
A notícia
ACI Digital16/10/2026
Pesquisa investiga manifestações eleitorais em missas e cultos, gera críticas, mas detecta pouca política em igrejas
A More in Common Brasil e o grupo Passagens, da UFRJ, analisaram 7.456 missas e cultos transmitidos no YouTube nos dois domingos antes do primeiro turno de 2026 e acharam propaganda eleitoral em 3,2% deles: 0,7% das missas católicas, 1,4% dos cultos batistas e 8,3% dos da Assembleia de Deus. Entidades como o Instituto Brasileiro de Direito e Religião reagiram dizendo que monitorar celebrações constrange o culto; os pesquisadores dizem que só olharam falas públicas e que pregação moral não foi tratada automaticamente como propaganda.
Ler na íntegra em ACI DigitalA avaliação
- Contra·CondutaPadres e pastores que, segundo a pesquisa Fé e Voto (More in Common e UFRJ), pediram voto, apontaram ou abençoaram candidato durante a celebração, em 3,2% das 7.456 missas e cultos analisados antes do primeiro turno de 2026 (0,7% das missas).
- Fiel·Doutrina SocialA pesquisa Fé e Voto, segundo o coordenador Rodrigo Toniol, não tratou automaticamente como propaganda eleitoral a pregação moral sobre família e aborto, separando ensino moral de pedido de voto.
- Prudencial·Doutrina SocialPesquisadores da More in Common e da UFRJ baixaram do YouTube, transcreveram e classificaram em larga escala missas e cultos transmitidos pelas próprias igrejas e divulgaram o resultado na reta final da eleição de 2026; críticos veem efeito intimidatório, os autores veem estudo de falas públicas.
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O que a Igreja ensina
Porém, sempre lhe deve ser permitido pregar com verdadeira liberdade a fé; ensinar a sua doutrina acerca da sociedade; exercer sem entraves a própria missão entre os homens; e pronunciar o seu juízo moral mesmo acerca das realidades políticas, sempre que os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem
Não compete aos pastores da Igreja intervir directamente na construção política e na organização da vida social. Este papel faz parte da vocação dos fiéis leigos, agindo por sua própria iniciativa juntamente com os seus concidadãos.
Os grupos religiosos têm ainda o direito de não serem impedidos de ensinar e testemunhar publicamente, por palavra e por escrito a sua fé. Porém, na difusão da fé religiosa e na introdução de novas práticas, deve sempre evitar-se todo o modo de agir que tenha visos de coacção, persuasão desonesta ou simplesmente menos leal
Reflexão
O altar não é palanque, e também não é mordaça
A pesquisa respondeu a uma pergunta que muita gente fazia em voz alta nesta eleição: as igrejas viraram comitê de campanha? Pelos números, não. Em sete de cada mil missas analisadas houve algo que os pesquisadores chamaram de propaganda eleitoral. Nas outras, o que se ouviu foi a Missa.
Mas o número baixo não encerra a questão. Ele obriga a separar duas coisas que a Igreja sempre separou e que a briga política vive misturando.
O padre tem o dever de falar de política
A primeira é o direito, e mais que isso o dever, de a Igreja dizer o que é certo e o que é errado na vida pública. O Concílio é claro: deve ser sempre permitido à Igreja "pronunciar o seu juízo moral mesmo acerca das realidades políticas, sempre que os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem" (Gaudium et Spes, 76).
Isso quer dizer que a homilia sobre o aborto, sobre a família, sobre o pobre esquecido, sobre a mentira na campanha, não é propaganda. É o padre fazendo o trabalho dele. Um padre que se cala sobre a vida desde a concepção para não parecer que está fazendo campanha não ficou neutro: ficou devendo ao seu povo. O próprio coordenador do estudo disse que esse tipo de pregação não foi contado automaticamente como propaganda, e é bom que tenha sido assim.
O padre não tem o papel de escolher o candidato
A segunda coisa é o limite. O Catecismo diz sem rodeio: "Não compete aos pastores da Igreja intervir directamente na construção política e na organização da vida social" (n. 2442). Escolher o candidato, montar a chapa, fazer a campanha é tarefa dos leigos, com a consciência formada pela doutrina. Já tratamos disso quando um cardeal recebeu um candidato: o bispo pode receber quem quer governar, mas a visita não é aval, e quem escolhe é o eleitor.
Por isso o pedido de voto no altar é um erro, venha de que lado vier. Não importa se o candidato abençoado parece o mais católico da disputa. Quem usa a autoridade do altar para conduzir o voto troca o Evangelho por um nome e empresta a Cristo uma bandeira que não é dele. O Concílio chama de abuso a persuasão "menos leal" na difusão da fé (Dignitatis Humanae, 4); com mais razão o é quando o que se difunde nem é a fé, é um candidato.
E o monitoramento?
Aqui católicos fiéis podem divergir. As transmissões são públicas; estudar o que se diz em público não é o mesmo que o Estado fiscalizar o culto, e os próprios autores lembram que o estudo não é acusação. Ao mesmo tempo, as entidades que reclamaram têm um ponto: quando se anuncia que milhares de homilias foram baixadas, transcritas e classificadas, algum padre pode começar a medir as palavras, e o medo de ser rotulado também cala.
A saída não é o silêncio do púlpito nem a vigilância sobre ele. É o padre que fala de moral com toda a clareza e não diz em quem votar. Esse não tem nada a temer de pesquisa nenhuma. E a Missa, que nesta eleição quase nunca virou palanque, continua sendo o lugar onde o voto se forma pela consciência, e não onde ele é encomendado.
Assinado por Filipe Lourenço.
Perguntas e respostas
O padre pode falar de aborto ou de família na homilia em época de eleição?
Sim. A Igreja tem o direito de dar seu juízo moral sobre as realidades políticas (Gaudium et Spes, 76). Ensinar a moral não é propaganda eleitoral; o próprio estudo Fé e Voto disse não ter tratado essa pregação automaticamente como propaganda.
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O padre pode dizer em quem votar na missa?
Não é papel dele. O Catecismo (n. 2442) diz que não compete aos pastores intervir diretamente na construção política: essa tarefa é dos leigos, com a consciência formada pela doutrina.
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Quanta propaganda eleitoral a pesquisa achou nas missas?
Segundo o estudo da More in Common com a UFRJ, 0,7% das 1.785 missas analisadas, contra 1,4% dos cultos batistas e 8,3% dos da Assembleia de Deus, nos dois domingos antes do primeiro turno de 2026. A amostra não é representativa de todas as igrejas.
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Monitorar missas transmitidas fere a liberdade religiosa?
É questão prudencial. O estudo usou transmissões públicas e não é ação do Estado, mas entidades como o IBDR e o Instituto Isabel apontam o risco de intimidar quem prega. A doutrina garante o direito de ensinar publicamente a fé (Dignitatis Humanae, 4).
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Fontes
- ACI DigitalPesquisa investiga manifestações eleitorais em missas e cultos, gera críticas, mas detecta pouca política em igrejas
- More in Common BrasilFé e Voto: um Retrato do Discurso Eleitoral nas Igrejas Brasileiras
- ComunhãoPropaganda eleitoral aparece em 3,2% de cultos e missas
- Coletivo BereiaCultos e missas foram espaço de propaganda eleitoral às vésperas do primeiro turno das eleições, aponta pesquisa
- Brasil Paralelo [dir.]Missas e cultos foram monitorados por ONG e universidade federal às vésperas das eleições
- Gazeta do Povo (coluna) [dir.]Vigiar os púlpitos é violar a liberdade religiosa
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