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Igreja

Dia da Padroeira: os dois candidatos na missa e o pedido contra o ódio

Rezar é bom, e é bom para os dois. O risco começa quando a missa vira recado. Em Aparecida, o arcebispo lembrou que o Evangelho não autoriza ninguém a odiar.

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Pintura de Rafael: dois barcos num lago, pescadores puxam redes cheias de peixes; num deles, Pedro se ajoelha diante de Jesus, sentado na proa.
A pesca milagrosa, de Rafael (1515 a 1516), cartão para as tapeçarias da Capela Sistina, Victoria and Albert Museum, Londres. Foto: Royal Collection, no Victoria and Albert Museum, via Wikimedia Commons, Domínio público

A notícia

O Tempo12/10/2026

‘Evangelho não nos autoriza a odiar quem pensa diferente’, diz arcebispo de Aparecida

Em 12 de outubro de 2026, Dia de Nossa Senhora Aparecida, os dois candidatos do segundo turno foram à missa em Brasília: Lula na capela do Palácio da Alvorada, onde depois disse a jornalistas que a padroeira é ofendida por "alguns religiosos", sem dizer quem, e Flávio Bolsonaro na Catedral, com a esposa, o candidato a vice e aliados. As duas missas estavam nas agendas públicas dos candidatos. Em Aparecida, o arcebispo dom Mário Antônio da Silva disse na homilia, sem citar partido nem candidato, que o Evangelho não autoriza ninguém a odiar quem pensa diferente.

O evangelho não nos autoriza a odiar quem pensa diferente nem a matar os inimigos

Dom Mário Antônio da Silva, arcebispo de Aparecida, na homilia de 12 de outubro, citado pelo O Tempo
Ler na íntegra em O Tempo

O que a Igreja ensina

O nosso respeito e amor devem estender-se também àqueles que pensam ou actuam diferentemente de nós em matéria social, política ou até religiosa.

Gaudium et Spes (Concílio Vaticano II), 28

Para evitar o juízo temerário, cada um procurará interpretar em sentido favorável, tanto quanto possível, os pensamentos, as palavras e os actos do seu próximo

Catecismo da Igreja Católica, 2478

Este culto [...], embora inteiramente singular, difere essencialmente do culto de adoração que se presta por igual ao Verbo Encarnado, ao Pai e ao Espírito Santo, e favorece-o poderosamente

Catecismo da Igreja Católica, 971

Reflexão

Dois candidatos, a mesma Mãe

Na segunda-feira, 12 de outubro, Lula e Flávio Bolsonaro foram à missa no dia da padroeira. Lula, na capela do Palácio da Alvorada, com crianças e militantes do MTST, numa celebração do padre jesuíta Alvaro Pimentel. Flávio, na Catedral de Brasília, na primeira fila, com a esposa, o candidato a vice e aliados. As duas missas estavam nas agendas públicas dos candidatos.

Ir à missa é bom, e é bom para os dois. Ninguém precisa provar a fé para entrar numa igreja, e a Igreja não pergunta o voto de quem chega. Num ano em que a padroeira entrou na campanha por meio de um boato, ver os dois candidatos rezando no mesmo dia, diante da mesma Mãe, é um sinal que vale guardar.

Quando a missa vira recado

O cuidado começa na porta de saída. Depois da missa, Lula disse a jornalistas: "Nossa Senhora Aparecida é ofendida por alguns religiosos que não querem respeitar a religião dos outros" (na transcrição do Estadão Conteúdo). Não disse quem são esses religiosos. Na Catedral, uma deputada aliada de Flávio abriu a cerimônia entrando com a imagem da santa e depois se juntou ao grupo dele nos bancos. E os dois levaram companhia política: Lula, militantes do MTST; Flávio, o candidato a vice e aliados. Até onde as matérias mostram, nenhum dos dois discursou dentro do templo.

O Papa Leão XIV lamentou, numa mensagem sobre a paz, que faça parte do nosso tempo "arrastar as palavras da fé para o embate político". A régua vale para os dois. Rezar em público não é pecado; usar o culto como palco é outra coisa, e cada um pode julgar onde ficou cada gesto.

O mesmo cuidado vale para a forma de falar dos outros. Uma acusação sem nome deixa cada um imaginar o alvo, e o Catecismo pede o contrário: "interpretar em sentido favorável, tanto quanto possível, os pensamentos, as palavras e os actos do seu próximo" (2478). Isso vale para a fala de Lula, que não disse a quem se referia. E vale para a acusação, levada pela campanha de Flávio ao TSE, de que um canal de apoiadores de Lula espalhou o boato de que ele tiraria de Aparecida o título de padroeira: no mesmo dia 12, a área técnica do tribunal disse "não ser possível aferir" se houve disparo de fake news pelo canal, e registrou que parte das publicações de setembro foi apagada a partir de 7 de outubro; a campanha de Flávio diz que vai entregar um novo relatório. Em 2 de outubro, o ministro André Mendonça, do TSE, já tinha mandado as plataformas removerem as publicações com o boato, e Flávio o chama de "a maior fake news da campanha".

O que o arcebispo pediu

Nenhum dos dois candidatos foi a Aparecida; o arcebispo negou que o Santuário tenha restringido a presença de candidatos, e estavam na missa o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Na homilia, sem citar partido nem candidato, dom Mário Antônio da Silva disse: "O evangelho não nos autoriza a odiar quem pensa diferente nem a matar os inimigos". É o Sermão da Montanha ("Amai os vossos inimigos", Mateus 5,44), e é também o Concílio Vaticano II, que pede respeito e amor "àqueles que pensam ou actuam diferentemente de nós em matéria social, política ou até religiosa" (Gaudium et Spes 28).

Isso inclui o irmão evangélico que não tem devoção a Maria. Para ele, a devoção católica pode parecer excessiva; para o católico, ela é parte da fé. O Catecismo explica que o culto a Nossa Senhora "difere essencialmente do culto de adoração" devido só a Deus (971). Não rezar à Virgem não é ofendê-la, e explicar isso com calma vale mais do que transformar a diferença em trincheira.

Uma imagem em dois pedaços

Em 1717, três pescadores tiraram do rio Paraíba do Sul uma imagem de Nossa Senhora que veio nas redes em dois pedaços: primeiro o corpo, depois, rio abaixo, a cabeça. Foi uma mulher da família, Silvana da Rocha Alves, quem juntou as duas partes com cera e pôs a imagem num pequeno altar de casa, conta o Santuário Nacional.

O Brasil chega ao segundo turno também partido em dois. A padroeira não escolhe um dos pedaços. Ela é a imagem que alguém teve o cuidado de juntar.

Veja outros Olhares sobre a vida da Igreja.

Assinado por Filipe Lourenço.

Perguntas e respostas

Um candidato pode ir à missa em plena campanha?

Pode, e é bom que reze: a Igreja acolhe todos e não pergunta o voto de ninguém. O cuidado é não transformar o culto em palco. Na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2026, o Papa Leão XIV alertou contra "arrastar as palavras da fé para o embate político".

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O que Lula disse sobre Nossa Senhora Aparecida no Dia da Padroeira de 2026?

Depois de uma missa na capela do Palácio da Alvorada, em 12 de outubro de 2026, Lula disse a jornalistas, segundo o Estadão Conteúdo: "Nossa Senhora Aparecida é ofendida por alguns religiosos que não querem respeitar a religião dos outros" e "Ninguém é obrigado a ser da mesma religião". Ele não disse a quem se referia.

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O que o arcebispo de Aparecida disse na homilia de 12 de outubro de 2026?

Dom Mário Antônio da Silva disse que "o evangelho não nos autoriza a odiar quem pensa diferente nem a matar os inimigos". Na entrevista depois da missa, disse que o cenário político está carregado de "muita disputa, de muita acusação", sem citar partido nem candidato.

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Evangélico que não reza a Maria ofende Nossa Senhora?

Não. A diferença sobre o culto a Maria é séria e pode ser explicada com clareza, mas não é ofensa. O Catecismo ensina que o culto católico a Nossa Senhora "difere essencialmente do culto de adoração" que se presta só a Deus (971), e o Concílio pede respeito a quem pensa diferente em matéria religiosa (Gaudium et Spes 28).

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Fontes

  1. O Tempo‘Evangelho não nos autoriza a odiar quem pensa diferente’, diz arcebispo de Aparecida
  2. O TempoLula e Flávio Bolsonaro participam de missa no dia de Nossa Senhora Aparecida; confira agendas
  3. Jornal de Brasília (Estadão Conteúdo)Em missa no Alvorada, Lula diz que Aparecida é ofendida por alguns religiosos
  4. Estado de MinasFlávio Bolsonaro participa de missa no Dia de Nossa Senhora Aparecida
  5. CNN BrasilTécnicos do TSE dizem não poder aferir se "Exército do Lula" usou fake news
  6. Santa SéMensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial da Paz de 2026
  7. Santuário Nacional de Aparecida (A12)1717: o aparecimento da imagem

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