás responde à objeção do mal no artigo das cinco vias (Suma I, q. 2, a. 3, ad 1).

As frases das Confissões e de Tomás estão em tradução nossa a partir do latim; a do Enchiridion, a partir de uma versão inglesa; a de Confissões VII,7,11, na tradução oficial do Catecismo.

O que diz a Bíblia

O que a Bíblia faz diante do sofrimento?

A Bíblia começa dizendo que a criação é boa ("Deus viu tudo o que tinha feito, e eis que era muito bom", Gn 1,31) e conta, numa linguagem feita de imagens, um acontecimento real do princípio da história: o pecado entra no mundo pela liberdade mal usada (Gn 3; Catecismo, n. 390). Mas o livro que enfrenta a pergunta de frente é Jó. Jó é justo e perde os bens, os filhos e a saúde. A primeira reação dele é de fé:

O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor. (Jó 1,21)

Três amigos vêm consolá-lo, e o melhor que fazem acontece antes de abrirem a boca:

Ficaram sentados com ele no chão sete dias e sete noites, e ninguém lhe dizia palavra alguma, porque viam que a sua dor era muito grande. (Jó 2,13)

Depois falam, e erram: insistem que, se Jó sofre, é porque pecou. Jó protesta e pede que Deus responda. Quando Deus fala, não explica; mostra a imensidão da criação e pergunta: "Onde estavas quando eu fundava a terra?" (Jó 38,4). Jó não recebe o porquê, mas encontra Deus: "Eu te conhecia de ouvir dizer, mas agora o meu olho te vê" (Jó 42,5). E o final surpreende. Deus diz a um dos amigos:

A minha ira se acendeu contra ti e contra os teus dois amigos, porque não falastes de mim o que é reto, como o meu servo Jó. (Jó 42,7)

Jó também ouviu correção e se calou diante de Deus (Jó 40,4-5; 42,6). Mas é dele, e não dos amigos que defendiam Deus com explicações fáceis, que Deus diz ter falado o que é reto. (No hebraico, "de mim" pode ser lido literalmente como "a mim"; por isso muitos leitores notam que Jó passa o livro falando com Deus, e os amigos, falando sobre Deus.)

Jesus segue a mesma linha. Sobre uma tragédia em Jerusalém, ele diz:

E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, pensais que eram mais culpados do que todos os moradores de Jerusalém? Não, eu vos digo. Mas, se não vos converterdes, todos perecereis do mesmo modo. (Lc 13,4-5)

Ele não explica a tragédia; recusa a ideia de que as vítimas fossem mais culpadas que os outros e a transforma num chamado para quem ouve. Diante de um cego de nascença, os discípulos perguntam de quem é a culpa; "nem ele pecou, nem os seus pais, mas para que nele se manifestem as obras de Deus", responde Jesus (Jo 9,3), e o cura. Diante do túmulo do amigo Lázaro, o Evangelho registra duas palavras: "Jesus chorou" (Jo 11,35). Na cruz, ele grita com as palavras com que começa o Salmo 22 (21 na numeração da Ave-Maria): "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mc 15,34). E, quase no fim, o Apocalipse promete que Deus "enxugará toda lágrima" e que não haverá mais morte, nem luto, nem grito, nem dor (Ap 21,4).

Versículos em tradução nossa, a partir do hebraico (Gênesis e Jó) e do grego (Evangelhos e Apocalipse). Capítulos inteiros na Bíblia Ave-Maria: Gênesis 1, Jó 1, Jó 2, Jó 38, Jó 42, Lucas 13, João 9, João 11, Marcos 15 e Apocalipse 21.

Imagem gerada por IA: diante de uma gruta funerária fechada por uma pedra, Jesus chora, ao lado de duas mulheres de véu que também choram, enquanto moradores da aldeia observam.
Imagem gerada por IA: Jesus chora diante do túmulo de Lázaro, em Betânia (Jo 11,33-38), em estilo de pintura renascentista

Por que Deus não fez um mundo sem mal?

A liberdade. O mal moral vem de criaturas livres, que, segundo o Catecismo, "devem caminhar para o seu último destino por livre escolha e amor preferencial" e, por isso, podem se desviar (n. 311). Deus quis criaturas capazes de amar de verdade, por escolha; nesta vida, essa liberdade inclui o risco de recusar. Deus não é causa do mal moral, "nem directa nem indirectamente"; Ele o permite, por respeito à liberdade (n. 311).

O mal físico. E o terremoto, o câncer, que ninguém escolheu? Deus quis criar um mundo "em estado de caminho" para a perfeição, em que há construção e destruição, seres que surgem e seres que desaparecem; por isso, "com o bem físico também existe, pois, o mal físico, enquanto a criação não tiver atingido a perfeição" (n. 310). Num mundo de leis estáveis, o fogo que aquece também queima. Para o homem, o Catecismo liga também a morte e a desarmonia com a criação ao pecado original (n. 400 e 1008), sem dizer que cada doença é castigo de um pecado pessoal.

Entre os filósofos. Em 1974, Alvin Plantinga respondeu a Mackie, no livro God, Freedom, and Evil, que não há contradição lógica em afirmar um Deus bom que permite o mal por causa de um bem como a liberdade. Desde então, boa parte do debate passou a outra forma: tanto mal, e tão concreto, não torna Deus improvável? O filósofo Michael Tooley, na Stanford Encyclopedia of Philosophy, insiste em discutir males concretos, e tem razão: é aí que a pergunta pesa.

O que a fé não diz. Não diz que cada sofrimento tem uma explicação visível agora: "só no fim" conheceremos plenamente os caminhos de Deus (n. 314). E não diz que o mal vira bem. Deus pode tirar um bem até de um crime, como na história de José, vendido pelos irmãos (Gn 50,20), e sobretudo na cruz, "mas nem por isso o mal se transforma em bem" (n. 312).

O que a Igreja ensina

O que a Igreja ensina sobre o mal?

O Catecismo trata do mal com uma franqueza rara. Começa admitindo o limite de qualquer resposta:

A esta questão, tão premente como inevitável, tão dolorosa como misteriosa, não é possível dar uma resposta rápida e satisfatória.

Catecismo da Igreja Católica, n. 309

[…] nunca permitiria que qualquer mal existisse nas suas obras se não fosse suficientemente poderoso e bom para do próprio mal, fazer surgir o bem

Catecismo da Igreja Católica, citando Santo Agostinho (Enchiridion 11), n. 311

Deus é infinitamente bom e todas as suas obras são boas. No entanto, ninguém escapa à experiência do sofrimento […]

Catecismo da Igreja Católica, n. 385

Cristo não explica abstractamente as razões do sofrimento; mas, antes de mais nada, diz: « Segue-me! ».

São João Paulo II, Salvifici doloris, n. 26

Deus não pode padecer, mas pode-se compadecer.

Bento XVI, Spe salvi, citando São Bernardo de Claraval, n. 39

O número 309 explica que a resposta é "o conjunto da fé cristã", da bondade da criação à vida eterna: não uma frase, mas uma história. João Paulo II (Salvifici doloris, 1984) lembra que Jó mostra que nem todo sofrimento é castigo (n. 11); Bento XVI (Spe salvi, 2007) explica que Deus se fez homem para poder sofrer com o homem, na carne e no sangue (n. 39).

O que é doutrina: Deus é bom e criou todas as coisas boas; não é causa do mal moral; permite o mal e é capaz de tirar dele o bem; Cristo venceu o mal pela cruz e pela ressurreição. O que fica em aberto: por que este mal concreto, nesta medida, nesta pessoa. A Igreja não diz que sabe (n. 314). O texto inteiro está no link de cada trecho.

O que a história mostra

Onde estava Deus em Auschwitz?

Em 28 de maio de 2006, Bento XVI, um papa alemão, foi ao antigo campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônia. Não chegou com explicações. Disse que, num lugar como aquele, "faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado", um silêncio que é "um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto?". E fez a pergunta de todos: "Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou?"

O papa não respondeu com uma teoria. Citou o Salmo 44, lamento de Israel que se sente abandonado ("Desperta, Senhor, por que dormes?"), lembrou que não somos juízes de Deus e da história, e transformou a pergunta num pedido: que Deus desperte, e que desperte também a sua presença escondida no coração dos homens (discurso em Auschwitz-Birkenau).

No mesmo complexo de Auschwitz, em 1941, o frade franciscano Maximiliano Kolbe se ofereceu para morrer no lugar de um prisioneiro condenado a morrer de fome, Franciszek Gajowniczek, porque ele era pai de família. Kolbe foi morto em 14 de agosto de 1941. Gajowniczek sobreviveu e estava presente quando João Paulo II canonizou Kolbe, em 10 de outubro de 1982 (homilia da canonização). Em Auschwitz morreu também, provavelmente em 9 de agosto de 1942, a filósofa de família judia Edith Stein, batizada em 1922, irmã Teresa Benedita da Cruz.

Nada disso explica Auschwitz. Mostra outra coisa: que no lugar onde o mal parecia ter a última palavra houve quem amasse até o fim.

Lado a lado

Respostas fáceis e o que a fé diz de fato

O que se ouveO que a fé dizOnde conferir
"Foi castigo de Deus."Nem todo sofrimento é castigo; Jesus recusou essa leitura.Lc 13,4-5; Jo 9,3; Salvifici doloris, 11
"Deus quis isso para você."Deus não é causa do mal moral; permite-o e pode tirar dele um bem, mas o mal não vira bem.Catecismo, n. 311 e 312
"O mal não existe, é ilusão."O mal é a falta de um bem que devia estar ali, e é bem real, como a cegueira.Confissões VII,12,18; Suma I, q. 48, a. 3
"Deus é indiferente."Em Cristo, o Filho de Deus feito homem chorou, sofreu e morreu por nós.Jo 11,35; Spe salvi, 39

Os frutos

O que a fé oferece a quem sofre, e o que pede a quem está perto?

A resposta cristã ao mal não é uma frase: é uma pessoa. Na cruz, Deus não explicou o sofrimento de fora; entrou nele. O Catecismo diz que Jesus nos assumiu a ponto de poder dizer, em nosso nome, "Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?" (n. 603). E a ressurreição diz que a dor não tem a última palavra. Bento XVI escreve: "existe a ressurreição da carne", e logo depois: "Existe uma justiça" (Spe salvi, 43).

Para quem está perto de alguém que sofre, Jó ensina muito: os amigos acertaram enquanto ficaram calados ao lado dele. João Paulo II, comentando a parábola do bom samaritano, escreve que "o Evangelho é a negação da passividade diante do sofrimento" (Salvifici doloris, 30): parar, cuidar, ajudar.

Com um amigo que deixou de crer por causa do mal, vale reconhecer que a pergunta é séria e que a Bíblia também a faz. O cristão não tem explicação para cada lágrima. Tem a promessa de que cada uma será enxugada (Ap 21,4), e um Deus que também chorou (Jo 11,35).

Para guardar

O Catecismo admite que não há resposta rápida para o mal. Mas o cristão sabe três coisas: Deus não criou o mal, sabe tirar o bem até do pior mal, e em Cristo entrou na dor para vencê-la. Diante de quem sofre, o primeiro gesto é o dos amigos de Jó antes de falar: ficar ao lado.

Teste

Teste o que você aprendeu

5 perguntas. A resposta aparece assim que você escolhe.

  1. 1. A quem o escritor cristão Lactâncio atribuiu o argumento "ou Deus quer tirar os males e não pode, ou pode e não quer"?

  2. 2. Para Santo Agostinho, o que é o mal?

  3. 3. O que fizeram os amigos de Jó nos primeiros sete dias?

  4. 4. Segundo o Catecismo (n. 311), por que Deus permite o mal moral?

  5. 5. O que Jesus diz, em Lucas 13, sobre os dezoito mortos na queda da torre de Siloé?

Perguntas frequentes

É pecado reclamar com Deus no sofrimento?

Levar a dor a Deus, até em forma de lamento e de pergunta dura, não é pecado: a Bíblia guarda essas orações. Há salmos de lamento, como o 44 (43 na numeração da Ave-Maria), que Bento XVI citou em Auschwitz; há Jeremias, que chega a amaldiçoar o dia em que nasceu (Jr 20,14); há o livro de Jó inteiro. O que a Bíblia recusa é voltar-se contra Deus, como sugere a mulher de Jó (Jó 2,9-10); o Catecismo chama de blasfêmia as palavras de ódio e desafio contra Deus (n. 2148). Queixar-se diante de Deus ainda é falar com Ele.

Por que Deus não impediu o primeiro pecado?

O Catecismo responde com São Leão Magno: «A graça inefável de Cristo deu-nos bens superiores aos que a inveja do demónio nos tinha tirado» (n. 412). E lembra o canto da Vigília Pascal que chama a culpa de Adão de "feliz culpa", por ter merecido tão grande Redentor. Não quer dizer que o pecado foi bom, mas que Deus respondeu a ele com um bem maior.

E o sofrimento dos animais?

A Igreja não tem uma doutrina detalhada sobre isso, e é honesto dizer. O Catecismo situa a dor e a morte na natureza dentro de um mundo "em estado de caminho", em que uns seres surgem e outros desaparecem (n. 310). João Paulo II observa que a dor está amplamente difundida no mundo dos animais, mas que só o homem, ao sofrer, sabe que sofre e pergunta por quê (Salvifici doloris, 9). O resto é reflexão teológica em aberto.

O que é teodiceia?

É a tentativa de justificar Deus diante do mal. A palavra ficou famosa com o livro Teodiceia, do filósofo Leibniz (1710), que defendia que este é o melhor dos mundos possíveis. O Catecismo não vai por esse caminho: diz que Deus, no seu poder infinito, "podia sempre ter criado um mundo melhor" (n. 310, citando Tomás de Aquino). A fé não afirma que este mundo é o melhor possível, e sim que Deus o conduz, com o mal incluído, para um fim bom (n. 314).

Para ir mais fundo

Fontes

  1. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 285, 309 a 314, 324, 385, 390, 400 e 412
  2. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 603
  3. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 1008
  4. VaticanoCatecismo da Igreja Católica, n. 2148
  5. VaticanoConcílio Vaticano II, Gaudium et spes, n. 19
  6. VaticanoBento XVI, Spe salvi, n. 39, 42 e 43
  7. VaticanoSão João Paulo II, Salvifici doloris, n. 9, 11, 26 e 30
  8. VaticanoBento XVI, discurso no campo de Auschwitz-Birkenau (28 de maio de 2006)
  9. VaticanoSão João Paulo II, homilia da canonização de Maximiliano Kolbe (10 de outubro de 1982)
  10. VaticanoBiografia de Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein)
  11. Perseus (Universidade Tufts)Lactâncio, A ira de Deus 13, texto latino (edição Brandt, 1897)
  12. New AdventLactâncio, A ira de Deus 13 (tradução inglesa)
  13. Catholic EncyclopediaLactâncio, apologista cristão do século IV
  14. BrillReinhold Glei, Et invidus et inbecillus. Das angebliche Epikurfragment bei Laktanz, De ira Dei 13,20-21, Vigiliae Christianae 42 (1988), p. 47 a 58
  15. Stanford Encyclopedia of PhilosophyEpicurus (datas e os deuses que não se ocupam dos homens)
  16. David Hume TextsDavid Hume, Diálogos sobre a religião natural, parte X
  17. Project GutenbergDostoiévski, Os irmãos Karamázov, livro V, cap. 4, Rebelião (tradução inglesa)
  18. Stanford Encyclopedia of PhilosophyMichael Tooley, The Problem of Evil (Mackie, Plantinga e as formas do argumento)
  19. Stanford Encyclopedia of PhilosophyLeibniz on the Problem of Evil (Teodiceia, 1710)
  20. The Latin LibraryAgostinho, Confissões, livro VII (latim)
  21. New AdventAgostinho, Enchiridion, cap. 11 (tradução inglesa)
  22. CCELNota introdutória ao Enchiridion: escrito depois de setembro de 420
  23. Catholic EncyclopediaSanto Agostinho: datas da vida e das Confissões
  24. Corpus ThomisticumTomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 2, a. 3, ad 1 (latim)
  25. Corpus ThomisticumTomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 48, a. 1 e 3 (latim)
  26. SefariaJó 42,7, texto hebraico
  27. Bible HubLucas 13,4, texto grego
Grupo no WhatsApp