
A notícia
g109/10/2026
ONU denuncia como 'tortura' a execução ao vivo anunciada nos EUA
O governo dos EUA anunciou que vai transmitir ao vivo o fuzilamento de Nidal Hasan, autor do massacre de Fort Hood (13 mortos em 2009), marcado para 3 de dezembro de 2026, na primeira execução militar desde 1961. O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos disse que a transmissão equivale a uma execução pública e violaria a proibição absoluta da tortura.
Ler na íntegra em g1A transmissão ao vivo de uma execução equivale a uma execução pública e violaria a proibição absoluta da tortura
A avaliação
- Contra·Doutrina SocialO governo dos EUA vai executar Nidal Hasan, condenado pelo massacre de Fort Hood (13 mortos em 2009), por pelotão de fuzilamento em 3 de dezembro de 2026; o presidente Donald Trump aprovou a sentença de morte em 2 de outubro.
- Contra·Doutrina SocialO secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, anunciou que a execução de Nidal Hasan, autor do massacre de Fort Hood (2009), será pública, porque as pessoas "precisam entender que há consequências sérias" (tradução nossa). Depois, o Pentágono confirmou que ela será transmitida ao vivo.
- Fiel·Doutrina SocialO Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos disse que transmitir ao vivo a execução de Nidal Hasan, autor do massacre de Fort Hood, marcada pelos EUA para 3 de dezembro de 2026, "equivale a uma execução pública" e violaria a proibição absoluta da tortura.
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O que a Igreja ensina
Hoje vai-se tornando cada vez mais viva a consciência de que a dignidade da pessoa não se perde, mesmo depois de ter cometido crimes gravíssimos. (...) Por isso a Igreja ensina, à luz do Evangelho, que «a pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e dignidade da pessoa»
É direito e dever da autoridade pública legítima infligir penas proporcionadas à gravidade do delito.
Nem sequer o homicida perde a sua dignidade pessoal e o próprio Deus Se constitui seu garante.
Os medos e os rancores levam facilmente a entender as penas de maneira vingativa, se não cruel, em vez de as considerar como parte dum processo de cura e reinserção na sociedade.
Reflexão
O crime foi real, e a dor também
Em 5 de novembro de 2009, Nidal Hasan matou 13 pessoas e feriu 32 na base de Fort Hood, no Texas. Entre os mortos estava uma soldado grávida, Francheska Velez. Ele foi julgado por uma corte marcial em 2013 e condenado à morte. Os recursos automáticos terminaram em 2025, quando a Suprema Corte dos EUA negou o último pedido.
Nada disso é pequeno, e a Igreja não pede que se esqueça. "Deus não pode deixar impune o crime", escreveu São João Paulo II (Evangelium Vitae 9), e o Catecismo ensina que punir é direito e dever da autoridade pública, com penas proporcionais à gravidade do crime (2266). A pergunta não é se Hasan deve pagar pelo que fez. É como.
O que a Igreja ensina hoje
Durante muito tempo, a pena de morte aplicada pela autoridade legítima, depois de um processo regular, foi considerada uma resposta adequada a alguns crimes graves e um meio aceitável, ainda que extremo, de proteger o bem comum (2267). Em 2018, o Papa Francisco mudou o Catecismo, e hoje a Igreja ensina que ela é inadmissível, porque atenta contra a dignidade da pessoa, e trabalha pela sua abolição no mundo todo. O motivo não é diminuir o crime, e sim lembrar que quem o cometeu continua sendo pessoa: no mesmo texto, São João Paulo II escreveu que nem o homicida perde a sua dignidade, e que o próprio Deus é o garante dela.
O ensino vale também nos EUA. Em 2013, o arcebispo militar americano, dom Timothy Broglio, disse que se opunha à pena de morte para Hasan: "A Igreja ensina que matar sem justificação é errado em todas as circunstâncias. Isso inclui a pena de morte". E completou: "O major Hasan e suas vítimas têm todos direito à justiça" (tradução nossa). Em abril de 2026, o Papa Leão XIV, americano, repetiu numa mensagem que "a pena de morte é inadmissível" e apoiou quem luta pelo seu fim nos EUA.
Transmitir ao vivo é outro passo
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, explicou por que quer a execução aberta ao público: as pessoas "precisam entender que há consequências sérias" (tradução nossa). Proteger a ordem pública e a segurança das pessoas é um fim legítimo da pena (Catecismo 2266). Mas uma morte assistida ao vivo corre o risco de virar espetáculo: Geoffrey Corn, professor de direito que serviu no corpo jurídico do Exército americano, disse à CBS que transformar a execução num "espetáculo público" remete a um passado que o país parecia ter deixado para trás (tradução nossa). Em termos gerais, o Papa Francisco alertou que medos e rancores levam a entender as penas "de maneira vingativa, se não cruel", em vez de as ver como caminho de cura e reinserção (Fratelli Tutti 266).
A ONU chegou ao mesmo ponto por outro caminho: para o Alto Comissariado para os Direitos Humanos, transmitir uma execução equivale a uma execução pública, e execuções públicas, segundo o órgão, são tratamento ou pena cruel, desumano e degradante. Senadores dos dois partidos criticaram o plano: o republicano Thom Tillis o chamou de "mais do que repugnante", e o democrata Chris Murphy disse que execuções públicas são "medievais" (tradução nossa).
A resposta de quem perdeu alguém
Muitos sobreviventes disseram que pretendem estar lá no dia. Leila Hunt Willingham, irmã de um dos mortos, não vai: "Acredito que a justiça pertence às autoridades competentes. O julgamento, porém, pertence a Deus. Confio a Jesus o meu irmão e a alma de Nidal Hasan" (tradução nossa).
Talvez seja essa a resposta mais cristã a um crime tão grave: justiça firme, sem vingança e sem plateia, e a última palavra deixada a Deus. Veja outros Olhares sobre a dignidade da vida humana.
Assinado por Filipe Lourenço.
Perguntas e respostas
A Igreja Católica aceita a pena de morte?
Não. Desde 2018, o Catecismo ensina que a pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa, e a Igreja trabalha pela sua abolição em todo o mundo (Catecismo 2267).
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Ser contra a pena de morte é esquecer as vítimas?
Não. O Catecismo diz que é direito e dever da autoridade pública punir com penas proporcionais à gravidade do crime (2266). O que a Igreja recusa é tirar a vida do condenado, porque nem o homicida perde a sua dignidade pessoal (Evangelium Vitae 9).
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Por que a ONU chamou de tortura a transmissão ao vivo da execução de Nidal Hasan nos EUA?
Para o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, transmitir uma execução ao vivo equivale a uma execução pública. Segundo o órgão, execuções públicas são tratamento ou pena cruel, desumano e degradante, e a proibição absoluta da tortura as proíbe.
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Quando será a execução de Nidal Hasan, autor do massacre de Fort Hood?
Está marcada para 3 de dezembro de 2026, em Fort Hood, no Texas, por pelotão de fuzilamento. Será a primeira execução militar dos EUA desde 1961. Hasan ainda pode pedir habeas corpus, o que poderia adiar a data.
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Fontes
- g1ONU denuncia como 'tortura' a execução ao vivo anunciada nos EUA
- CBS NewsFort Hood shooter's execution will be livestreamed, Pentagon says
- Exército dos EUA (army.mil)Army Sets Execution Date for Convicted Murderer Nidal Hasan
- AP, via PBSPentagon says firing squad execution of Fort Hood shooter will be livestreamed
- NPRTrump approved the military's 1st firing squad execution since WWII. Why now?
- Arab News, com AFPUS decision to livestream execution would be torture, says UN
- The WeekThe livestream execution of former US Army major Nidal Hasan
- CBS TexasFort Hood shooting survivors, victims' families grapple with Nidal Hasan's Dec. 3 execution
- CBS News, com AP (2010)Fort Hood Witness: Gunman Shot Pregnant Soldier
- The Tablet, com Catholic News ServiceUS Military Archbishop Opposes Death for Hasan
- Vatican NewsPapa Leão XIV: mensagem pela abolição da pena de morte
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