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Vida

Execução ao vivo nos EUA: o que a Igreja ensina

A Igreja pede justiça para as vítimas de Fort Hood, mas sem pena de morte e sem espetáculo.

O OlharContrao ensino da Igreja · 3 pontos avaliados33Nota do Olhar
F4 min de leitura
Pintura de Goya: à noite, soldados enfileirados apontam fuzis para um grupo de homens; no centro, iluminado por uma lanterna, um homem de camisa branca abre os braços diante dos fuzis, e há corpos caídos no chão.
O Três de Maio de 1808, de Francisco de Goya (1814), Museu do Prado, Madri. Foto: Museu do Prado, via Wikimedia Commons, Domínio público

A notícia

g109/10/2026

ONU denuncia como 'tortura' a execução ao vivo anunciada nos EUA

O governo dos EUA anunciou que vai transmitir ao vivo o fuzilamento de Nidal Hasan, autor do massacre de Fort Hood (13 mortos em 2009), marcado para 3 de dezembro de 2026, na primeira execução militar desde 1961. O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos disse que a transmissão equivale a uma execução pública e violaria a proibição absoluta da tortura.

A transmissão ao vivo de uma execução equivale a uma execução pública e violaria a proibição absoluta da tortura

Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, em mensagem à AFP
Ler na íntegra em g1

A avaliação

Contra o ensino da IgrejaA marca vai no ato, não na pessoa.33
  1. ContraDoutrina SocialO governo dos EUA vai executar Nidal Hasan, condenado pelo massacre de Fort Hood (13 mortos em 2009), por pelotão de fuzilamento em 3 de dezembro de 2026; o presidente Donald Trump aprovou a sentença de morte em 2 de outubro.
  2. ContraDoutrina SocialO secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, anunciou que a execução de Nidal Hasan, autor do massacre de Fort Hood (2009), será pública, porque as pessoas "precisam entender que há consequências sérias" (tradução nossa). Depois, o Pentágono confirmou que ela será transmitida ao vivo.
  3. FielDoutrina SocialO Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos disse que transmitir ao vivo a execução de Nidal Hasan, autor do massacre de Fort Hood, marcada pelos EUA para 3 de dezembro de 2026, "equivale a uma execução pública" e violaria a proibição absoluta da tortura.

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O que a Igreja ensina

Hoje vai-se tornando cada vez mais viva a consciência de que a dignidade da pessoa não se perde, mesmo depois de ter cometido crimes gravíssimos. (...) Por isso a Igreja ensina, à luz do Evangelho, que «a pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e dignidade da pessoa»

Catecismo da Igreja Católica, 2267

É direito e dever da autoridade pública legítima infligir penas proporcionadas à gravidade do delito.

Catecismo da Igreja Católica, 2266

Nem sequer o homicida perde a sua dignidade pessoal e o próprio Deus Se constitui seu garante.

Evangelium Vitae (São João Paulo II), 9

Os medos e os rancores levam facilmente a entender as penas de maneira vingativa, se não cruel, em vez de as considerar como parte dum processo de cura e reinserção na sociedade.

Fratelli Tutti (Papa Francisco), 266

Reflexão

O crime foi real, e a dor também

Em 5 de novembro de 2009, Nidal Hasan matou 13 pessoas e feriu 32 na base de Fort Hood, no Texas. Entre os mortos estava uma soldado grávida, Francheska Velez. Ele foi julgado por uma corte marcial em 2013 e condenado à morte. Os recursos automáticos terminaram em 2025, quando a Suprema Corte dos EUA negou o último pedido.

Nada disso é pequeno, e a Igreja não pede que se esqueça. "Deus não pode deixar impune o crime", escreveu São João Paulo II (Evangelium Vitae 9), e o Catecismo ensina que punir é direito e dever da autoridade pública, com penas proporcionais à gravidade do crime (2266). A pergunta não é se Hasan deve pagar pelo que fez. É como.

O que a Igreja ensina hoje

Durante muito tempo, a pena de morte aplicada pela autoridade legítima, depois de um processo regular, foi considerada uma resposta adequada a alguns crimes graves e um meio aceitável, ainda que extremo, de proteger o bem comum (2267). Em 2018, o Papa Francisco mudou o Catecismo, e hoje a Igreja ensina que ela é inadmissível, porque atenta contra a dignidade da pessoa, e trabalha pela sua abolição no mundo todo. O motivo não é diminuir o crime, e sim lembrar que quem o cometeu continua sendo pessoa: no mesmo texto, São João Paulo II escreveu que nem o homicida perde a sua dignidade, e que o próprio Deus é o garante dela.

O ensino vale também nos EUA. Em 2013, o arcebispo militar americano, dom Timothy Broglio, disse que se opunha à pena de morte para Hasan: "A Igreja ensina que matar sem justificação é errado em todas as circunstâncias. Isso inclui a pena de morte". E completou: "O major Hasan e suas vítimas têm todos direito à justiça" (tradução nossa). Em abril de 2026, o Papa Leão XIV, americano, repetiu numa mensagem que "a pena de morte é inadmissível" e apoiou quem luta pelo seu fim nos EUA.

Transmitir ao vivo é outro passo

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, explicou por que quer a execução aberta ao público: as pessoas "precisam entender que há consequências sérias" (tradução nossa). Proteger a ordem pública e a segurança das pessoas é um fim legítimo da pena (Catecismo 2266). Mas uma morte assistida ao vivo corre o risco de virar espetáculo: Geoffrey Corn, professor de direito que serviu no corpo jurídico do Exército americano, disse à CBS que transformar a execução num "espetáculo público" remete a um passado que o país parecia ter deixado para trás (tradução nossa). Em termos gerais, o Papa Francisco alertou que medos e rancores levam a entender as penas "de maneira vingativa, se não cruel", em vez de as ver como caminho de cura e reinserção (Fratelli Tutti 266).

A ONU chegou ao mesmo ponto por outro caminho: para o Alto Comissariado para os Direitos Humanos, transmitir uma execução equivale a uma execução pública, e execuções públicas, segundo o órgão, são tratamento ou pena cruel, desumano e degradante. Senadores dos dois partidos criticaram o plano: o republicano Thom Tillis o chamou de "mais do que repugnante", e o democrata Chris Murphy disse que execuções públicas são "medievais" (tradução nossa).

A resposta de quem perdeu alguém

Muitos sobreviventes disseram que pretendem estar lá no dia. Leila Hunt Willingham, irmã de um dos mortos, não vai: "Acredito que a justiça pertence às autoridades competentes. O julgamento, porém, pertence a Deus. Confio a Jesus o meu irmão e a alma de Nidal Hasan" (tradução nossa).

Talvez seja essa a resposta mais cristã a um crime tão grave: justiça firme, sem vingança e sem plateia, e a última palavra deixada a Deus. Veja outros Olhares sobre a dignidade da vida humana.

Assinado por Filipe Lourenço.

Perguntas e respostas

A Igreja Católica aceita a pena de morte?

Não. Desde 2018, o Catecismo ensina que a pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa, e a Igreja trabalha pela sua abolição em todo o mundo (Catecismo 2267).

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Ser contra a pena de morte é esquecer as vítimas?

Não. O Catecismo diz que é direito e dever da autoridade pública punir com penas proporcionais à gravidade do crime (2266). O que a Igreja recusa é tirar a vida do condenado, porque nem o homicida perde a sua dignidade pessoal (Evangelium Vitae 9).

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Por que a ONU chamou de tortura a transmissão ao vivo da execução de Nidal Hasan nos EUA?

Para o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, transmitir uma execução ao vivo equivale a uma execução pública. Segundo o órgão, execuções públicas são tratamento ou pena cruel, desumano e degradante, e a proibição absoluta da tortura as proíbe.

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Quando será a execução de Nidal Hasan, autor do massacre de Fort Hood?

Está marcada para 3 de dezembro de 2026, em Fort Hood, no Texas, por pelotão de fuzilamento. Será a primeira execução militar dos EUA desde 1961. Hasan ainda pode pedir habeas corpus, o que poderia adiar a data.

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Fontes

  1. g1ONU denuncia como 'tortura' a execução ao vivo anunciada nos EUA
  2. CBS NewsFort Hood shooter's execution will be livestreamed, Pentagon says
  3. Exército dos EUA (army.mil)Army Sets Execution Date for Convicted Murderer Nidal Hasan
  4. AP, via PBSPentagon says firing squad execution of Fort Hood shooter will be livestreamed
  5. NPRTrump approved the military's 1st firing squad execution since WWII. Why now?
  6. Arab News, com AFPUS decision to livestream execution would be torture, says UN
  7. The WeekThe livestream execution of former US Army major Nidal Hasan
  8. CBS TexasFort Hood shooting survivors, victims' families grapple with Nidal Hasan's Dec. 3 execution
  9. CBS News, com AP (2010)Fort Hood Witness: Gunman Shot Pregnant Soldier
  10. The Tablet, com Catholic News ServiceUS Military Archbishop Opposes Death for Hasan
  11. Vatican NewsPapa Leão XIV: mensagem pela abolição da pena de morte

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